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Já assistiu todas as novidades do ano que chegaram na Netflix? É impossível, né? Muita coisa nova, séries, documentários, reality shows, filmes… é tanto título sendo lançado semanalmente, que fica até difícil saber o que é que você já viu e o que não viu. Se você quer dar prioridade para as melhores produções, acompanhe essa lista com os títulos mais bem-avaliados do IMDb e Rotten Tomatoes que foram inseridos em 2022 no catálogo. Destaques para “Apollo 10 e Meio: Aventura na Era Espacial”, de 2022, de Richard Linklater; “Contra o Gelo”, de 2022, de Peter Flinth; e “De Volta ao Espaço”, de 2022, de Jimmy Chin e Elizabeth Chai Vasarhelyi. Os títulos estão organizados de acordo com o ano de lançamento e não seguem critérios classificatórios.

Imagens: Divulgação / Reprodução Netflix

Apollo 10 e Meio: Aventura na Era Espacial (2022), Richard Linklater

Nos dias que antecedem a missão de pouso na lua Apollo 11, Stan, um menino de 10 anos e meio, estudante da quarta série e morador do subúrbio de Houston, é recrutado por dois agentes do governo enquanto brinca no playground. Ele é convidado para ser um proto-astronauta. O filme é livremente inspirado na infância e imaginação do diretor Richard Linklater, durante o verão de 1969, quando ele morava próximo da Nasa, e em suas lembranças da primeira chegada do homem à Lua.

Contra o Gelo (2022), Peter Flinth

Em 1909, a Expedição Ártica da Dinamarca, liderada pelo capitão Ejnar Mikkelsen, tenta resistir à reivindicação dos Estados Unidos ao nordeste da Groenlândia. De acordo com o país norte-americano, a Groenlândia era parte dos Estados Unidos, que havia se divido em um outro pedaço de terra. Mikkelsen embarca em uma jornada pelo gelo com seu colega Iver Iverson para encontrar provas de que a Groenlândia é uma ilha. A jornada, no entanto, se mostrará muito mais complicada que o esperado, sujeitando os expedicionários à fome, fadiga extrema, ataque de urso polar e paranoia.

De Volta ao Espaço (2022), Jimmy Chin e Elizabeth Chai Vasarhelyi

O documentário narra a ascensão do projeto SpaceX, de Elon Musk. O trabalho durou duas décadas e ajudou a enviar astronautas da NASA de volta à Estação Espacial Internacional. Também acompanha veteranos da Agência Nacional Espacial relacionados ao projeto, contando suas experiências, bem como suas famílias.

Metal Lords (2022), Peter Sollett

Hunter e Kevin são dois adolescentes de ensino médio que querem formar uma banda de heavy metal. Eles estão à procura de um baixista, mas só conseguem encontrar Emily, que toca violoncelo e tem alguns sérios transtornos emocionais. O grupo se inscreve no Battle of Bands, mas precisam conciliar as diferenças musicais para conseguirem vencer.

O Golpista do Tinder (2022), Felicity Morris

O documentário conta a história do vigarista Shimon Hayut, preso em 2019, por se passar por um playboy milionário no Tinder e cometer fraudes contra mulheres de centenas de milhares de dólares. A história do criminoso prolífico e das vítimas que tiveram coragem de derrubá-lo é contada nesse filme. Entre as namoradas, Cecilie Fjellhoy, que conheceu Hayut no aplicativo e, depois de ser enganada, foi atrás de vingança e descobriu muitas outras vítimas.

O Projeto Adam (2022), Shawn Levy

Adam Reed é um garoto de 13 anos que perdeu seu pai há um ano. Um dia, ele encontra um piloto ferido escondido na garagem de sua casa. Este homem misterioso é o próprio Adam muitos anos mais velho, que voltou no tempo para se dedicar a uma missão secreta. Juntos, eles devem embarcar em uma aventura no passado para salvar seu pai. No entanto, há um problema: os dois Adams não se dão nem um pouco bem.

O Resgate de Ruby (2022), Katt Shea

Daniel O’Neil adota a cadelinha Ruby, a salvando de ser sacrificada. Ele é um soldado hiperativo e disléxico, que sonha em entrar na Rhode Island K9, uma academia de polícia de elite. Ruby, que também é hiperativa e precisa de treinamento, acaba por inspirá-lo a persistir em seu objetivo. A dupla enfrenta contratempos em sua jornada, mas com ajuda da família e de membros de sua comunidade, que apoiam e torcem por seu sucesso, eles superam seus desafios juntos.

The House (2022), Paloma Baeza e Emma De Swaef

Uma antologia de filmes que gira em torno de uma casa e os eventos sobrenaturais que ocorrem no local, atormentando os proprietários que lá vivem. O primeiro se passa em 1800, quando uma família se muda para a propriedade em busca de uma nova vida. Infelizmente, o que eles encontram é uma passagem só de ida para um antro de loucura. A segunda se passa no presente. Um corretor de imóveis conserta a casa de acordo com os padrões modernos para conseguir vendê-la. Já o terceiro nos leva para o futuro, após uma série de eventos de inundações que devastou o mundo, a casa se mantém em pé em uma ilha urbana solitária. Uma senhora tenta consertar o lugar e trazer de volta sua beleza de outrora, enquanto exige que os inquilinos paguem aluguel.

Munique: No Limite da Guerra (2021), Christian Schwochow

Em 1938, durante a Conferência de Munique, líderes europeus realizam uma tentativa de impedir Adolf Hitler de invadir a Tchecoslováquia e dar início a outro conflito global. O funcionário público britânico Hugh Legat e o diplomata alemão Paul von Hartmann viajam para Munique para participar da reunião. Logo eles são encarregados de uma missão diferente, que tem o intuito de revelar aos líderes mundiais, incluindo Neville Chamberlain, primeiro-ministro do Reino Unido, um documento confidencial que comprova os planos de Hitler em expandir o território alemão. A esperança é de que Chamberlain não leve adiante o plano de dar os Sudetos ao chefe de Estado alemão.


Para além dos sustos, os suspenses psicológicos desafiam os espectadores a ver além da bolha, a sair da zona de conforto. É preciso estar disposto e ter uma certa bagagem intelectual para desvendar os enigmas e os jogos mentais. É, também, necessário saber controlar a ansiedade e alguns medos, porque esse tipo de suspense irá fazê-lo confrontar alguns de seus temores adormecidos no subconsciente. Se você não se garante na coragem, melhor não arriscar. Agora, se você está pronto para encarar alguns desafios, dê o play nestes filmes que estão disponíveis no seu streaming. Destaques para “A Ligação”, de 2020, de Lee Chung-hyeon; “O Poço”, de 2019, de Galder Gaztelo-Urrutia; e “Calibre”, de 2018, de Matt Palmer. Os títulos disponíveis na Netflix estão organizados de acordo com o ano de lançamento e não seguem critérios classificatórios.

Imagens: Divulgação / Reprodução Netflix

A Ligação (2020), Lee Chung-hyeon

Seo Yeon muda de casa para ficar próxima de sua mãe doente. Um dia recebe uma ligação de Young Sook, que afirma que sua mãe deseja matá-la. No desenrolar, é revelado que, enquanto Seo Yeon está em 2019, Young Sook está em 1999. Em suas conversas, também se descobre que ambas vivem na mesma casa, apesar de ser em tempos diferentes. A ligação irá interferir em acontecimentos da vida de Seo Yeon.

O Poço (2019), Galder Gaztelu-Urrutia

“O Poço” é uma espécie de prisão vertical com centenas de andares, onde as pessoas são colocadas para serem punidas ou em troca de algo que desejam muito. Duplas são distribuídas por andar aleatoriamente e trocadas a cada mês. No centro do lugar, desce uma plataforma, onde é colocada a comida. As refeições são oferecidas de cima para baixo, proporcionando fartura para aqueles que estão em andares superiores e escassez para quem está embaixo.

Calibre (2018), Matt Palmer

Vaughn e Marcus são dois amigos que partem para uma vila isolada na Escócia, onde passarão o final de semana caçando. A dupla se hospeda em um hotel familiar, mas devido ao comportamento rebelde de Marcus, logo eles não passam a ser bem-vistos pelos moradores da região. Em um dos dias de caça, Vaughn mira para atirar em um alce, mas o animal se move e a vítima acaba sendo uma criança. A partir disso, uma cadeia de acontecimentos se desenrola deixando a dupla em uma situação sem alternativas que mudará suas vidas.

Tempo Compartilhado (2018), Sebastián Hofmann

Pedro, Eva e o filho pequeno saem de férias em um resort para uma semana de relaxamento. Eva está confusa, pois não sabe como Pedro vai arcar com acomodações tão caras. Pedro, na realidade, não vai pagar quase nada, porque concordou em ouvir uma palestra de vendas, os chamados timeshares do Everfields Resorts, em troca da estadia. As coisas saem do controle imediatamente quando Pedro, Eva e o filho descobrem que terão de dividir o lugar com uma família desconhecida.

Jogo Perigoso (2017), Mike Flanagan

Durante as férias em uma casa remota, o advogado de sucesso Gerald algema sua esposa, Jessie, na cabeceira da cama em um momento íntimo do casal. Ela não se sente confortável e pede para que o marido retire as algemas, mas Gerald está animado e se nega. No entanto, antes que qualquer coisa aconteça, ele sofre um ataque cardíaco e cai morto em cima dela. Ao empurrar o corpo, Jessie fica aterrorizada com a situação. Distante demais para que qualquer pessoa escute seus gritos de socorro, ela continua algemada à cama. No entanto, a noite irá trazer sustos ainda muito maiores.

1922 (2017), Zak Hilditch

Wilfred James é um fazendeiro no Nebraska com uma esposa amarga, chamada Arlette, e seu filho leal, Henry. Arlette claramente não gosta da vida no campo e deseja vender sua metade da fazenda para uma empresa local. Wilf tem arrepios de pensar na possibilidade de se mudar para a cidade. Ele decide que a única forma de solucionar esse dilema é matando Arlette, e convence seu filho de ajudá-lo. No entanto, ele terá de enfrentar as consequências inesperadas de suas escolhas.

Garota Exemplar (2014), David Fincher

A esposa de Nick Dunne desaparece no dia do aniversário de casamento. Após a polícia descobrir várias mentiras, ele se torna o principal suspeito. Enquanto o caso vira um espetáculo na mídia, as investigações mostram que o casamento perfeito do casal era, na realidade, uma farsa. Nick tenta provar sua inocência e descobrir o que realmente aconteceu com a mulher.

O Lobo Atrás da Porta (2013), Fernando Coimbra

Quando Sylvia vai à escola de sua filha para buscá-la, descobre que ela já havia saído com um “vizinho”. Incapaz de imaginar por que alguém sequestraria a menina, já que não são ricos, a mulher avisa a polícia que o marido pode ter uma amante que provocou a situação. Bernardo, o pai da criança desaparecida, confirma que manteve um caso com a jovem Rosa. A partir de então, o detetive responsável interroga os três para investigar o que realmente aconteceu.

Ilha do Medo (2010), Martin Scorsese

Teddy é um detetive que viaja até uma ilha, onde fica um hospital psiquiátrico, para investigar o desaparecimento de uma das internas. Acompanhado de seu parceiro, Chuck, eles encontram a resistência de todos para obter informações e desvendar o caso. Enquanto uma rebelião é deflagrada no local, Teddy tem seus próprios fantasmas do passado que o assombram e que precisa encarar.

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Se você ama ser surpreendido e está em busca de filmes que superem suas expectativas e traga mistério e emoção para seu dia, aqui vai uma lista com grandes suspenses pouco vistos na Netflix. Teste os limites dos seus nervos e desafie seus neurônios a desvendar essas histórias enigmáticas e assustadoras. Coloque seu coração para bater mais forte e veja até onde sua ansiedade pode te levar com esses filmes. Destaques para “Beleza Avassaladora”, de 2021, de Vinil Mathew; “Ferry”, de 2021, de Cecília Verheyen; e “O Fio Invisível”, de 2021, de Claudia Llosa. Os títulos disponíveis na Netflix estão organizados de acordo com o ano de lançamento e não seguem critérios classificatórios.

Ferry (2021), Cecilia Verheyen

Ferry está feliz e vive uma vida tranquila em Amsterdã, relaxando em seu moderno loft no centro da cidade e andando em uma poderosa Range Rover. Ele também é o capanga número um do chefe do tráfico da cidade, Brink. Quando o filho de Brink leva um tiro em um ataque promovido por uma gangue rival, Ferry fica encarregado de encontrar e matar os criminosos. Sua busca o leva para sua cidade-natal, onde Ferry conhece Danielle, que o faz repensar seu estilo de vida.

O Fio Invisível (2021), Claudia Llosa

Amanda se muda de casa com sua pequena filha e logo conhecem a nova vizinha, Carola, por quem desenvolvem uma amizade florescente. Mas logo Amanda sente o perigo se aproximar quando o filho de Carola surge. Temendo pela sua segurança e de sua filha, ela precisa se afastar, mas talvez seja tarde demais.

Beleza Avassaladora (2021), Vinil Mathew

Rani se casa com Rishu, mas ambos possuem personalidades muito diferentes. Por um lado, Rishu sempre trilhou um caminho linear. Ele é subjugado, inocente, tímido e sem muita ambição. Rani, por outro lado, é vivaz. Ela é vibrante e anseia por emoção na vida a cada momento. Os primeiros dias do casamento não vão muito bem. Rani é considerada rebelde e a família de Rishu recebe muitas reclamações da nora. Rishu, por outro lado, está apaixonado. Quando o primo de Rishu, Neel, entra em cena, Rani fica fascinada, o que a leva a dar alguns passos errados.

The Soul (2021), Cheng Wei-Hao

Wang Shicong, presidente de um grupo empresarial especializado em um moderno tratamento de câncer, é assassinado dentro de sua própria casa. O promotor Lian Wenchao e sua esposa, a policial A Bao, descobrem durante as investigações que toda a família do empresário tem conexão com sua morte. Conforme as informações vão aparecendo, o casal se aprofunda cada vez mais em um caso que pode lhes custar a própria vida.

História do Oculto (2020), Cristian Ponce

Na última transmissão do programa mais popular da Argentina, “60 Minutos Antes da Meia-Noite”, o convidado é Adrián Marcato, líder de uma seita satânica, que está pronto para expor o governo, vinculá-lo a uma sociedade secreta e revelar os laços do presidente com o ocultismo. No decorrer da noite, coisas estranhas e macabras acontecem com os produtores do show.

Quem com Ferro Fere (2019), Paco Plaza Antonio

Padin é chefe de um cartel de drogas liberado mais cedo da prisão por enfrentar uma doença terminal. Ao invés de voltar para casa com seus dois filhos, Kike e Toño, prefere gastar seus últimos dias em uma casa de repouso. O chefe de enfermagem do lugar é Mario, um homem que coincidentemente tem um passado com a família Padin, a quem ele considera responsável pela morte de seu irmão anos atrás. Enquanto Kike e Toño comandam o império das drogas construído pelo pai, Antonio e Mario se aproximam. O ex-criminoso, no entanto, não sabe que por trás das boas ações de Mario pode haver intenções vingativas.

Durante a Tormenta (2018), Oriol Paulo

Vera é jovem mãe que acaba de se mudar para uma casa. Ela encontra uma antiga televisão na residência, por onde consegue se comunicar, graças a um bug no espaço-tempo, com um garoto do passado. Ela evita com que ele testemunhe um crime que resultou em sua morte trágica e precoce. No entanto, ao acordar no dia seguinte, Vera descobre que, ao interferir no destino, modifica sua própria vida, fazendo com que seu marido e sua filha inexistam.

Informações Revista Bula


Quando o cinema se supera e produz filmes pelos quais ninguém estava esperando, ganhamos todos. Ganhamos os críticos, que ao menos por algum tempo não somos forçados a tornar às mesmas queixas nunca atendidas; ganha o mercado, que se renova e atinge novos públicos; e ganha ele, o distinto público, que se abre para novas perspectivas. Em ganhando tanta gente, sendo bastante otimista, acaba se favorecendo a sociedade como um todo, uma vez que demandas inéditas vêm a lume, mundos nunca antes imaginados passam a ser conhecidos e pessoas que, tenha a certeza, existem na esfera do real, mas jamais tiveram a oportunidade de se manifestar, se fazem ouvir. Sobretudo no Brasil, pródigo em reproduzir modinhas pseudoartísticas ou repisar temas sem dúvida importantes, como os que se espraiam sobre diversos aspectos da ignominiosa ditadura militar que sequestrou os sonhos de toda uma nação por mais de duas décadas, mas que têm de ceder espaço justamente ao sonho, à fantasia, à loucura, por que não? A arte se presta exatamente a esse papel, resgatar no homem seu lado obscuro, iluminando-o e o fazendo tão necessário a si e aos outros que renuncia a sua natureza meramente lúdica e torna-se cura.

Eduardo Nunes chegou em boa hora ao embolorado panorama cinematográfico nacional. 2017 foi um ano especialmente profícuo para a história do cinema brasileiro. Produções como o drama “Gabriel e a Montanha”, dirigido por Fellipe Gamarano Barbosa, sobre um estudante determinado a viver uma aventura perigosa, e o suspense “O Crime da Gávea”, de André Warwar, que tenta esclarecer um assassinato tão macabro quanto nebuloso, tiveram relativo destaque — o destaque que geralmente têm filmes brasileiros num mercado que luta para se desamarrar de cruéis padrões estrangeiros, mas se vê presa constante dos onipresentes conglomerados de estúdios norte-americanos, detentores do interesse dos donos de salas de projeção. Afora todo o cenário desfavorável, esses longas (e ressalve-se que são lançados mais de oitocentos curtas por ano no Brasil) põem o nariz fora d’água, ainda que por um período reduzido, como se não fossem mesmo para o bico de qualquer um. Sorte de quem os consegue assistir.

E “Unicórnio” não é um filme para todos. Evitando o curso fluido da narrativa, mas apresentando outras opções que suprem a necessidade de tornar o enredo inteligível, mas sem maiores facilidades, e flertando desabridamente com o realismo fantástico, o roteiro de Nunes, baseado nos contos “O unicórnio” e “Matamoros”, da escritora paulista Hilda Hilst (1930-2004), elabora um todo que escorre lentamente, explorando possibilidades recusadas pelo dito cinema comercial pelos motivos errados. A vida de Maria não tem nada de especial. A protagonista, vivida por Bárbara Peixoto, segue até um poço, de onde tira água todos os dias, e faz daquele espaço o seu mundo particular, sem limites diante de uma existência quase precária. Maria concede permissão para que um único intruso habite esse seu universo paralelo, o pastor interpretado por Lee Taylor, cuja importância o diretor vai acentuando aos poucos. É como se cada um defendesse a própria história diante do outro e frente ao mundo que os cerca, que passa a ser só deles. Todos os outros habitantes daquele pedaço de paraíso — que a fotografia de Mauro Pinheiro Júnior, cheia do verde cintilante das montanhas de Minas Gerais, salpicado aqui e ali por pedras cinzentas — somem quando apreciada a força da subtrama conduzida por Peixoto e Taylor, mesmo a presença sempre encantadora de Patrícia Pillar no papel da mãe de Maria, lembrando vagamente a estética da personagem de “O Quatrilho” (1995), levado à tela por Fabio Barreto (1957-2019) e indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, marco da retomada da produção cinematográfica brasileira em escala industrial após 21 anos de regime militar. Durante a repressão, os filmes engajados do Cinema Novo de Glauber Rocha (1939-1981) disputavam literalmente a tapa um lugar ao sol, isso quando a preguiçosa censura dormia no ponto, o que, em verdade, era mais ou menos corriqueiro — isso para não falar do desmonte da Embrafilme, responsável por garantir alguma salvaguarda à produção audiovisual brasileira, no governo Fernando Collor de Mello (1989-1992).

O unicórnio do título, tal como o pretendia Hilst, deixa de habitar apenas o imaginário de Maria, e ganha o mundo real, em contraponto a seu pai, interpretado pelo sempre ótimo Zécarlos Machado, uma figura nitidamente messiânica, que faz de tudo para trocar o invencível desajuste com o mundo real pela mudança terminante para uma terra exclusivamente onírica. Nunes bate nessa tecla sem cessar, inclusive na sequência em que a personagem de Ines Peixoto, onipresente nos filmes de roça, toca uma sanfona como só uma legítima sertaneja o faria, malgrado os demais atores em cena se embriaguem de aguardente. “Unicórnio” é exatamente isso, a junção da dureza da vida, em especial a do brasileiro, tanto faz se nos rincões ou nas megalópoles, a sua peleja por um naco de poesia.


Filme: Unicórnio
Direção: Eduardo Nunes
Ano: 2017
Gêneros: Drama/Fantasia
Nota: 10

Informações Revista Bula


O homem não suporta ficar indisposto, refém das descompensações químicas que ele mesmo fomenta. Qual a solução, rápida, por que não há tempo a se desperdiçar? Antidepressivos, ansiolíticos, sedativos… e o ciclo recomeça. Às vezes, a sensação de nó na garganta só se dissipa com a ajuda da medicina, mas na maior parte dos casos, há muitas outras saídas antes de se entregar aos tarjas-pretas da vida. Já pensou em ir a um lugar em que todo mundo tem o mesmo mal que você, discutir ali os seus problemas, ainda que o terapeuta falte? É o que fazem os personagens de “Toc Toc” (2017), do diretor espanhol Vicente Villanueva; mas se você joga no time de quem prefere um uma comédia romântica, junte-se aos protagonistas de “Loucura de Amor” (2021), do diretor espanhol Dani de la Orden. Esses dois filmes e mais três estão no catálogo da Netflix, do mais novo para o mais antigo. De um jeito ou de outro você vai dar um tempo na cara emburrada (pelo menos até a próxima topada na quina da mesa).

Imagens: Divulgação / Reprodução Netflix

Loucura de Amor (2021), Dani de la Orden

Adri leva a vida de um jeito meio inconsequente, pulando de bar em bar e seduzindo o maior número de mulheres que pode, como uma fera insaciável num mundo cheio de opções ao alcance do seu apetite. Certa noite, o garanhão incorrigível aposta com os amigos da madruga que é capaz de conquistar a mulher que eles escolherem. O trato é selado e Adri parte para a sua caçada, sem imaginar que tropeçaria num imprevisto. Entre sua mesa e o balcão surge Carla, por quem se sente atraído imediatamente, ou seja, vai de predador a presa em minutos. Os dois se entendem e deixam o bar, dispostos a viver a noite mais inesquecível de suas vidas. Primeiro, invadem uma festa de casamento, dormem na cama reservada aos noivos e por pouco não são pegos. Cada um corre para um lado, sem nada que garanta que vão se esbarrar outra vez. Ao abordar encontros amorosos fortuitos, “Loucura de Amor” propõe um pacto com o público: nada de elucubrações muito profundas aqui, muito menos juízos de valor acerca do comportamento dos protagonistas. Primeiro, Adri e Carla não estão apaixonados, mas estão, sim, na mesma vibe, e é isso o que importa. Em seguida, há que se tomar o argumento da doença psíquica numa trama tão despretensiosa quanto uma comédia romântica exatamente dessa forma: ninguém está querendo dar lições de moral, tudo é mero entretenimento. E sempre pode acontecer que a partir daí, do entretenimento, se cheguem a conclusões importantes. É o que se tem nessa história de um amor nada sublime, mas intenso.

Você nem Imagina (2020), Alice Chu

Ellie é a típica garota interiorana em uma cidade pequena que mora com o pai, um mais solitário que o outro. Excelente aluna, se vale de seu talento para a redação a fim de ganhar algum dinheiro escrevendo textos para os colegas. Numa dessas, recebe a encomenda de Paul, que lhe pede para escrever uma carta romântica para Aster, uma das moças mais bonitas da escola, por quem está interessado. Ellie aceita a tarefa, e, a partir de então, vai se deparar com uma pletora de emoções nada confortáveis.

Amor por Metro Quadrado (2018), Anand Tiwari

A vida adulta é uma sucessão de dificuldades. Há que se formar numa boa faculdade, a fim de se ter um diploma que conte, o que não é garantia de se conseguir um bom emprego. Quando se começa a chegar lá, é necessário se mostrar antenado com as muitas transformações do mundo contemporâneo, sem se deixar engolir pelo mercado, cada vez mais competitivo. Por fim, em se afinando todas essas variáveis, cuidar das obrigações sociais: arranjar um bom parceiro, casar e ter filhos. Mas e quando os ponteiros do relógio começam a girar mais e mais depressa, o tempo avança e não acontece nada disso? Sanjay e Karina, dois perdedores, como o mundo os enxerga, não têm dinheiro o bastante para comprar a casa que querem. A solução parece óbvia: o casamento, ainda que nem de longe estejam apaixonados um pelo outro. Eles desafiam as circunstâncias e apostam nisso, sem saber que podem estar mudando suas vidas para sempre.

Toc Toc (2017), Vicente Villanueva

Se o atraso de um médico é capaz de provocar tensão entre pessoas ditas normais, quando se trata de gente com um parafuso a menos a situação resvala para a iminência de um verdadeiro pandemônio. A trama aparentemente banal de um grupo de pacientes com transtorno obsessivo compulsivo (TOC) que aguarda a chegada do psicoterapeuta que os atende tem o condão de revelar as muitas misérias do homem, perdido no mundo em busca de autoconhecimento, sem ser enfadonha, pelo contrário. Enquanto esperam, os pacientes passam o tempo falando sobre o dia a dia nada normal de cada um, se examinam entre si, avaliam quem está melhor ou pior e fazem força para tolerar as loucuras um do outro, sem saber por quanto tempo vão conseguir aguentar esse verdadeiro tormento. Mesmo o espectador mais certinho se reconhece neles em alguma medida, toma o lugar do analista e começa a também perscrutá-los, no intuito de avaliar suas possíveis pequenas insanidades.

The Fundamentals of Caring (2016), Rob Burnett

A tragédia que colhe Ben muda completamente o curso de sua vida, e ele resolve abandonar a carreira de escritor para se dedicar a cuidar de pessoas com necessidades especiais. Trevor, 18 anos, seu primeiro cliente, é portador de distrofia muscular, o que não o impede de desancar Ben quando tem vontade. Trevor convida o novo amigo a fazer uma viagem, e os dois visitam os lugares que o garoto só conhecia pela televisão. Na estrada, se juntam a eles Dot e Peaches, e a aventura se torna cada vez mais saborosa à medida que redescobrem a vida a partir da importância dos amigos.


Foto: Divulgação/ Netflix

Doenças mentais não são brincadeira. Em todo o mundo, há mais de 720 milhões de indivíduos com algum transtorno psíquico, cerca de 10% da população da Terra. No Brasil, campanhas que anatematizaram manicômios foram responsáveis por, na prática, intensificar o sofrimento de pacientes que recebiam algum tratamento nessas instituições; uma vez liberados, seguem para casa, para serem assistidos por parentes que, por mais bem-intencionados, não dispõem de todo o conhecimento para tratá-los de maneira adequada. Ao longo dos anos, começaram a pipocar casos de pessoas que passavam os dias acorrentadas, como feras, porque, privadas de cuidados básicos como terapia e medicamentos, tornavam-se de fato outras pessoas, presas de seus próprios fantasmas existenciais. Decerto eventos como os destrinchados pela jornalista Daniela Arbex em “Holocausto Brasileiro — Genocídio: 60 Mil no Maior Hospício do Brasil”, publicado pela editora Intrínseca em 2020, ajudaram a tornar ainda mais desumana a ideia de submeter doentes mentais a socorro hospitalar em regime de internato. Não sem razão.

Fundado em 1903, o Hospital Colônia de Barbacena, no sudeste de Minas Gerais, angariou uma fama macabra ao sujeitar seus internos a sempre controverso eletrochoque, castigos físicos e isolamento em câmaras diminutas. Homens e mulheres permaneciam soltos no pátio da instituição, nus, e as gravidezes não eram incomuns. Quando isso acontecia, os médicos esperavam que a mãe desse à luz para entregar o bebê à adoção. Aos poucos, as puérperas desenvolveram um método para não terem os filhos levados: esfregar fezes em si e na criança. O horror. Como se fechar hospitais psiquiátricos fosse a saída para resolver o problema do atendimento a pacientes em sofrimento mental, e não a constante atualização dos métodos, pautados por vigilância e profissionais bem treinados. O Brasil é um caso perdido.

Tratando a evidência inescapável das patologias de fundo nervoso como uma comédia das mais inteligentes do cinema, o diretor espanhol Vicente Villanueva compõe em “Toc Toc” (2017) um mosaico multicolorido sobre o que é ter atividades básicas do cotidiano, como ir ao trabalho ou comparecer a um encontro amoroso, tolhidas por manias e desvios comportamentais. Concebida originalmente como um texto para o teatro, a peça do escritor francês Laurent Baffie foi adaptada para o cinema por Villanueva, que para falar de assuntos que permanecem tão graves, se vale da máxima latina popularizada por outro dramaturgo, o português Gil Vicente, (1465-1536) e pune os costumes pelo riso.

O mote central do roteiro é o atraso de um médico — que, conforme se vai assistir, não é aleatório —, capaz de provocar verdadeiro pandemônio entre seis pessoas diagnosticadas com os mais variados gêneros de psicopatologias. Enquanto esperam o misterioso doutor Palomero, os seis passam o tempo falando sobre a rotina nada normal de cada um, avaliam quem está melhor ou pior e fazem força para tolerar as loucuras um do outro, sem saber por quanto tempo vão conseguir aguentar esse tormento sem traumas adicionais. Aparentemente, a confusão se deve ao pouco traquejo da secretária Tiffany, de Inma Cuevas, com o novo software instalado no computador do consultório que agendou todas as consultas para as quatro e meia. Federico, interpretado com o vigor de sempre por Oscar Martínez, é o primeiro a chegar, seguido por Blanca, de Alexandra Jiménez, uma técnica de laboratório maníaca por limpeza. A sequência que marca o encontro inusitado dos dois, de um humor bastante refinado, deixa claro ao espectador que aquelas pessoas estão mesmo precisando de ajuda. Algum tempo depois aparecem Emilio, de Paco León, taxista obcecado por números e cálculos, capaz de realizar qualquer operação matemática de cabeça; a carola Ana María, que nunca sai de casa sem que confira reiteradas vezes se desligou as luzes, fechou as torneiras, bloqueou o registro do gás e apagou as velas que ardem diante da imagem de seus santos de devoção, se benzendo a todo instante. Completam o grupo a instrutora de academia Lili, de Nuria Herrero, que como seu nome sugere, repete sílabas, palavras e frases inteiras entre e outro arroubo de movimentos com a cabeça e escapes de estalidos com a língua; e o elástico Otto, com o clássico problema de não conseguir pisar sobre listras, a porção de comédia física em “Toc Toc”, levada com graciosa maestria por Adrián Lastra.

Quando estão todos reunidos na antessala do tal doutor Palomero, Villanueva começa a dinâmica de seu trabalho, ou seja, fazer que seus personagens enxerguem a ausência do médico como a oportunidade ideal para expiar suas angústias diante uns dos outros, como numa terapia em grupo, a fim de tentar achar uma solução alternativa às consultas periódicas. Apostando alto na metáfora da união que faz a força, o diretor desnuda seus seis adoráveis doidinhos, que mesmo protagonizando atritos pontuais, até que se portam bem. Na iminência do desfecho, Federico, Blanca, Emilio, Ana María, Lili e Otto, notam que a inadequação social que seus respectivos transtornos geram na vida de cada um tem igual matriz: a necessidade, desprezada pelos ditos normais, de pertencer a um grupo, arco que o diretor fecha de uma maneira um tanto simplória, e inteligente mesmo assim.

Nas cenas exibidas ao longo dos créditos finais, “Toc Toc” mostra que esse sexteto tornou-se menos louco, mais próximo do mundo real e gozando de mais possibilidades de serem, afinal, aceitos. Não querem nada de excepcional. Só serem vistos mais de perto.


Filme: Toc Toc
Direção: Vicente Villanueva
Ano: 2017
Gênero: Comédia
Nota: 9/10

Informações Revista Bula


O acervo da Netflix conta com mais de 4.500 títulos entre filmes, séries, documentários, animações e reality shows. Mas você sabia que dentre tudo isso, mais de 1.400 são originais da plataforma? Ou seja, conteúdo produzido pela Netflix e que você só poderá ver por lá? Pois é, e, para 2022, já são mais de 70 títulos originais previstos para chegar no serviço de streaming. Nesta semana, teremos algumas estreias e a Revista Bula trouxe agora para você quatro filmes que você não pode perder. Destaques para “Ainda Estou Aqui”, de 2022, de Arie Posin; “As Garotas de Cristal”, de 2022, de Jota Linares; e “Metal Lords”, de 2022, de Peter Sollett. Os títulos disponíveis na Netflix estão organizados de acordo com o ano de lançamento e não seguem critérios classificatórios.

Ainda Estou Aqui (2022), Arie Posin

Tessa é uma adolescente que, durante sua infância, pulou por lares adotivos e não acredita mais que merece amor. Após se encontrar com Skylar, um jovem de uma cidade vizinha, seu coração começa a se abrir. No entanto, o casal sofre um acidente de carro. Skylar morre e Tessa sobrevive. Após procurar respostas para o que aconteceu, Tessa passa a acreditar que Skylar está tentando se comunicar com ela. Com ajuda de sua melhor amiga, Tessa tenta se reconectar com Skylar uma última vez.

As Garotas de Cristal (2022), Jota Linares

Após a morte de Maria, a primeira bailarina de um espetáculo, provocada por suicídio, Irene, que é a substituta, começa a treinar para ocupar seu papel de protagonista. Sob ordens do coreógrafo Antonio Ruz, Irene se sente oprimida e pressionada. Ao lado de outra amiga bailarina, Irene irá criar um mundo próprio para escapar da tensão e do medo de falhar.

Metal Lords (2022), Peter Sollett

Hunter e Kevin são dois adolescentes de ensino médio que querem formar uma banda de heavy metal. Eles estão à procura de um baixista, mas só conseguem encontrar Emily, que toca violoncelo. O grupo se inscreve no Battle of Bands, mas precisam conciliar as diferenças musicais para conseguirem vencer.

Yaksha: Operação Implacável (2022), Hyeon Na

Kang-in é chefe de um departamento do Serviço Nacional de Inteligência, em Shenyang, na China. Ele lidera uma equipe com os melhores e mais preparados espiões para missões secretas. Um agente notório, capaz de qualquer coisa para atingir seus objetivos, Kang-in é conhecido como Yaksha, que significa “espírito devorador de humanos”. Até que Ji-hoon, um promotor de Justiça, chega para investigar o departamento de Kang-in, provocando uma tensa batalha entre forças de segurança.

Informações Revista Bula


Disse sabiamente Terêncio (185 a.C. – 159 a.C.) que, por ser humano, nada que o homem fizesse ou deixasse de fazer lhe era indiferente. Também uma desculpa para suas próprias faltas, para que dele tivessem misericórdia quando cometesse seus próprios deslizes, o dramaturgo e poeta romano legou para a história trabalhos como “O Homem que se Puniu a Si Mesmo”, em cujo prólogo se alonga sobre seus métodos de escrita. Na peça, composta em 163 a.C., Terêncio pede à audiência para que julgue seu texto por seus próprios méritos e valorizando sua própria opinião sobre o que estavam a assistir, deixando de lado a opinião da crítica.

Paulo Francis (1930-1997) um dos maiores intelectuais de que o Brasil já pôde desfrutar, começou sua vasta carreira como provocador na pele de crítico de teatro. É conhecida a história de bastidor acerca do quiproquó gerado a partir de um artigo seu sobre “Um Deus Dormiu Lá em Casa”, que ganhou o palco do Teatro Copacabana, no Rio de Janeiro, em 13 de dezembro de 1949. Ao avaliar o trabalho de Guilherme Figueiredo (1915-1997), que transpunha para a realidade brasileira, e mais especificamente, a carioca — e num recorte ainda mais refinado, para a realidade da Zona Sul da capital fluminense —, “Anfitrião” (206 a.C.), de Plauto (230 a.C. – 180 a.C.), sobre o casamento e seus descaminhos, a certa altura, Francis desanca a performance de Tônia Carrero (1922-2018), a quem agrediu com uma ofensa pessoal qualquer — a seu desfavor, abundam episódios em que o autor se valia da ofensa ad hominem sem medo de ser feliz. A resposta veio à galope: Adolfo Celi (1922-1986), então marido de Tônia à época, e Paulo Autran (1922-2007), que protagonizava com ela o espetáculo, partiram para cima do crítico, cada qual na sua vez. Embora fosse um sujeito um tanto parrudo, Francis só sabia esgrimir mesmo com as palavras. Levou a pior no embate com Autran, claro, ainda que nunca o tenha admitido, mas tirou uma bela lição: ninguém é bom em tudo. Cuidado, portanto, nunca é demais. 

Por motivos óbvios, não serei eu a hostilizar os críticos. Só o que digo é que com sua pena desabusada Terêncio, um arguto observador das coisas de seu tempo, falava de fraquezas da natureza humana, a exemplo da vaidade e a soberba, como poucos. Nos cinco filmes da lista da Bula, esses dois lados menos graciosos do homem se fazem presente em maior ou menor evidência. Em “Granizo”, de Marcos Carnevale, um homem já experimentado na carreira e na vida comete um erro e, ainda que não queira passar por cima de sua própria falta para seguir em frente, é sacrificado pela opinião pública. No caso de “Sorte de Quem?”, Charlie McDowell fala dos segredos inconfessáveis de um casamento que se esfacela de podre porque admitir a derrota — malgrado no amor não haja derrotados ou vencedores, só feridos — dói, muito. As cinco produções, as melhores de 2022 lançadas pela Netflix (até agora), vêm em ordem alfabética e mesmo desafiando o senso comum (e o gosto dos críticos, muitas vezes), se impõem pela qualidade da história e a maneira como esta história se permite ser difundida.

Imagens: Divulgação / Reprodução Netflix

Apollo 10 e Meio: Aventura na Era Espacial, de Richard Linklater

Famoso por incluir em seus filmes a superação de desafios — como em “Boyhood — Da Infância à Juventude” (2014), sobre o processo de amadurecimento de um garoto ao longo de doze anos, com o mesmo elenco, ou “Waking Life” (2001), em que cenas, paisagens e atores foram coloridos e tiveram a imagem redefinida graças a um software desenvolvido em parceria com sua equipe, exatamente como acontece durante a feitura de uma animação —, Richard Linkater apresenta em “Apollo 10 e Meio: Aventura na Era Espacial” a fusão desses dois trabalhos. Aqui, Linklater narra o cotidiano de uma família americana de classe média no final dos anos 1960 no subúrbio da maior cidade do Texas, estado conhecido pelo rigor de sua gente, irrigado artificialmente pelo dinheiro da NASA, a agência espacial americana, que desenvolve uma de suas fases diante da irrequietude da população. O roteiro de Linklater coloca todas as informações de destaque na boca de seu personagem central, Stan, um garoto de dez anos e meio, que presencia as mudanças da sociedade nos Estados Unidos e no mundo confrontadas com as transformações em sua própria família.

Granizo, de Marcos Carnevale

Ser querido, mimado, adorado, venerado pode ter seu lado ruim. Às vezes, subimos tão alto que temos a impressão de que ninguém jamais poderá nos tirar do pedestal em que nos colocamos. Bobagem grossa: chegar tão perto do céu pode acabar nos dando a ideia errada de que somos deuses, e quanto maior a altura, mais difícil a descida — e mais dolorido o tombo. E tanto pior se presenciado por uma cidade inteira, impulsionado pela força brutal da televisão. Na comédia dramática “Granizo”, o argentino Marcos Carnevale faz uma bem fundamentada crítica da vaidade humana a partir da história de Miguel Flores. Âncora de um show televisivo levado ao ar recentemente, cujo principal assunto é a previsão do tempo, Flores, vivido pelo carismático Guillermo Francella, se sai muito bem na função que escolhe desempenhar, até que uma armadilha do tempo, que mesmo com toda a sua experiência não consegue prever, faz com que perca carreira e autoestima de um só golpe. Agora, resta a Flores sair de cena e pensar numa forma de se redimir e voltar por cima.

Perdoai-nos as Nossas Ofensas, de Ashley Eakin

Embora curtíssimo, “Perdoai-nos as Nossas Ofensas” já nasceu clássico. Com pouco mais de catorze minutos, incluídos os créditos, o trabalho da americana Ashley Eakin encara o nazismo sob uma perspectiva absolutamente nova, valendo-se de seu roteiro enxuto, coescrito com Shawn Lovering, e sem prescindir de detalhes técnicos que exaltam seu lado de obra de arte, como a fotografia primorosa de Michael Galbraith. O burburinho em torno da história — a perseguição da SS, a polícia política de Hitler, a um garoto alemão cuja deficiência física ameaça a hegemonia do regime, brilhantemente encarnado por Knox Gibson — é muito justo, todavia não seja nem de longe o suficiente para fazer o espectador médio alcançar a grandeza do enredo. Em raras ocasiões, num tempo de projeção tão curto, um filme fora capaz de chocar, encantar, cristalizar ideias e suscitar outras reflexões sobre o fenômeno sociológico mais estudado da história da civilização. E também um dos mais perversos.

Os Piratas: Em Busca do Tesouro Perdido, de Kim Joung-hoon

“Os Piratas: Em Busca do Tesouro Perdido” (2022) teve de remar muito para não ser levado pela maré. Concebido como o prolongamento de “Os Piratas” (2014), de Lee Seok-hoon, o filme de Kim Jeong-hoon teve de ser reescrito, missão que coube a Chun Sung-il, depois que os atores Son Ye-jin e Kim Nam-gil, escalados para os papéis principais, abandonaram o barco. Como se não bastassem os percalços internos, quando tudo estava ficando azeitado para a retomada das filmagens, no verão de 2020, veio a pandemia de covid-19, o que adiou a estreia do longa para o festival Chuseok, no outono de 2021. Tantas idas e vindas, contudo, valeram a pena: “Os Piratas: Em Busca do Tesouro Perdido” é a produção sul-coreana de maior bilheteria dentro de seu país de origem até agora, com um milhão de espectadores só em 2022. O argumento de “Os Piratas: Em Busca do Tesouro Perdido” remonta aos últimos anos do século 14, quando a dinastia Joseon teve início, em 1392, permanecendo à frente do governo da Coréia pelos cinco séculos que se seguiram, até 1897. Francamente desenvolvimentista, Joseon era um entusiasta da filosofia de Confúcio (551 a.C – 479 a.C), adaptava para a realidade de seu país a cultura chinesa, que considerava mais evoluída, e apoiava as artes e a ciência com o aporte financeiro necessário. Foi nessa leva que a navegação comercial também se popularizou e diversas expedições marítimas eram patrocinadas pelo imperador todos os anos. Ao passo que os navegadores com a chancela real ganhavam os mares, campanhas extraoficiais se tornavam cada vez mais frequentes, entre as quais a capitaneada pela pirata Hae-rang, personagem de Han Hyo-joo, que descobre um mapa do tesouro que pode levá-la a uma carga de objetos de ouro roubada do palácio real, perdida no oceano. Vai com ela o bando de sicários liderados por Wu Mu-chi, interpretado por Kang Ha-neul, que se autoproclama “o maior espadachim de Goryeo”, o reino que antecedeu o de Joseon, fundado em 918 e que deu à Coreia as características pelas quais a conhecemos hoje. Esses delinquentes também querem se apropriar do tesouro e não só: o desconforto da convivência é ainda maior porque Mu-chi não admite que Hae-rang, uma mulher, comande o navio, função que pleiteia para si.

Sorte de Quem?, de Charlie McDowell

“Sorte de Quem?” é certamente mais genial do que o próprio diretor, Charlie McDowell, pode imaginar. Tomando por ponto de partida um argumento aparentemente sem qualquer vínculo com o que se pretende discutir, McDowell elabora um raciocínio ousado para analisar a fragilização dos relacionamentos e a hipocrisia daqueles que a compõem. Todo o conflito tem início quando os personagens anônimos de Lily Collins e Jesse Plemons, um casal acintosamente rico para a pouca idade que ostentam, decidem passar uma temporada na casa de campo que mantêm num lugar retirado e aprazível, uma reprodução em cores as mais vivas de uma tela de Monet ou de Van Gogh. Antes que tenham chegado, quem desfruta do amarelo aceso da vastidão dos laranjais da propriedade, uma beleza gratuita da fotografia de Isiah Donté Lee, é o tipo vivido por Jason Segel, que, conforme se vai assistir algumas sequências adiante, não é só um delinquente um tanto atrapalhado, mas um psicopata frio, cuja covardia e a grande tibieza frente à vida lhe servem de pretexto para fazer toda a sorte de barbaridades, a exemplo de entrar em casas que não lhe pertencem sem convite.


Foto: Divulgação

Tire as crianças da sala ou separe um dia para deixar os filhos na casa da avó. Se sua intenção é maratonar os “proibidões” da Netflix, veja agora o que está disponível no catálogo do streaming com cenas explícitas de sexo, violência e drogas ou com conteúdo tão complexo, que é recomendado apenas para adultos. Destaques para “Diários de Andy Warhol”, de 2022, de Andrew Rossi; “Sexify”, de 2021, de Kalina Alabrudzinska e Malgorzata Biedronska; e “Sex/Life”, de 2021, de Stacy Rukeyser. Os títulos estão disponíveis na Netflix, estão organizados de acordo com o ano de lançamento e não seguem critérios classificatórios.

Imagens: Divulgação / Reprodução Netflix

Diários de Andy Warhol (2022), Andrew Rossi

A minissérie documental de seis partes mostra uma nova perspectiva sobre a vida de Warhol. Baseada nos próprios diários do artista, publicados postumamente em 1989, o livro de 840 páginas foi coescrito com Pat Hackett. Iniciado como um ritual de negócios de ligações matinais e planejamentos do dia, os diários cresceram em descrições dos eventos do dia anterior. Fofocas, confissões, jactâncias e arrependimentos são revelados.

Sexify (2021), Kalina Alabrudzinska e Malgorzata Biedronska

Natalia passou os últimos três anos codificando um aplicativo de otimização do sono. Para que sua criação ganhe uma importante competição, ela deixou de festejar, namorar e se divertir. Quando um professor diz que ela não tem chance de ganhar, Natalia fica arrasada e precisa repensar sua vida.

Sex/Life (2021), Stacy Rukeyser

Billie é uma dona de casa entediada que sonha acordada com os dias de festas selvagens e cheios de sexo de sua juventude, em particular, com um executivo de uma gravadora de música, Brad. Ela começa a escrever sobre suas experiências em seu laptop, até que um dia seu marido descobre o diário de memórias de Billie e o usa como manual de instruções para apimentar a vida sexual do casal.

Vingança Sabor Cereja (2021), Nick Antosca e Lenore Zion

Lisa Nova é uma jovem aspirante a cineasta que chega em Los Angeles com um ar confiante, um estilo ditatorial e um curta-metragem chamativo no currículo. Ela conhece Lou Bourke, um produtor que promete dar a ela liberdade artística para realizar seus filmes. Após alguns eventos em que Lisa se sente injustiçada, ela recruta a bruxa Boro para amaldiçoar Bourke e ajudá-la em sua vingança.

Vampiros (2020), Benjamin Dupas e Isaure Pisani-Ferry

Doina é uma adolescente parisiense meio humana e meio vampira, que toma pílulas todos os dias para inibir sua sede de sangue. Enquanto passa pelas crises da adolescência, como a rebeldia e o primeiro amor, Doina se sente cada vez mais atraída pelo mundo dos vampiros, onde ela não é tão querida assim.

Crônicas de San Francisco (2019), Lauren Morelli

O revival da minissérie dos anos 1980 narra o retorno da protagonista, Mary Ann, à San Francisco. Agora uma mulher de meia-idade, ela reencontra os amigos excêntricos que deixou para trás, na antiga pensão que agora se transformou em um complexo de apartamentos, de propriedade de Anna Madrigal, uma mulher trans. Madrigal é assombrada por algo de seu passado que há muito tempo está guardado e é muito doloroso para ser compartilhado.

Toy Boy (2019), César Benítez e Juan Carlos Cueto

Quando o jovem stripper Hugo Beltrán conhece Macarena Medina, uma mulher rica e influente, os dois passam a ter encontros sexuais. Até que em uma de suas noites juntos, Hugo acorda dentro de um barco e encontra um cadáver em chamas. Sem se lembrar de nada por ter se drogado na noite anterior, ele é preso pela polícia acusado de assassinato. Após sete anos na prisão, a advogada Triana Marin reabre o caso e possibilita um novo julgamento para Hugo. Ela consegue liberdade condicional para ele, que precisa provar sua inocência com evidências. No entanto, Hugo acaba no meio de uma disputa de famílias pelo poder e por dinheiro.

Elite (2018), Darío Madrona e Carlos Montero

Samuel, Nadia e Christian são três alunos da classe trabalhadora que recebem uma bolsa de estudos para ingressarem na exclusivista e elitista escola de ensino médio, Las Encinas. Enquanto os três tentam se encaixar em um lugar que obviamente não os pertence, um turbilhão de confrontos entre eles e seus colegas ricos conduzem a um misterioso assassinato.

Van Helsing (2016), Jonathan Scarfe e Michael Nankin

A série se concentra em Vanessa Helsing, filha do famoso caçador de vampiros e inimigo de Drácula, Abraham Van Helsing. Ela é ressuscitada cinco anos após sua morte para descobrir que os vampiros dominaram o mundo e que ela possui um poder único sobre eles. Vanessa surge como última esperança da humanidade e lidera uma ofensiva para recuperar o que foi perdido.

Top Boy (2013), Ronan Bennett

Dushane e seu amigo, Sully, administram um próspero negócio ilegal de drogas. Eles se tornam os homens mais ricos de seu quarteirão, mas, para ficarem ainda mais ricos, eles fecham parceria com o Don Bobby Raikes. A rivalidade com outra gangue resulta no roubo de um dinheiro que eles haviam pegado emprestado com Raikes. Conforme avançam nos negócios, as consequências de suas ações se tornam cada vez mais devastadoras.


Se apesar da correria você consegue algum tempo durante a sua semana para acompanhar o que há de bom no cinema, a Revista Bula te dá algumas dicas de produções disponíveis na Netflix e que, apesar de sua inegável qualidade, são surpreendentemente pouco conhecidas. Essa lista é a prova cabal de que mesmo quando achamos que já viramos e reviramos a Netflix do avesso, ainda há títulos escondidinhos que merecem ser prestigiados. Destaques para “Memórias de Verão”, de 2021, de Ozan Açiktan; “Bala Perdida”, de 2020, de Guilhaume Pierret; e “Sonora”, de 2019, de Alejandro Springall. Os títulos estão disponíveis na Netflix e organizados de acordo com o ano de lançamento e não seguem critérios classificatórios.

Imagens: Divulgação / Reprodução Netflix

Memórias de Verão (2021), Ozan Açiktan

Nas férias de 1996, no sul da Turquia, Deniz visita a casa de veraneio de seus pais. Ele costuma se hospedar no local todos os anos, mas agora, aos 16, ele acredita ser maduro o suficiente para ter sua primeira experiência sexual com seu amor platônico, Asli. Deniz tenta se aproximar dela, mas percebe que Burak, um jovem esportivo e de boa aparência, também gosta de Asli. À medida que assistimos o florescer do amor em cada personagem, o espectador também experimenta o primeiro desgosto do despertar da adolescência.

Bala Perdida (2020), Guillaume Pierret

Após ser pego em flagrante durante um assalto a uma joalheria, Lino é condenado e enviado para a prisão. Lá conhece um oficial chamado Charas, que vê no rapaz um verdadeiro potencial em seu conhecimento sobre carros. Ele faz com que Lino seja contratado como mecânico para o departamento de polícia e tenha a pena reduzida. Vendo na oportunidade uma segunda chance, Lino trabalha lealmente e prepara os carros dos policiais para serem mais potentes que os dos bandidos durante as perseguições. Vendo que o rapaz agora trabalha para o outro lado, uma gangue de criminosos irá tentar intimidá-lo.

Sonora (2019), Alejandro Springall

Em 1931, americanos extremamente nacionalistas decidem expulsar os chineses de Sonora. Além disso, os mexicanos são deportados e as fronteiras são fechadas. Um grupo de pessoas desesperadas cruza o deserto de Sonora em um Crysler, na esperança de encontrar paz na Baixa Califórnia. Durante a jornada, eles confrontam o melhor e o pior da natureza humana, enquanto o racismo e a ganância mostram sua face mortal e perigosa.

Shimmer Lake (2017), Oren Uziel

Zeke Sikes é xerife de uma cidade que investiga um assalto a banco. Seu irmão que tem problemas mentais, Andy Sikes, está envolvido no roubo junto com o ex-presidiário Ed Burton e o viciado em metanfetamina Chris Morrow. O filme segue em ordem inversa ao longo de uma semana para mostrar o planejamento do assalto e sua execução atrapalhada. Sangue, mortes, tiroteios e traições se desenrolam no decorrer de toda a ação azarada.

Strange Weather (2016), Katherine Dieckmann

Darcy Baylor trabalha em uma faculdade e passa seus dias pensando no filho adolescente que cometeu suicídio há sete anos. Quando descobre que um amigo do filho roubou seu plano de negócios e abriu a cadeia de restaurantes de cachorro-quente que ele sempre sonhou, Darcy decide pegar a estrada e ir ao encontro do “ladrão” para confrontá-lo.

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