
com Manu Pilger
Mestra em Comunicação pela Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB).
Quando a corrida deixa de ser coletiva
O país inteiro comentou, nos últimos dias, a história da mulher que abandonou o amigo durante uma trilha no Pico do Paraná. Ele ficou cinco dias perdido, enfrentando frio, fome, exaustão e medo. O caso chocou não apenas pela situação extrema, mas pelas falas posteriores da amiga, que escancararam uma discussão maior: confiança, responsabilidade e limites.
Mas é para além do fato isolado que essa história precisa nos levar.
Ela lança luz sobre um cenário cada vez mais comum e pouco debatido dentro dos grupos de corrida, trilhas e ciclismo. Ambientes que deveriam promover saúde, bem-estar e coletividade vêm, em muitos casos, se transformando em espaços tóxicos, alimentados por uma competitividade excessiva e, muitas vezes, estimulada por quem deveria orientar.
Falo com propriedade. Entrei na corrida aos 20 anos e, durante muito tempo, participei de grupos. Com o passar dos anos e das experiências, fiz uma escolha consciente: me afastar. Não por falta de amor ao esporte, mas pelo ambiente que se formava. Um espaço onde o outro deixa de ser companheiro e passa a ser concorrente. Onde o desempenho vira régua de valor: quem corre mais, quem tem o melhor tênis, quem viaja para provas fora do país, quem aparece mais.
E tudo isso vai corroendo, silenciosamente, a saúde mental.
Hoje, qualquer consulta médica começa com a mesma pergunta: você pratica atividade física? E a recomendação vem quase como uma prescrição. A atividade física é remédio. Ajuda no corpo, na mente, na longevidade. Libera endorfina, melhora o humor, organiza pensamentos. Mas quando essa prática acontece em ambientes que estimulam comparação constante, disputa desnecessária e vaidade travestida de performance, ela deixa de ser cura e passa a ser gatilho.
O abandono na trilha não é um ponto fora da curva. Ele é sintoma. Em muitos clubes e grupos, especialmente formados por atletas amadores pessoas que não vivem do esporte a lógica da competição se sobrepõe à lógica do cuidado. E quando alguém é deixado para trás, literal ou simbolicamente, a pergunta que fica não é sobre pace ou colocação. É sobre caráter.
Isso nos leva a um questionamento inevitável: quem são as pessoas com quem escolhemos caminhar, correr, pedalar e viver?
É importante dizer: não deixe de fazer atividade física por causa disso. Todo ambiente terá alguém tóxico. Sempre haverá quem queira se destacar às custas do outro. O aprendizado está em não permitir que essas pessoas nos contaminem, e em saber escolher melhor nossas companhias.
O caso do Pico do Paraná precisa, sim, ser debatido. Não apenas como um episódio extremo, mas como um alerta. Saúde não combina com abandono. Movimento não combina com ego. E nenhuma conquista vale mais do que a humanidade que se perde no caminho.
