O homem não suporta ficar indisposto, refém das descompensações químicas que ele mesmo fomenta. Qual a solução, rápida, por que não há tempo a se desperdiçar? Antidepressivos, ansiolíticos, sedativos… e o ciclo recomeça. Às vezes, a sensação de nó na garganta só se dissipa com a ajuda da medicina, mas na maior parte dos casos, há muitas outras saídas antes de se entregar aos tarjas-pretas da vida. Já pensou em ir a um lugar em que todo mundo tem o mesmo mal que você, discutir ali os seus problemas, ainda que o terapeuta falte? É o que fazem os personagens de “Toc Toc” (2017), do diretor espanhol Vicente Villanueva; mas se você joga no time de quem prefere um uma comédia romântica, junte-se aos protagonistas de “Loucura de Amor” (2021), do diretor espanhol Dani de la Orden. Esses dois filmes e mais três estão no catálogo da Netflix, do mais novo para o mais antigo. De um jeito ou de outro você vai dar um tempo na cara emburrada (pelo menos até a próxima topada na quina da mesa).
Imagens: Divulgação / Reprodução Netflix
Loucura de Amor (2021), Dani de la Orden
Adri leva a vida de um jeito meio inconsequente, pulando de bar em bar e seduzindo o maior número de mulheres que pode, como uma fera insaciável num mundo cheio de opções ao alcance do seu apetite. Certa noite, o garanhão incorrigível aposta com os amigos da madruga que é capaz de conquistar a mulher que eles escolherem. O trato é selado e Adri parte para a sua caçada, sem imaginar que tropeçaria num imprevisto. Entre sua mesa e o balcão surge Carla, por quem se sente atraído imediatamente, ou seja, vai de predador a presa em minutos. Os dois se entendem e deixam o bar, dispostos a viver a noite mais inesquecível de suas vidas. Primeiro, invadem uma festa de casamento, dormem na cama reservada aos noivos e por pouco não são pegos. Cada um corre para um lado, sem nada que garanta que vão se esbarrar outra vez. Ao abordar encontros amorosos fortuitos, “Loucura de Amor” propõe um pacto com o público: nada de elucubrações muito profundas aqui, muito menos juízos de valor acerca do comportamento dos protagonistas. Primeiro, Adri e Carla não estão apaixonados, mas estão, sim, na mesma vibe, e é isso o que importa. Em seguida, há que se tomar o argumento da doença psíquica numa trama tão despretensiosa quanto uma comédia romântica exatamente dessa forma: ninguém está querendo dar lições de moral, tudo é mero entretenimento. E sempre pode acontecer que a partir daí, do entretenimento, se cheguem a conclusões importantes. É o que se tem nessa história de um amor nada sublime, mas intenso.
Você nem Imagina (2020), Alice Chu
Ellie é a típica garota interiorana em uma cidade pequena que mora com o pai, um mais solitário que o outro. Excelente aluna, se vale de seu talento para a redação a fim de ganhar algum dinheiro escrevendo textos para os colegas. Numa dessas, recebe a encomenda de Paul, que lhe pede para escrever uma carta romântica para Aster, uma das moças mais bonitas da escola, por quem está interessado. Ellie aceita a tarefa, e, a partir de então, vai se deparar com uma pletora de emoções nada confortáveis.
Amor por Metro Quadrado (2018), Anand Tiwari
A vida adulta é uma sucessão de dificuldades. Há que se formar numa boa faculdade, a fim de se ter um diploma que conte, o que não é garantia de se conseguir um bom emprego. Quando se começa a chegar lá, é necessário se mostrar antenado com as muitas transformações do mundo contemporâneo, sem se deixar engolir pelo mercado, cada vez mais competitivo. Por fim, em se afinando todas essas variáveis, cuidar das obrigações sociais: arranjar um bom parceiro, casar e ter filhos. Mas e quando os ponteiros do relógio começam a girar mais e mais depressa, o tempo avança e não acontece nada disso? Sanjay e Karina, dois perdedores, como o mundo os enxerga, não têm dinheiro o bastante para comprar a casa que querem. A solução parece óbvia: o casamento, ainda que nem de longe estejam apaixonados um pelo outro. Eles desafiam as circunstâncias e apostam nisso, sem saber que podem estar mudando suas vidas para sempre.
Toc Toc (2017), Vicente Villanueva
Se o atraso de um médico é capaz de provocar tensão entre pessoas ditas normais, quando se trata de gente com um parafuso a menos a situação resvala para a iminência de um verdadeiro pandemônio. A trama aparentemente banal de um grupo de pacientes com transtorno obsessivo compulsivo (TOC) que aguarda a chegada do psicoterapeuta que os atende tem o condão de revelar as muitas misérias do homem, perdido no mundo em busca de autoconhecimento, sem ser enfadonha, pelo contrário. Enquanto esperam, os pacientes passam o tempo falando sobre o dia a dia nada normal de cada um, se examinam entre si, avaliam quem está melhor ou pior e fazem força para tolerar as loucuras um do outro, sem saber por quanto tempo vão conseguir aguentar esse verdadeiro tormento. Mesmo o espectador mais certinho se reconhece neles em alguma medida, toma o lugar do analista e começa a também perscrutá-los, no intuito de avaliar suas possíveis pequenas insanidades.
The Fundamentals of Caring (2016), Rob Burnett
A tragédia que colhe Ben muda completamente o curso de sua vida, e ele resolve abandonar a carreira de escritor para se dedicar a cuidar de pessoas com necessidades especiais. Trevor, 18 anos, seu primeiro cliente, é portador de distrofia muscular, o que não o impede de desancar Ben quando tem vontade. Trevor convida o novo amigo a fazer uma viagem, e os dois visitam os lugares que o garoto só conhecia pela televisão. Na estrada, se juntam a eles Dot e Peaches, e a aventura se torna cada vez mais saborosa à medida que redescobrem a vida a partir da importância dos amigos.