Hoje, na academia, ouvi a história de uma pessoa que perdeu o celular dentro do ônibus, voltando para casa após um dia de trabalho. Ela guardou o aparelho na bolsa e, sem perceber, o celular provavelmente caiu. Ao chegar em casa, notou a falta, tentou ligar: na primeira vez chamou, na segunda já caiu na caixa de mensagens.
Para surpresa dela, o localizador indicava que o aparelho estava… no condomínio vizinho ao dela, no mesmo bairro. Com essa informação, foi até a delegacia registrar ocorrência. Lá, ouviu do policial: encontrar um celular e não devolver caracteriza crime de apropriação de coisa achada, previsto no artigo 169, inciso II, do Código Penal. Ou seja, não é porque o celular caiu no ônibus que ele deixou de ter dono.
Esse episódio me fez lembrar da minha infância, quando minha mãe não aceitava que um lápis “estranho” aparecesse na minha mochila. “Não é seu”, ela dizia. Era a base do ensinamento: respeitar o que pertence ao outro.
Falamos tanto em violência, homicídios, furtos e roubos, mas esquecemos de refletir sobre o que sustenta tudo isso: os valores ensinados em casa. Um celular perdido em um ônibus cheio poderia ter sido devolvido. Bastava atender à ligação, avisar, entregar ao motorista, procurar a empresa. Mas, ao invés disso, alguém preferiu se apropriar. Talvez até uma pessoa que pega o mesmo ônibus diariamente que a dona do aparelho.
É nesse ponto que penso: por que o mundo anda tão atravessado, tão permeado de perigos e desconfiança? Talvez porque nos falte justamente o que deveria ser simples: o gesto silencioso de devolver o que não nos pertence.
No fim das contas, não é sobre um celular perdido. É sobre caráter. É sobre compreender que honestidade não depende de lei, mas de consciência. E que enquanto muitos se acostumarem a levar vantagem sobre aquilo que não é seu, continuaremos alimentando, no pequeno, a mesma violência que depois tanto condenamos no grande.
Manu Pilger é Mestre em Comunicação pela Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB)
A gente precisa falar, com todas as letras, sobre as fragilidades femininas. Sobre como a carência e a dependência emocional, quando não são reconhecidas e cuidadas, podem nos colocar em situações perigosas.
Essa semana, vimos mais um caso estarrecedor: o tal “macho alfa”, mentiroso, que matou um gari no meio do trabalho por uma futilidade. O assassino é casado, ou ainda é, com uma profissional da segurança pública. E a arma usada no crime? Registrada em nome dela.
Não é a primeira vez que uma profissional da segurança, com acesso a informações privilegiadas, se vê envolvida com um homem de passado sombrio. Não se trata de um caso isolado, mas de um padrão: homens violentos que criam fachadas sedutoras e conseguem enganar, manipular e dominar, até mesmo mulheres fortes, preparadas e independentes.
E agora, no caso do “Super-homem da Shopee” apelido dado porque ele vivia editando fotos no Photoshop para se mostrar mais bonito, másculo e irresistível o histórico também é pesado: violência doméstica, processos, mentiras no currículo. Um personagem falso do início ao fim.
A minha intenção aqui não é julgar mulheres que se envolveram com esse tipo de figura. É alertar. Porque relacionamentos abusivos dão sinais desde o início, mas quando estamos fragilizadas, seja pela carência, seja pela dependência emocional, esses sinais podem se tornar quase invisíveis.
E isso não é culpa da vítima: é resultado de manipulação, de isolamento, de uma sociedade que ainda nos ensina a romantizar o sofrimento em nome do amor.
Amigos, familiares e colegas também têm um papel fundamental. É impossível que alguém com um histórico como o desse indivíduo não tenha deixado pistas. A família, principalmente, precisa estar atenta: não basta perceber os sinais. É preciso acolher, conversar, orientar e oferecer suporte para que a mulher não se sinta sozinha.
Muitas vezes, ela não consegue enxergar ou reagir sozinha, não por falta de inteligência ou coragem, mas porque está presa em uma rede de dependência afetiva e psicológica.
E aí vem a pergunta que dói: como a carência e a dependência emocional, tão humanas e compreensíveis, podem nos cegar diante de sinais que estavam ali? O problema é que, em vez de apoio, muitas mulheres acabam isoladas, carregando o peso de um relacionamento abusivo sem que a rede ao redor consiga intervir a tempo.
Por isso, nós, mulheres, precisamos cuidar da nossa saúde mental, fortalecer a autoestima e romper com padrões de dependência afetiva. Mas não é só responsabilidade individual: a sociedade inteira precisa assumir o compromisso de proteger as mulheres. Redes de apoio, instituições, famílias e amigos precisam estar atentos.
Outro dia me peguei reclamando das dores causadas pelo excesso de atividade física. Aquele incômodo muscular que tira a mobilidade, que encurta o passo e a paciência. Para alguém como eu, que é ativa e dinâmica, ficar limitada assim é quase um convite à irritação.
Mas, nesse tempo de dor, veio também o tempo de pensar. Pensei nas dores que não têm cura e nas tantas pessoas que, espalhadas pelo Brasil e pelo mundo, vivem com elas e seguem suas rotinas, porque não existe outra opção. Cada um carrega a sua própria dor: a dor física de um músculo lesionado, a dor invisível de um coração partido, a dor profunda de perder alguém.
Eu, aos 44 anos, conheço bem essa última. Perder minha mãe foi e continua sendo a maior dor da minha vida. É uma ausência que não se resolve com remédio nem terapia, apenas se aprende a conviver. Ela não diminui, não passa. Ela se transforma em companheira silenciosa, lembrando, dia após dia, que certas feridas não cicatrizam.
E então percebo: há dores que se resolvem com analgésicos, fisioterapia, bandagens, ozonioterapia. Há outras que nenhum tratamento ameniza: a dor da mãe que enterra o filho, a de quem perde um ente querido de forma abrupta, a de quem vê alguém amado se afundar na dependência química e não consegue resgatar. São dores que não cabem num diagnóstico.
Quando olho para a minha dor muscular passageira, simples e pequena entendo o quanto, muitas vezes, a gente reclama demais e age de menos. Não é que as dores curáveis não doam. Elas doem, e doem de verdade. Mas é naquelas que não passam que aprendemos o significado de resiliência.
Resiliência, palavra emprestada da engenharia, usada para falar de nós: a capacidade de voltar, de se refazer, mesmo depois de tudo. Às vezes, é na dor que descobrimos que somos muito mais fortes do que imaginávamos.
Outro dia, estava no salão esse santuário de espelhos, escovas e confidências involuntárias quando duas mulheres engataram uma conversa animada sobre a separação de uma influenciadora digital. Sim, aquela que coleciona milhões de seguidores, filtros e likes. Eu, ali sentada, esperando minha vez, fui ouvindo. Primeiro, achei curioso. Depois, engraçado. Em seguida, irônico. E, por fim, francamente preocupante.
Elas debatiam, com uma intensidade digna de debate político, o valor da pensão dos filhos da influenciadora, a disputa pela guarda, os rumores sobre um possível novo affair… Era como se fossem tias íntimas da moça, confidentes de longas datas, embora jamais tivessem cruzado com ela nem na fila do supermercado.
A cena me fez pensar nesse fenômeno que a cultura digital vem promovendo: uma aproximação que, ao invés de aproximar pessoas, parece nos afastar de nós mesmos. Estamos nos tornando especialistas em vidas que não são nossas, torcedores fervorosos de casais que nem sabem da nossa existência, estudiosos da dor alheia, enquanto a nossa própria vida segue, às vezes, à deriva. É como se estivéssemos trocando o protagonismo pela plateia. Vivendo não a nossa história, mas capítulos aleatórios da novela dos outros. A separação da influenciadora vira pauta quente, e nossa própria solitude, nossos silêncios, nossa rotina isso tudo é varrido para debaixo do tapete emocional.
Mais assustador ainda é perceber que muita gente consome essa vitrine digital como se fosse realidade pura, quando, na verdade, grande parte é roteiro bem ensaiado. A influenciadora sofre, chora, mas entre um stories e outro, está vendendo aquele colágeno milagroso, aquele suplemento que promete energia e aquele livro de autoajuda que ela mal teve tempo de folhear.
É tudo um grande espetáculo. E nós, na plateia, pagamos ingresso com nossa atenção, nosso tempo, e por vezes, com nossa própria sanidade. Porque quanto mais nos envolvemos com a vida do outro, mais desatentos ficamos com a nossa.
A pergunta que fica é: até onde vamos com tudo isso? Vamos continuar vivendo a novela digital da semana ou teremos coragem de assumir o roteiro da nossa própria história? Essa obsessão cibernética, que começa como distração e termina como vício, é o novo vício silencioso do século.Não sei se isso vai passar ou se veio para ficar. Só sei que talvez seja hora de, ao menos, sair do salão com algo mais do que um novo corte de cabelo. Quem sabe com um novo olhar sobre nós mesmos.