
Manu Pilger
Mestra em Comunicação pela Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB)
Nas últimas semanas, manchetes nacionais voltaram a colocar Feira de Santana entre as cidades mais violentas do Brasil e do mundo. Embora os dados sejam importantes para orientar políticas públicas, é igualmente necessário olhar com sensibilidade para o que esses números não dizem ou, pior, para o que eles silenciam.
Feira de Santana é cidade com uma história rica, um povo trabalhador e um papel vital no desenvolvimento do interior do estado. E, como toda cidade que pulsa, tem problemas, mas também tem força, tem vida, tem potência E abriga algumas das principais instituições de ensino superior da Bahia, como a Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS) e o campus da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), além de centros universitários e faculdades privadas que atraem estudantes de toda a região. É um polo acadêmico que forma médicos, professores, engenheiros, artistas, cientistas e empreendedores.
Também é uma cidade de cultura viva, festas populares, feiras livres, teatro, música e tradições. É ponto de passagem, de encontro e de permanência. Estima-se que, durante a semana, a população de Feira chegue a 1 milhão de pessoas, com trabalhadores que vêm de cidades vizinhas para buscar sustento e oportunidade. Isso a torna um grande centro econômico e social do interior baiano e que emprega mais de 25 mil trabalhadores registrados com carteira assinada segundo o Sindicato do Comércio que fiz questão de buscar.
Eu mesma não nasci em Feira de Santana, mas vivo aqui há 15 anos. Quando cheguei, meu sonho era conquistar minha casa própria e foi aqui que isso aconteceu. Foi essa cidade que me deu chão, que me deu estabilidade e segurança para construir minha vida. Por isso, sou grata. Por isso, quero que outras pessoas vejam a Feira que eu conheço: a cidade que acolhe, que gera renda, que constrói histórias.
Encher as ruas de viaturas da polícia ou da guarda municipal em cada esquina pode até transmitir uma sensação momentânea de segurança, mas, infelizmente, não resolve, por si só, o problema da violência. Os fatores que alimentam a criminalidade são muito mais profundos. Eles nascem, muitas vezes, da ausência de estrutura familiar, da falta de oportunidades reais e da carência de políticas que trabalhem a base: educação, cultura, esporte, trabalho e dignidade.
A violência se combate, também, com planejamento familiar, com o resgate da educação moral e ética, com o fortalecimento dos vínculos afetivos e com a formação da personalidade, que começa, e deveria ser cultivada, dentro de casa. Quando olhamos para os dados da população carcerária no Brasil, vemos um quadro preocupante:
Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) e o Departamento Penitenciário Nacional (DEPEN):
• O Brasil tem cerca de 852 mil pessoas presas em regimes diversos (dados de 2024).
• 86% são homens, 72% têm até 30 anos, e 69% são negros.
• Aproximadamente 60% da população carcerária tem entre 18 e 34 anos.
• Cerca de 50% dos presos não completaram o ensino fundamental, e apenas 3% têm ensino superior.
Esses jovens muitos deles negros, de baixa escolaridade e sem oportunidades, poderiam estar estudando, trabalhando, cursando o ensino superior, mas acabam entrando cedo no mundo do crime, não apenas por falta de oportunidades, mas, principalmente, por falta de orientação, apoio e políticas públicas eficazes. Claro que precisamos enfrentar os desafios da segurança pública com seriedade. Mas reduzir Feira de Santana à violência é injusto e, mais do que isso, é prejudicial. Afasta investimentos. Espanta turistas. Diminui a autoestima de quem vive aqui. E ignora uma cidade viva, trabalhadora e cheia de possibilidades.
Feira precisa, sim, de atenção. Mas também precisa de visibilidade positiva. De uma população que valorize o que tem. De lideranças que se orgulhem de contar o que há de bom na Princesa do Sertão. Feira de Santana não é perfeita. Mas é forte. E merece mais do que estatísticas frias. Merece ser contada pelas histórias de quem constrói seus dias aqui. Como eu. Como tantos. Como você, que talvez esteja lendo este texto de dentro de um ônibus a caminho do trabalho ou em casa, sonhando com uma vida melhor que pode, sim, começar por aqui. Eu Amo Fêra.
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