
O governo da Rússia quer examinar com o Brasil meios de reduzir as transações em dólares e a adoção de moedas locais para o comércio bilateral. O interesse do Kremlin ficou claro quando o chanceler russo, Sergey Lavrov, se reuniu com o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, às margens da reunião dos Brics, na África do Sul na sexta-feira.
Entre janeiro e maio de 2023, a Rússia foi o quinto maior exportador de produtos ao Brasil, superando tradicionais parceiros como Itália, França ou Japão.
Segundo fontes do Itamaraty, as conversas são apenas “exploratórias”. Mas, para os brasileiros, ficou evidenciado o interesse russo em buscar formas de reduzir a dependência em relação à moeda americana.
Sob o governo de Luiz Inácio Lula da Silva, o Brasil fechou um acordo com a China para realizar o comércio em moedas locais, enquanto o presidente brasileiro tem usado diferentes discursos para defender uma menor dependência ao dólar. Para observadores, trata-se de uma decisão geopolítica e parte da redefinição do cenário internacional.
Já os russos têm realizado o mesmo movimento com outros países. Com a China, por exemplo, um acordo para o uso do rublo e do yuan foi estabelecido. Em fevereiro de 2023, pela primeira vez, o comércio nessas moedas locais já superou o uso do dólar. Para o Kremlin, a meta é a de abandonar moedas “tóxicas” para moedas “amistosas”.
O governo russo ainda indicou em abril que mais de 70% do comércio entre os dois países já ocorrem nas respectivas moedas locais. Em 2022, o fluxo atingiu US$ 190 bilhões, um aumento de 30% em comparação ao ano de 2021.
Nos EUA, não por acaso, a movimentação dos emergentes em busca de uma menor dependência ao dólar tem sido alvo de debates. Um dos temores é de que, se implementado um mecanismo paralelo à moeda americana, países conseguiriam reduzir o impacto de sanções financeiras.
De fato, a busca por um comércio com moedas locais foi intensificado pelos russos depois que Moscou passou a ser alvo de um pesado regime de sanções econômicas e financeiras por parte do Ocidente.
O Brasil não aplica sanções e critica o mecanismo. Mas as transações passaram a ser encarecidas diante da pressão do sistema financeiro internacional contra os russos.
Em 2022, apesar do regime de sanções e embargos, o Brasil e Rússia bateram recorde em seu comércio bilateral. O fluxo superou a marca de US$ 9,8 bilhões, 34% superior aos dados de 2021.
As exportações russas somaram US$ 7,8 bilhões, um aumento de quase 40% em comparação ao volume vendido em 2021.
No primeiro trimestre de 2023, as exportações russas continuaram aumentando, com expansão de 12% em comparação ao mesmo período de 2022.
“Um quarto dos fertilizantes utilizados no Brasil são de produção russa”, disse o chanceler Mauro Vieira, em abril durante a visita de Lavrov ao país. “Tratamos de um acordo para garantir o fluxo deste insumo de vital importância para nossa agricultura. Também tratamos para que estabelecimentos brasileiros possam exportar produtos de origem animal para a Rússia”, disse o ministro brasileiro.
Desde o início da guerra na Ucrânia, governos europeus e dos EUA têm pressionado parceiros comerciais a reduzir suas relações com Moscou, na esperança de asfixiar a capacidade do Kremlin de financiar sua guerra.
Informações UOL
