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Manu Pilger, Mestra em Comunicação pela UFRB

As redes sociais se tornaram vitrines de afetos, mas também arenas de violência. Basta alguns segundos de rolagem para encontrar comentários carregados de rancor, desejos de morte, de doença, de silenciamento. O que antes poderia ser restrito a conversas de bar, hoje é potencializado pelo alcance global de um clique.

O hater não apenas discorda: ele deseja o fim do outro.
Esse ambiente tóxico não é obra do acaso. Ele floresce porque o espaço digital ainda é tratado como terra sem lei. Há regras internas das plataformas, mas elas se escondem atrás do lucro e da conveniência, deixando o usuário à mercê de ataques que, na vida fora da tela, configurariam crime.

É nesse ponto que entra a urgência da regulamentação. Mas é preciso desfazer um mito alimentado por aqueles que temem perder privilégios no caos: regulamentar não é censurar. Regular não significa amordaçar, mas justamente o contrário criar condições para que a liberdade de expressão, direito fundamental e cláusula pétrea da Constituição brasileira, possa ser exercida de forma plena. Porque a liberdade só existe de fato quando não se transforma em arma. E abusos, em qualquer sociedade democrática, precisam ser contidos.

A ausência de regulamentação interessa a quem lucra com o caos. Plataformas crescem na base do engajamento, e nada engaja mais do que a polêmica e o ódio. Mas a sociedade não pode continuar refém desse modelo. Cabe ao Estado, em diálogo com a sociedade civil, criar marcos que responsabilizem, que deem transparência, que protejam.

Não se trata de calar vozes, mas de garantir que mais vozes possam falar sem medo. Porque onde reina o ódio, reina também o silêncio forçado daqueles que não suportam mais ser alvo. E uma democracia em que parte da população é calada pelo medo não é uma democracia plena.

O que está em jogo, portanto, não é apenas a saúde mental de quem sofre ataques, mas a própria saúde da nossa vida pública. Regular as redes é um ato de cuidado coletivo. É escolher que a liberdade continue sendo direito de todos e não privilégio dos mais barulhentos ou cruéis.

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