Em pouco tempo, o termo Neymardependência deixou de fazer parte do vocabulário utilizado para se referir à equipe

Carlo Ancelotti pouco interage no LinkedIn. O treinador italiano, da Seleção Brasileira, utiliza, no entanto, métodos que superam na prática qualquer manual sobre liderança. Adquiriu conhecimentos nos 11 clubes que treinou, com a conquista de 28 títulos, entre os quais cinco Champions League, títulos nacionais nas cinco principais ligas da Europa e quatro Mundiais de Clubes.
Na Seleção Brasileira, com seu estilo acessível e firme, ele tem conquistado a confiança dos jogadores. Em três partidas, praticamente eliminou algo que se tornou um desafio para seus antecessores: a dependência em relação a Neymar, conhecida como Neymardependência.
“São três jogos que podemos ver a base, uma equipe compacta e que defende bem”, afirmou o treinador, na coletiva depois da vitória por 3 a 0 sobre o Chile, na quinta-feira 4, pelas Eliminatórias para a Copa do Mundo de 2026. Foi o terceiro jogo dele no comando da Seleção Brasileira: duas vitórias e um empate, sem levar nenhum gol.
“Defendemos bem. Depois há qualidade individual dos jogadores, que mudam e fazem a diferença. Temos que seguir nessa linha, porque estou convencido que não sofrer gols, como fizemos, temos muitas oportunidades de ganhar os jogos.”
Até a chegada de Ancelotti, a sombra de Neymar, quando o jogador estava impedido de atuar por causa de contusões, era um peso para qualquer treinador. Por sua qualidade técnica muito acima da média, o que seria uma solução acabou se tornando um problema. Ainda que involuntariamente.
Mesmo com Neymar em campo, o time, ressentido de uma baixa autoestima desde os 7 a 1 para a Alemanha, se acomodou em colocar no craque a solução de todas as jogadas. Isso foi minando, do ponto de vista psicológico, a crença de que o Brasil tinha jogadores com potencial suficiente para obter grandes conquistas.
Muitos deles, afinal, eram respeitados nas grandes equipes europeias em que atuavam. Desde que chegou, Ancelotti tem lidado com habilidade — e tranquilidade — com essa situação. Questionado por Oeste na coletiva, Ancelotti admitiu que recuperar a autoestima da equipe é uma das suas preocupações.
“É um objetivo aumentar a autoestima”, respondeu o técnico. “Essa equipe vai competir com todas as equipes.”
Ancelotti repete que sua prioridade é montar uma equipe, com sistemas eficientes que possam ser alterados e transformados de acordo com a circunstância. Que trabalhe como um todo, composto de excelentes jogadores, sem depender unicamente de um, por melhor que ele seja.
Ancelotti fala sobre Neymar
Antes de retornar ao Santos, em janeiro de 2025, Neymar ficou seis meses fora (de outubro de 2023 a abril de 2024) por causa da ruptura do ligamento cruzado anterior e do menisco do joelho esquerdo.
No Santos, foram três contusões. Ele ficou, em duas ocasiões, mais de um mês sem atuar. Somente nos últimos dois meses o craque teve uma sequência.
No geral, desde que retornou, Neymar chegou a ter boas atuações e a fazer algumas jogadas de efeito, mas ainda está longe de demonstrar seu potencial máximo.
Enquanto isso, Ancelotti não mostra nenhum tipo de constrangimento em não convocá-lo. O próprio jogador rebateu a tese, insinuada por Ancelotti, de que não teria sido convocado por questões físicas.
Disse que sua ausência foi por opção técnica do treinador. Houve, com isso, uma fagulha de tensão. Ancelotti, então, soube evitar polêmicas com elegância.
“É normal [Neymar ter reagido desta maneira]”, afirmou o técnico italiano.” Acredito que seja a verdade. É uma decisão técnica que se baseia em muitas coisas. No que o jogador está fazendo, no que já fez, e também no problema que ele teve.”
Ele garante, no entanto, que as portas para o jogador continuam abertas. Se estiver bem, Neymar poderá se encaixar como uma peça fundamental, mas não imprescindível, em um sistema bem organizado. A Argentina já demonstrou ter alcançado esse estágio na vitória por 4 a 1 sobre o Brasil, nestas Eliminatórias, quando Messi não atuou por questões físicas.
Ancelotti tem desfeito uma velha crença de que o técnico não faz a diferença. A tendência é que essa situação prossiga, dependendo, é claro, da continuidade dos bons resultados. A seleção da Bolívia, em uma altitude de mais de 4 mil metros, é o próximo desafio para o treinador manter esquecido o termo Neymardependência.
Informações Revista Oeste
