Em 17 de fevereiro de 1958, em Sierra Maestra, o camponês Eutimio Guerra foi julgado e condenado à morte por Ernesto Che Guevara. Ele havia se unido à guerrilha que combatia o governo cubano, atuando como guia, mas teria colaborado com o exército do presidente Fulgencio Batista. As evidências contra ele eram tão fracas que ninguém queria executar a sentença. Guevara então pegou uma pistola calibre .32 e disparou contra a têmpora do cubano de 37 anos.
Este é o primeiro caso documentado de assassinato a sangue frio liderado por Che. Centenas de outros se seguiriam. Quando a revolução fora vitoriosa e os guerrilheiros se instalaram em Havana, em 1959, o argentino, que dizia ter abandonado a vida confortável de classe média para lutar pelos mais pobres, conduziu fuzilamentos diários ao longo de meses. No posto de juiz chefe do Tribunal Revolucionário, agiu dentro da fortaleza La Cabaña, uma antiga fortaleza espanhola transformada em prisão. O fosso em torno das instalações ficou lotado de cadáveres. As famílias autorizadas a visitar detentos eram conduzidas diante do paredão ensanguentado onde aconteciam os fuzilamentos.
Foi em La Cabaña que Jesús Carrera Zayas, de 27 anos, tombou em 11 de março de 1961. Deixou uma viúva de 20 anos e uma filha de seis meses. Zayas era comandante do exército rebelde. Após a vitória, passou a se opor a uma série de decisões de Che. Acabou detido, acusado de trair os companheiros. Seu assassinato foi conduzido por Fernando Flores Ibarra, mais conhecido pelo apelido “Charco de Sangre” (algo como “poça de sangue”). Uma escola enviou crianças para assistir à execução. Elas eram encorajadas a gritar: “Morte ao verme!”. “Foi Che quem determinou a morte de Zayas. Ele presenciou a execução”, relata, no livro Che Guevara’s Forgotten Victims, María C. Werlau, diretora executiva do Free Society Project, uma organização que atua a partir de Washington para denunciar crimes contra a humanidade cometidos em Cuba. O livro é referência quando se trata dos crimes de Che. Relata as histórias de vítimas como Angel Maria Clausell García, Demetrio Clausell González, Fidel Díaz Merquías, Cornelio Rojas Fernández e José Castaño Quevedo. “Ernesto Guevara é o maior símbolo do ‘revolucionário chique’, um ícone da cultura de massa. Ironicamente, a maior parte de seus devotos sabe muito pouco, ou mesmo nada, sobre ele”, argumenta Werlau em seu texto. “Na Sierra Maestra, por exemplo, ele se mostrou um verdadeiro serial killer”.
Em La Cabaña, ela prossegue, “durante os julgamentos, regras básicas da jurisprudência foram ignoradas e as acusações do promotor eram consideradas provas irrefutáveis. Cuba, que até então não tinha pena de morte, viu Che Guevara conduzir uma máquina de matar. Ele insistia com seus subordinados: ‘Não atrasem os procedimentos. Esta é uma revolução. Não usem métodos legais burgueses; a evidência é secundária’”.
Com relação aos assassinatos, o próprio Che admitiu, em 1964, diante da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas: “É claro que executamos! E continuaremos executando enquanto for necessário”. Em 1957, durante as atividades da guerrilha, escreveu para o pai: “Hoje descobri que realmente gosto de matar”.
Mitos e lendas
De fato, quase toda a trajetória de Che é marcada por versões distorcidas da realidade. Não há, por exemplo, provas de que ele tenha de fato terminado a faculdade de medicina em Buenos Aires. “Ele concluiu os ensinos num tempo mais curto do que seria possível, e a Universidade de Buenos Aires alega que não tem mais os documentos da época”, escreve Fernando Díaz Villanueva em Vida y mentira de Ernesto “Che” Guevara. “Não havia tempo hábil entre o período em que ele retomou os estudos e as exigências da instituição de ensino para os estudantes de medicina, que incluíam um período obrigatório de prática”.
Talvez por isso, não conseguiu empregos como médico em diferentes países por onde passou em meados da década de 1950, incluindo Colômbia e Peru, num momento em que ele sonhava em chegar aos Estados Unidos para fazer dinheiro. Ele tampouco participou ativamente da defesa do governo de esquerda na Guatemala, como se diria posteriormente – na época, enquanto o presidente Jacobo Árbenz Guzmán renunciava e tinha início uma ditadura militar, ele se escondeu na embaixada argentina, enquanto sua noiva a economista peruana Hilda Gadea Acosta, que o sustentava, era presa. Aliás, depender financeiramente de Hilda não representava um constrangimento para o revolucionário, que poucas vezes na vida trabalhou em emprego fixo. Quando o fez, foi sempre por pouco tempo.
Mesmo como presidente do Banco Central e ministro da Indústria, em Cuba, Che era conhecido por aparecer perto do meio-dia, com roupas militares, lançar as botas sobre a mesa e acompanhar, entediado, os relatórios de seus funcionários, economistas que tentavam, sem sucesso, explicar ao líder os fundamentos mais básicos da rotina do trabalho. Guevara dizia que, caso os técnicos o desagradassem, poderia colocar camponeses para exercer a mesma função. A reforma agrária que ele liderou, assim como o esforço de industrialização do país, tiveram resultados catastróficos. Ele era mais eficiente em gerenciar assassinatos. E em escrever e ditar artigos e panfletos, se deixar fotografar e criar comendas e honrarias para si mesmo.
Campo de reeducação
Entediado, Che deixou Cuba em 1965, em busca de incentivar guerras e revoluções em outros países, especialmente Congo e Bolívia, onde seria preso e executado em 9 de outubro de 1967. Seu interesse maior estava em liderar homens armados. “Precisamos seguir o exemplo perene da guerrilha. O ódio é um elemento básico da luta. Devemos alimentar um ódio sem fim em relação ao inimigo, que nos impele a abandonar quaisquer limitações naturais para nos tornarmos máquinas de matar eficientes e violentas”, ele escreveu, em 1967.
A violência não abria espaço algum para a democracia. Em 1959, ele já tinha declarado: “Precisamos eliminar todos os jornais. Não se faz revolução com imprensa livre, porque os jornais são instrumentos da oligarquia”. Em 1961, fundara na península de Guanahacabibes, no extremo oeste de Cuba, o primeiro campo de trabalho para “reabilitação” para cidadãos considerados transgressores. Entre as punições previstas por Che estavam: beber, apresentar sinais de preguiça, tocar música alta, praticar uma religião ou demonstrar sinais de homossexualidade – o líder era obcecado em perseguir gays.
Ainda assim, a imagem que insiste em permanecer, inclusive nos cinemas, é a do motociclista aventureiro, do revolucionário romântico que se tornou um símbolo sexual e um exemplo de comprometimento com a humanidade. O fato de que ele se instalou em uma das maiores mansões de Havana, com piscina, salão de massagens e cais para iates, não costuma aparecer nos filmes. Nem o fato de que ele promoveu queimas de livros e ajudou a construir a polícia secreta cubana, aos moldes da Stasi da Alemanha Oriental.
Como resume Villanueva: “Che é um quase médico que se especializou em matar. Um comunista que queria fazer fortuna nos Estados Unidos. Um inimigo da propriedade privada que tomava mansões para si. Um defensor dos trabalhadores que quase nunca trabalhou. Um humanista desumano”.
Governo apresenta medidas inócuas para combater deficit público, mas objetivo virá pela enrolação, escreve Eduardo Cunha
Lula assina decreto que cria pacote de medidas anti-deficit ao lado do ministro da Fazenda, Fernando Haddad (à esquerda)
O início do Lula 3, que já foi assunto de artigos anteriores, mistura uma porção de práticas que, já constatamos, não deram certo em passado recente.
A única diferença mais visível foi abrir mão de disputar –e possivelmente perder– a eleição das mesas do Congresso. O maior eleitor na disputa pelo comando das duas Casas parece ter sido fantasma da derrota para mim em 2015. Até hoje não entenderam que minha candidatura na época, apoiada pela maioria, nunca foi contra o governo e sim contra a predominância do PT.
No mais, continua a prática de ceder em quase nada de espaço para os aliados –e, em contrapartida, eles fingem que estão na base congressual do governo. Isso cria aberrações, e elas certamente terão de ser corrigidas, ao cabo das primeiras derrotas nas votações mais simples que já estão programadas para ocorrerem. Muitos petistas mantêm espaços no governo, mas estão só esquentando o lugar para quem efetivamente pode ajudar a entregar algum voto no Congresso.
O RETORNO DA VELHA COMUNICAÇÃO
Sob a ótica da comunicação, Lula se confunde com o próprio carisma, sem reconhecer o envelhecimento dos seus métodos. A comunicação digital já substituiu os seus meios antigos. Ouvindo expoentes políticos, constata-se que Lula, de modo geral, está em modo analógico, enquanto o mundo está em digital.
Lula insiste também na velha retórica de que o mundo não podia existir sem ele e o PT. Sempre o velho discurso: herança maldita etc.
Também continua insistindo que o impeachment do governo do PT foi golpe, quando na realidade foi um golpe de sorte do país ter se livrado deles naquele momento. Assim como a sua nova eleição agora foi um golpe de azar do país, por sermos obrigados a viver novamente sob o jugo do PT.
No campo da comunicação, as pessoas que Lula colocou para comandar esse espaço não estão em sintonia com o mundo real de hoje. A tendência é, no tempo, ele perder essa guerra da comunicação, se não alterar os seus métodos analógicos ultrapassados pelo tempo.
Exemplo: Lula nitidamente optou por escolher para o seu governo a aproximação dos chamados “analistas de poltrona”, os comentaristas da GloboNews. Eles têm audiência inferior a uma pequena rádio de uma capital, não superando 200 mil pessoas.
Além da audiência ser pequena, a qualificação dela já não é mais a mesma. Hoje outros canais de notícias atuam melhor e com informação muito mais isenta do que as Organizações Globo sempre fizeram. Levantamento recente do Poder360 comprovou essa preferência.
Já tive a oportunidade de falar que um dos grandes méritos de Bolsonaro –e uma das razões da aversão da mídia a ele– foi a retirada da intermediação da mídia tradicional na comunicação dele e do seu governo. A Globo, assim como os demais veículos de imprensa, passaram todo o tempo do seu governo tendo de acompanhar as suas publicações em redes sociais, lives e declarações à porta do Alvorada para saber o que seria de seu governo e suas atitudes.
Isso, evidentemente, era perda de poder de informação da mídia. Por isso, passaram a atacar Bolsonaro cotidianamente.
Com seus velhos métodos de comunicação, Lula resolveu ceder imediatamente esse poder, voltando à velha fórmula de usar a mídia tradicional para se comunicar. Hoje, reserva o principal para a Globo e seus veículos, deixando uns pingos de informação para os demais veículos, a conta gotas.
É mais ou menos como a distribuição dos cargos do governo. A Globo domina as notícias, assim como o PT domina os cargos. Os outros ficam com algumas migalhas.
Esse quase monopólio da informação, assim como nos cargos, obviamente, não terá o efeito desejado, ainda mais com a reduzida audiência. Lula se esquece que a boa informação divulgada tem de atingir o objetivo da boa comunicação e não ser mercadoria política.
Também há desprezo pela comunicação digital. Bolsonaro já provou que ela faz toda a diferença. Ninguém resistiria a tanta campanha negativa se não tivesse uma forma eficiente de se comunicar; Lula não resistiria como Bolsonaro resistiu à campanha da mídia –embora essa campanha tenha, ao fim, derrotado Bolsonaro nas eleições.
Entretanto, a mídia não foi tão vitoriosa assim. A pequena diferença de votos mostra isso. O acirramento da polarização e a grande rejeição da sociedade ao governo Lula criaram na parte derrotada nas eleições um sentimento de que a campanha midiática prejudicou Bolsonaro e distorceu o processo eleitoral.
Vejam só: para surpresa de quase ninguém, Lula já se declarou candidato à reeleição, apesar de ter passado a campanha negando isso.
Sem qualquer iniciativa real que tenha um efetivo resultado imediato nas contas públicas em 2023, Lula usa a malandragem política para tentar, no fim do ano, apresentar um resultado positivo de redução do deficit. Isso porque a divulgação do resultado das contas do último ano de Bolsonaro traz pela 1ª vez depois do tsunami do último governo do PT, derrubado pelo impeachment, um superavit fiscal: R$ 54 bilhões. E mesmo com o pagamento do Auxílio Brasil em R$ 600.
O problema é que, ao final desse ano, o resultado que Lula acabar mostrando será muito mais pela omissão e incompetência do seu governo do que por algum ato que aumente a receita ou reduza gastos.
Para começar, as medidas propostas pelo seu ministro da Fazenda são absolutamente inócuas. Resumem-se a uma leve recomposição de alíquotas diminuídas para o ano de 2023 por Bolsonaro e à constatação de que o Orçamento pode ter errado a previsão de receita real a ser arrecadada no ano, talvez pela inflação maior do que a projetada ou pela desoneração.
Além disso, veio um programa de “Litígio Zero”, de difícil realização, ou a mera reprodução de tentativa de arrecadação à vista. A Lei 13.988 de 2020, a Lei das Transações, programa estabelecido por Bolsonaro, já prevê essa mesma arrecadação, só que a prazo.
No meio disso, introduziu uma bandeira corporativa da Receita Federal de trazer de volta o voto de qualidade do Carf (Conselho Administrativo de Recursos Fiscal), visando a julgar novamente teses já definidas a favor dos cidadãos. Mesmo que isso tenha sucesso, não significará que todos vão correr para pagar o que efetivamente não devem. Podem recorrer ao Judiciário para derrubar essa tentativa de extorsão do Fisco.
O próprio secretário da Receita Federal, ao defender a medida, já admitiu essa real intenção. Conseguindo-se ou não fazer valer essa pauta corporativa da Receita Federal, isso não renderá um centavo a mais no caixa do Tesouro esse ano.
Se quiséssemos ter alguma seriedade em discutir a relação da Receita Federal com os pagadores de impostos, deveríamos encontrar uma maneira de obrigar o Fisco a pagar os honorários advocatícios de quem vencer as causas no Judiciário, para acabar com e emissão de autos de infração, somente de cunho político, para fingirem que tem dinheiro a receber dos contribuintes, tentarem legalizar teses sem respaldo na legislação tributária e ainda tentarem aumentar os ganhos dos auditores fiscais, com bônus de eficiência inexistente.
Só um leigo ou ingênuo, vai acreditar que o governo vai reverter um deficit de mais de R$ 230 bilhões com essas medidas.
E como acho que ao menos a maior parte desse deficit poderá ser revertida nesse ano? Simples: por absoluta malandragem, traduzida pela omissão e incompetência do governo.
Aí você me faz a pergunta: não é melhor um governo omisso e incompetente, mas que reduza o deficit, em vez de um governo que não seja nada disso, mas que produza o deficit maior?
Minha resposta: depende do que você quer para o seu país.
AS MALANDRAGENS
Eis a malandragem política: Lula está conduzindo o governo para que as suas promessas de campanha não sejam cumpridas, ao menos na totalidade ou no tempo devido.
Ele pediu e obteve autorização do Congresso para gastar o que prometeu na campanha. Não o fará. Seja porque está enrolando, seja porque não terá competência para fazê-lo.
Vamos a elas:
aumento real do salário mínimo – Bolsonaro, no último debate na TV, prometeu R$ 1.400. Lula prometeu um aumento real, acordado com o Congresso para o Orçamento de 2023, no valor de R$ 1.320.
Lula simplesmente aceitou o salário mínimo de R$ 1.302, determinado em legislação anterior à aprovação do Orçamento pelo Congresso. Está enrolando para não colocar em vigor o valor atualizado. Simula reuniões com sindicatos para discussão do salário mínimo e sinaliza que só a partir de maio corrigiria o salário para os R$ 1.320, ganhando 4 meses com R$ 18 a menos. Com isso, economiza bastante no deficit em função do benefício mínimo da Previdência, que tem de ser corrigido quando se corrige o salário mínimo.
manutenção do aumento do Auxílio Brasil – o valor de R$ 600 definido no Orçamento significou o acréscimo de R$ 198 por família, na previsão original.
A despesa não será desse tamanho porque o governo está recadastrando os beneficiários. Deve retirar os beneficiários unifamiliares, além de colocar metas de contrapartida, que não serão atingidos por todos os cadastrados. Também podem diminuir o número alegando erros ou fraudes –existentes ou não.
Aliás, o ministro da área já disse que há irregularidades em 2,5 milhões de cadastros, cerca de 25% dos que já foram analisados. Eles já representam R$ 1,5 bilhão ao mês.
O certo é que não realizarão a despesa prevista no Orçamento, mesmo que finjam aumentar o número com novos beneficiários. Na realidade, o número final será uma redução.
novo benefício de R$ 150 por criança das famílias atendidas – essa iniciativa está claramente sendo empurrada para ser feita ao longo do ano, de forma gradativa, implicando ao fim do ano em um volume que não chegará à metade da despesa prevista no orçamento para o ano.
correção da tabela do imposto de renda – esta não tem previsão orçamentária própria, mas resulta na diminuição da receita estimada com imposto de renda pessoa física, sendo essa provavelmente uma das razões para a receita prevista para o ano de 2023, ser apontada por Haddad como inferior a receita corrigida de 2022.
Lula está enrolando e não fará a correção da tabela, que anunciou na campanha, como isenção para quem ganhasse até R$ 5.000.
Bolsonaro havia prometido até mais, só que ele teve a prerrogativa de propor o Orçamento prevendo as receitas, tendo provavelmente previsto isso na sua proposta orçamentária, daí a possível queda das receitas para 2023.
Como Lula não fará a correção integral prometida da tabela, a receita vai aumentar, diminuindo o deficit previsto e ainda sinalizando uma falsa eficiência arrecadatória, que vão tentar atribuir às medidas inócuas propostas por Haddad. Lula inclusive soltou a pérola, em reunião com sindicatos, de que estava discutindo com os economistas do PT a diminuição do imposto dos pobres e aumento do imposto dos ricos.
Tudo isso é eufemismo político para não cumprir as suas promessas de campanha ou ao menos adiá-las, até porque reduzir imposto tem efeito imediato, mas aumentar imposto tem o princípio da anualidade e da noventena, o que não permitiria a adoção simultânea.
Lembrando ainda que Lula, na campanha, não disse que para corrigir a tabela, precisaria aumentar imposto de quem quer que seja. Ao que parece ele vai restringir a isenção no ano para quem ganhar até 2 salários mínimos, se esquecendo que dificilmente o Congresso não irá lhe impor uma derrota, mesmo com cargos e tudo distribuído, o obrigando a isentar a tabela até R$ 5.000. Ele não terá condições políticas de vetar essa correção. Só conseguirá ganhar algum tempo, provavelmente uns 6 meses.
reposições – as recomposições orçamentárias de rubricas que foram diminuídas na proposta original de Bolsonaro não serão realizadas na forma prevista. Isso se dá por incompetência gerencial e por retardamento proposital, visando a conter o deficit previsto.
Parando por aqui, em função apenas do que foi relatado, desprezando outras variáveis, é óbvio que o deficit de 2023 jamais chegará aos R$ 230 bilhões. Contando com alguma sorte de aumento de receitas por algum componente econômico ainda não previsto, é possível chegar perto do deficit zero. No máximo, o déficit será de 2 dígitos de bilhão, jamais de 3 dígitos.
A malandragem do Lula, a sua omissão de fingir que não é com ele o tempo de cumprimento das suas promessas e a incompetência natural da pesada máquina estatal –agravada pelo retorno do petismo, ávido por gastar e ao mesmo tempo incompetente para fazê-lo– ainda vão produzir uma série de entrevistas ufanistas no fim do ano. Estas, de preferência, serão concedidas às Organizações Globo para os analistas de poltrona de pouquíssima audiência, afirmandi que Lula deu a volta por cima e reduziu drasticamente o deficit público, apesar das condições desfavoráveis, da herança maldita e do fato que pegou o governo tendo de enfrentar os atos antidemocráticos em uma tentativa de golpe, que –alegarão– prejudicou em muito as expectativas da economia.
Isso sem contar a já anunciada retomada de financiamento a juros subsidiados, pelo BNDES, para os países companheiros de esquerda, falidos. Vão provocar não só o aumento do custo da nossa dívida pelo subsídio, como também uma provável perda pelo previsível calote, já costumeiro nas operações anteriores, feitas pelos governos do PT no passado.
Lula se esquece que as suas falas e o próprio deficit previsto para o ano pressionam a taxa de juros, assim como a necessidade real de financiar a rolagem da dívida pública. Todos sabem que a taxa Selic tem componentes técnicos, que derivam da inflação associada ao prêmio do risco Brasil, ou ainda à taxa de juros americana, associada à expectativa cambial.
É falsa a expectativa que a taxa Selic, que serve somente para financiar a dívida pública, é fator de custo para impedir o crescimento.
Quem consegue empréstimo em algum banco à taxa Selic? Se conseguirem, me avisem. Eu adoraria pegar empréstimos atrelados à Selic de hoje.
Só compra o PT quem ainda não o conhece ou tem memória curta. Lula precisa começar a trabalhar de verdade. Eles são os mesmos de sempre, hoje até piores. Com os mesmos métodos, malandragens e outras coisas que já cansamos de ver por aqui.
No mais, você já pode comprar a pipoca e sentar na poltrona para conferir o que se passará, quem sabe pela GloboNews. Eu vou preferir um streaming –é o melhor que você pode fazer, se acreditar no que escrevo.
Foto: Montagem Revista Oeste/Wikimedia Commons/SCO/STF
A maior parte da esquerda brasileira, que se comporta cada vez mais como se as últimas eleições para presidente da República tivessem sido a conquista de Havana pelas tropas de Fidel Castro, continua convencida, pelos atos que pratica, de que a “ditadura do proletariado” já começou no Brasil. O presidente Lula, naturalmente, é o condutor dessa marcha da insensatez. É duvidoso que controle de fato o que estão fazendo em seu governo, ou que saiba direito o que está sendo feito, ou até quem foi nomeado para isso ou aquilo, mas está se achando o grande comandante mundial das lutas pela vitória do “socialismo” sobre a face da Terra. Imagina que é o Che Guevara do século 21, ou pelo menos o Nicolás Maduro do Brasil — ou, quem sabe, um novo Perón, com Evita e tudo. Na sua esteira, com as mesmas agressões ao Brasil do trabalho, da produção e das liberdades, vêm os ministros e a multidão de sócios-proprietários que invadiu o seu governo e começa a construir ali um caos digno de Dilma Rousseff.
Ignoram que praticamente metade dos eleitores que foram votar no segundo turno, pelos números do próprio TSE, preferiu o seu adversário — e, por seu simples peso aritmético, teriam de ser levados em conta em qualquer projeto minimamente responsável de governo.
Estão certos de que ganharam uma daquelas eleições cubanas em que o governo leva 99% dos votos e que, por isso, podem fazer o que bem entendem com o país, com 215 milhões de brasileiros e, sobretudo, com o dinheiro do Tesouro Nacional.Será que vai ser assim mesmo, e tão fácil? Quer dizer: Lula faz uns discursos para criar a “moeda sul-americana”, o ministro da Justiça amontoa projetos, medidas provisórias e decretos-lei destinados à repressão política, o Senado reelege um presidente disposto a executar as instruções do Palácio do Planalto, as autoridades falam em todes e todes, e o Brasil vira socialista? A conferir, em futuro próximo — mas com apenas um mês de governo a revolução de Lula, do PT e da esquerda nacional começa a descobrir que a vida tem problemas.
O primeiro deles foi uma espécie de bomba de hidrogênio nas ambições mais agressivas de se suprimir a oposição do Congresso Nacional. O ministro Alexandre Moraes, numa decisão que oferece o primeiro grande sinal de paz para a política brasileira nos últimos quatro anos, negou o destrutivo pedido de suspender a posse de 11 deputados da oposição — exigência de um grupo de advogados que está no coração da candidatura de Lula e ocupa postos-chave dentro do seu governo.
Foi, possivelmente, a decisão mais acertada de um ministro do Supremo Tribunal Federal desde que a vida pública nacional entrou em parafuso com a eleição de Jair Bolsonaro para presidente do Brasil. O ministro Moraes deu um aviso claro, vigoroso e essencial para a segurança dos parlamentares da oposição: seus mandatos, conferidos pelo eleitor brasileiro, estão garantidos pelo STF — e não dependem, como pretendem os radicais de esquerda, de aprovação do governo para serem exercidos.
A decisão desmonta, simplesmente, o pior ataque já feito pelo lulopetismo contra a liberdade parlamentar no Brasil — as últimas cassações de mandato por motivo político foram no Ato 5, durante a “ditadura militar” que Lula e o PT, pelo que têm feito, tanto gostariam de ressuscitar no Brasil. Foi um choque elétrico. “Daqui vocês não podem passar”, informou Moraes.
Foto: Fellipe Sampaio/SCO/STF
O ministro Alexandre de Moraes, que já havia desapontado a esquerda com a decisão de devolver o acesso às redes sociais do deputado Nikolas Ferreira, do PL — o mais votado nas últimas eleições, com quase 1,5 milhão de votos —, é um problema em aberto. Com 54 anos de idade e a vida pela frente, Moraes é um homem-chave no presente e no futuro da política brasileira.
Vale, sozinho, pelos dez outros ministros do STF somados — com a exceção, talvez, de Gilmar Mendes, que também exerce influência decisiva no compasso do tribunal. Foi ele, disparado, a força que resolveu as coisas na liquidação de Bolsonaro e do bolsonarismo como força política no Brasil. Reduziu o ex-presidente a picadinho de alcatra.
Só falta agora o último passo, que é tornar o homem inelegível — algo que talvez nem seja mais necessário. (Há gente que ainda tem medo de que Bolsonaro receba outros 60 milhões de votos daqui a quatro anos, mas sua conta, na vida real da política, já parece fechada.) A questão, para Lula e o seu sistema, é que uma hora qualquer, mais cedo ou mais tarde, o processo de desmanche de Bolsonaro vai acabar. E daí — o que o ministro Moraes vai fazer de lá para a frente, e durante os próximos quatro anos?
O pior momento, num mês com momentos ruins quase diários, foi esse súbito caminhão de ira que resolveu despejar em cima do impeachment de Dilma RousseffÉ claro que ele continua tendo a seu cargo o inquérito criminal que funciona, hoje, como a principal lei do Brasil, além, naturalmente, de todos os inquéritos derivados dali — e sem o arquivamento do processo todo a paz política e a segurança jurídica não voltam ao país. Mas não haverá, na linha de tiro de Moraes, a figura que tem sido o inimigo número 1, 2, 3, 4 e 5 de Lula e das forças que o apoiam. Não é a mesma coisa. Daqui para a frente, sem Bolsonaro, o ministro Moraes muda de natureza para Lula.
A pergunta-chave é: seus planos vão ou não vão continuar andando juntos? Não está claro se os dois querem as mesmas coisas, e nem se o ministro está interessado em dividir o governo com o presidente. Não se sabe se ele pretende entrar em parceria com os extremistas que controlam hoje as decisões de Lula; no caso da agressão aos deputados, Moraes ficou contra eles e do lado da liberdade. Há outras coisas que não se sabe. O que se sabe é que as âncoras políticas do ministro, até o momento, têm sido o ex-presidente Michel Temer e o vice-presidente Geraldo Alckmin; isso não é o PT.
Foto: Valter Campanato/Agência Brasil
Outro problema, para Lula, é a descoberta de que também ele, Sua Santidade, pode meter o pé na jaca. O pior momento, num mês com momentos ruins quase diários, foi esse súbito caminhão de ira que resolveu despejar em cima do impeachment de Dilma Rousseff. Foi um desastre. Ninguém ficou a favor; ao contrário, o presidente levou até dois editoriais indignados no lombo, um de O Estado de S. Paulo e outro de O Globo — já tinha levado um terceiro, da Folha de S.Paulo, contra a neurastenia repressiva do governo. Para que isso? Lula fez uma acusação alucinada: sem que ninguém tivesse lhe perguntado nada, disse que Dilma foi expulsa do governo por “um golpe de Estado”. Repetiu o disparate e, para coroar, se referiu ao “golpista Michel Temer” — tudo isso em viagem ao exterior e para plateias estrangeiras. É uma mentira primitiva, insultuosa e mal-intencionada. Dilma foi destituída por um procedimento absolutamente legal de impeachment, pelos votos de 61 senadores e 367 deputados, num processo que durou nove meses inteiros, foi supervisionado passo a passo pelo STF e no qual teve o mais amplo direito de defesa. Onde está o golpe? Estaria Lula anunciando que, se houver um processo de impeachment contra ele, também será “golpe”? E se estiver — o que adianta isso?
Foto: Valter Campanato/Agência Brasil
Foi uma ofensa grosseira ao Congresso, ao STF e à verdade mais elementar dos fatos; se ele não fosse Lula, seria punido histericamente pelas duas polícias de combate à “desinformação” que já foram criadas em seu governo. Foi, também, uma agressão sem pé nem cabeça contra o ex-presidente Michel Temer. A questão, aí, parece ser um velho e aparentemente incurável defeito de fabricação de Lula — sua incapacidade de controlar o próprio despeito. Temer fez, possivelmente, o melhor governo que o Brasil já teve no período da pós-democratização, se for considerado o país em ruínas que recebeu da era Lula-Dilma e o país que entregou ao seu sucessor — mesmo levando-se em conta o extraordinário sucesso de Fernando Henrique na eliminação da inflação e os evidentes êxitos econômicos de Jair Bolsonaro. O governo Temer só teve um problema: durou pouco, porque seu mandato constitucional foi curto. Tudo isso, muito simplesmente, é insuportável para Lula, o presidente das “heranças malditas” e imaginárias — um caso exemplar de problema que não contém a semente de uma solução, mas apenas a semente de um outro problema, e problema para ele mesmo.
O fato é que, depois de um mês no governo, Lula e o seu sistema não conseguiram gerar uma única boa notícia — nem para eles próprios. O único projeto de obra pública que Lula anunciou é na Argentina — e para a duvidosa construção de um gasoduto conhecido pelo nome de “Vaca Muerta”, para se ter uma ideia de onde estão querendo amarrar o burro do BNDES. A principal notícia no mundo dos negócios é a monumental fraude contábil das Lojas Americanas, em cujo comando figura o empresário Jorge Paulo Lemann, estrela entre os bilionários de esquerda do Brasil e grande destaque na ala dos apoiadores capitalistas do presidente. Os juros continuam em 13,75% ao ano, como resultado das expectativas ruins em relação à inflação. O mercado, a cada dia, mostra que não confia nem na competência e nem nas intenções da equipe econômica — e Lula, em vez de olhar para os problemas reais que provocam essa desconfiança, fica bravo com o mercado. O Ministério da Agricultura, peça-chave para a área mais produtiva da economia brasileira, está sendo substituído por um “Ministério do Desenvolvimento Agrário”. Os números do seu governo, inevitavelmente, vão começar a cair no noticiário e na vida real das pessoas — e não poderão ser suprimidos com discursos sobre a “herança maldita” de Bolsonaro, a guerra na Ucrânia e o “genocídio” dos ianomâmis. O presidente, queira ou não queira, vai ter de conviver com a realidade.
Dados oficiais do Banco Mundial mostram que o Brasil cresceu mais que a China, pela primeira vez em 42 anos
Sob a condução de Guedes, o Brasil cresceu mais que a China | Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
Saíram, afinal, os dados oficiais do Banco Mundial para o desempenho da economia em 2022 e lá está: o Brasil cresceu mais que a China, pela primeira vez em 42 anos. O ex-ministro Paulo Guedes já havia dito exatamente isso, em suas estimativas sobre a performance da economia brasileira no ano passado; foi sepultado por uma avalanche de reações indignadas por parte dos economistas de esquerda, analistas de grandes bancos e mais do mesmo, todos convencidos de que o Brasil não iria crescer nada, ou algo assim. Não só erraram na previsão; previram o contrário do que aconteceu. É claro que nenhum deles fará qualquer esforço sério para entender o que houve, e isso garante que a qualidade das suas análises continuará a mesma de sempre. Fazer o quê? O mundo das previsões econômicas é assim mesmo. A vida continua.
Vale a pena registrar, em todo caso, que os números do Banco Mundial colocam mais um prego no caixão em que está enterrada a eterna desculpa de Lula quando assume a Presidência da República — a de que recebeu uma “herança maldita” do seu antecessor. Em todas as vezes que disse isso, a realidade dos fatos era precisamente a oposta. Na verdade, Lula recebeu um país muito bem arrumado do ponto de vista econômico, levando-se em conta as circunstâncias mundiais e o efeito devastador que dois anos de covid e de “fique em casa” tiveram no sistema de produção do Brasil. A inflação, abaixo de 6% ao ano, é menor que a da Europa e dos Estados Unidos. A taxa de desemprego, em 2022, recuou para cerca de 8% — o melhor índice desde 2014. As reservas internacionais estão acima de US$ 320 bilhões. As exportações bateram mais um recorde. Os índices de miséria, segundo o mesmo Banco Mundial, são os menores em vinte anos. As empresas estatais, que segundo Lula estão “destruídas”, lucraram mais de R$ 250 bilhões no ano passado. (Quem levou a Petrobras à beira da falência foram os governos de Lula e Dilma.) Vem, agora, a confirmação do crescimento econômico — 3,1% em 2022, um dos mais altos do mundo num momento ruim para todos.
O filme Piratas do Caribe fez tanto sucesso que se transformou em uma série de filmes da Walt Disney Pictures. A série tem como principal personagem o Capitão Jack Sparrow, interpretado pelo excelente Jonny Depp, um pirata mulherengo, beberrão que adora dinheiro e uma boa encrenca.
No filme; O Baú da Morte, Sparrow descobre que tem uma dívida de sangue com David Jones, um legendário capitão do navio fantasma. O navio vaga pelos oceanos da morte levando almas penadas. Mas a cada sete anos, ressurge nos oceanos da vida para buscar marinheiros que fizeram muita estrepolia durante a sua existência na terra. Veja que o tempo é muito importante para aparecer e desaparecer com coisas e pessoas.
No último sábado (14), o governador, Jerônimo Rodrigues e o ministro da Casa Civil, Rui Costa, estiveram em Feira de Santana para visitar o Residencial Campo Belo. O motivo principal da visita foi vistoriar e preparar a obra para Lula inaugurar ainda em janeiro de 2023.
Vocês devem está se perguntando: Deus, mas Lula assumiu no dia primeiro, como pode inaugurar uma obra desse tamanho em menos de um mês? Simples, a obra começou em 2016, ainda no governo de Dilma Rousseff.
O Residencial Campo Belo Habitar do Sertão, que fica no Campo do Gado, faz parte do programa Minha Casa, Minha Vida, uma das meninas dos olhos do PT, que Bolsonaro transformou no Casa Verde e Amarela, e que agora volta a ter o antigo nome.
A vinda de Lula à Feira de Santana é para marcar o retorno desse programa dentro dos moldes estabelecidos pelos petistas. Que durante o governo de Dilma permitiu que associações pudessem fazer a mesma coisa que antes só era permitido entre dois entes públicos: prefeitura e governo federal.
Foi nessa condição que a Associação Entidade Habitar do Sertão se credenciou para gerir o Residencial Campo Belo do Sertão. A instituição tem como diretor o engenheiro Adriano Costa, filiado ao PT e que já foi candidato a vereador sem ter conseguido se eleger.
Mas a pergunta é: como um empreendimento desse tamanho pronto e concluído para inaugurar passou seis anos sem que os presidentes Temer e Bolsonaro o fizessem? O governo Temer, junto com o governo Bolsonaro, abandonaram o obra, disse Adriano Costa ao Acorda Cidade. Sim! Mas por que ela está pronta para inaugurar, faltando “repor o material que foi furtado” como disse o ministro Rui Costa?
Nós procuramos a Caixa Econômica Federal para que pudesse jogar luz sobre tudo isso, mas não tivemos retorno. Até aqui o que se sabe é que a obra foi entregue pela construtora R Carvalho.
A obra foi concluída! Isso é fato! O que não dá para entender é por que a Caixa só veio suspender o pagamento da vigilância, segundo Adriano Costa, em julho do ano passado. Fica um sentimento que o Residencial Campo Belo do Sertão, que poderia há anos estar fazendo a felicidade de 248 famílias, foi escondido na penumbra da burocracia. Como o navio fantasma, ressurge agora para a luz do dia. Espero que almas que fizeram estrepolias sejam atormentadas por deixarem 248 famílias sem casa. Última pergunta: o Ministério Público também está fazendo essas mesmas perguntas? Aguardamos!
Artigo publicado na Tribuna da Bahia, edição de 12.01.2023.
Ao General Marcelo Guedon, que ontem aniversariou.
Entre os quase 1.600 “terroristas” detidos no último domingo em Brasília, um grande número era composto por mulheres, crianças e idosos, empregados, patrões e profissionais liberais, sem qualquer antecedente criminal. Mais uma característica marcantemente singular é que nenhuma arma, branca, de fogo ou outro artefato bélico qualquer, foi encontrado com os “terroristas”. Para alguns segmentos da mídia brasileira, porém, trata-se de “mercenários fascistas a serviço da destruição dos sólidos pilares de nossa democracia, duramente conquistada”.
Tão logo deparou esse surpreendente panorama humano da multidão que acabara de predar as sedes dos três poderes, as autoridades policiais cuidaram de libertar a grande maioria, permanecendo detidos por mais algum tempo menos de 20% do grupo original, a serem liberados, logo em seguida, para se defenderem em liberdade, se a lei brasileira se sobrepuser ao voluntarismo ora reinante no Brasil, através de práticas ditatoriais de membros do Poder Judiciário, com a parceria criminosa do Poder Legislativo, comprovando o ominoso compadrio entre poderosos grupos marginais que reciprocamente se protegem. A perplexidade do difícil momento que atravessamos, com a temível tendência a se aprofundar, confere atualidade à avaliação de Rui segundo a qual “Toda a capacidade dos nossos estadistas se esvai na intriga, na astúcia, na cabala, na vingança, na inveja, na condescendência com o abuso, na salvação das aparências, no desleixo do futuro.” A verdade que não quer calar é que esta rebelião coletiva, utilizando métodos que reprovo, constitui uma miniatura do grande contingente nacional que não aceita o retorno de um peculatário, o maior de que se tem conhecimento no Planeta, depois de exaustivamente comprovadas e punidas suas enormes responsabilidades, ao mesmo posto que desonrou, graças à indecorosa e prostituída iniciativa de membros da Suprema Corte de anular o processo, exaustivamente acompanhado pelas tvs, que o condenou, com o propósito evidente de assegurar-lhe a impunidade pelas estradas largas da prescrição. Esta, sim: uma violência muitas vezes maior do que a quebradeira de Brasília. Como nos ensinou Rui “Se os fracos não têm a força das armas, que se
armem com a força do seu direito, com a afirmação do seu direito, entregando- se por ele a todos os sacrifícios necessários para que o mundo não lhes desconheça o caráter de entidades dignas de existência na comunhão internacional.” Afinal de contas “Maior que a tristeza de não haver vencido é a vergonha de não ter lutado!” Não há vergonha maior na história do judiciário dos povos decentes do que a praticada por nosso Pretório Excelso, cuja credibilidade popular, na atualidade, é a menor de todos os tempos. Atos ou decisões inconstitucionais não se convalidam com a aprovação de chefes de poderes desertores do dever. Com a soltura de Sérgio Cabral, em nome da mínima moralidade, deveríamos soltar a totalidade de nossa população carcerária. Basta comparar os anos de condenação atribuídos a Sérgio Cabral com os de Fernandinho Beira- Mar e Marcola, meros trombadinhas. Para mostrar sólida coerência de princípios, em sua disposição de atropelar quem quer que se oponha ao seu arbítrio, o Ministro Alexandre de Moraes deveria mandar prender, também, os ex-comandantes da Marinha, do Exército e da Aeronáutica que, em nota conjunta, denunciaram os seus excessos; bem como os Generais que acompanharam com simpatia democrática o cerco que por dois meses sofreram das populações que lhes pediam para intervir. Caso contrário, crescerá o prestígio do aforismo que ensina que “boi sabe onde arrombar a cerca”, bem como o acicate de Rui: “Medo, venalidade, paixão partidária, respeito pessoal, subserviência, espírito conservador, interpretação restritiva, razão de estado, interesse supremo, como quer te chames, prevaricação judiciária, não escaparás ao ferrete de Pilatos! O bom ladrão salvou-se. Mas não há salvação para o juiz covarde.” Sem dúvida, a autoridade da justiça é moral, e sustenta-se pela moralidade das suas decisões.
Eduardo Palassin Guinle foi uma das figuras mais emblemáticas do embrionário capitalismo brasileiro. Meio gaúcho, meio francês e meio carioca, o empresário foi um industrialista, empreiteiro e banqueiro.
Sua maior obra, construída com o inseparável sócio, Cândido Gaffrèe, foi a construção do Porto de Santos, uma concessão pública que faria Marcelo Odebrecht morrer de inveja tamanha quantidade de aditivos, incluindo um prazo de vigência de 99 anos sob administração dos Guinle.
Graças ao boom do setor cafeeiro, Santos tornou-se o maior porto do hemisfério Sul, e os Guinle uma das maiores fortunas do país. Seus filhos tornaram-se parte de uma nobreza brasileira, com contribuições de grande porte que vão desde a popularização do futebol no país, um feito que contou com a participação imprescindível de Arnaldo Guinle, o primeiro mecenas da seleção brasileira, a descoberta do petróleo em terras tupiniquins.
O primeiro campo brasileiro foi descoberto em Lobato, na Bahia. Um empreendimento financiado por Guilherme Guinle.
A descoberta, fruto de uma campanha intensiva que contou com figuras como Monteiro Lobato, foi um marco para o país, em especial, pois animou Getúlio Vargas a criar anos mais tarde uma estatal monopolista no setor.
Vargas, amigo de Guinle, estatizou o campo e criou uma agência reguladora tão logo soube da notícia. Compensou o amigo entregando-o o comando de outra empresa, a CSN, a primeira siderúrgica brasileira, financiada pelos EUA em um acordo costurado pelo próprio Guinle.
A criação da Petrobras, porém, viria no segundo mandato de Vargas, em uma campanha nacionalista nos idos de 1953.
Convém lembrar que neste período o país já possuía 2 refinarias, uma em Rio Grande, construída pela Ipiranga, e a refinaria de Manguinhos, que estava em construção na época da edição do monopólio no setor, tendo sido mantida como uma das 2 únicas refinarias privadas brasileiras até 2021.
Ao longo de 4 décadas, o Petróleo foi um monopólio absoluto do estado. Até 1997, a Petrobras era responsável por 100% da produção e 99% do refino no país.
O fim do monopólio, porém, convidou outras empresas a dividirem o risco que campanhas exploratórias possuem. A concorrência por sua vez levou a Petrobras a se movimentar, buscar sócios, credores e recursos. O resultado é que nos 10 anos seguintes ao fim do monopólio, a produção de petróleo brasileira havia saído de 866 mil barris diários para 1,89 milhão.
O boom de commodities, claro, favoreceu a Petrobras e outras empresas a investirem. Mas então, em 9 de novembro de 2007, o governo brasileiro tomou uma nova medida, que mudaria o setor para sempre.
No ano seguinte, o setor ganhou um novo marco, que mudava as regras do jogo.
Em meio ao preço mais alto na história do petróleo, que chegou a atingir US$140 dólares, o Brasil decidiu dizer não aos investidores internacionais, devolvendo o monopólio à Petrobras sobre as novas áreas.
A Petrobras então passou a ser a única responsável por investir em todos os blocos. A total ausência de foco e a megalomania levaram a empresa a realizar em setembro de 2010, a maior capitalização da história das bolsas mundiais.
Foram US$70 bilhões injetados na empresa, dos quais US$40 bilhões por meio de direitos de reserva cedidos pelo próprio governo.
Em suma, próximo às eleições que dariam a presidência a Dilma Rousseff, Lula trouxe os gringos para comprarem parte da Petrobras. A empresa se tornaria assim a 4ª maior do mundo em valor de mercado.
Em um único mês, os estrangeiros colocaram US$16 bilhões no país, o maior volume da história até hoje. Tudo devidamente comprado pelo Banco Central para compor as reservas internacionais.
Durante todo governo Dilma, a Petrobras embarcou em eventos surrealistas, subsidiando o preço da gasolina, em uma manobra que servia para fraudar a inflação, e que custou à empresa R$120 bilhões em prejuízo.
Na prática, o governo trouxe investidores para financiar suas ideias, dando de presente um prejuízo bilionário.
Este é um dos motivos de mesmo com lucro recorde, a estatal brasileira ser avaliada em múltiplos baixos. Em outubro de 2022, a empresa chegou a valer R$500 bilhões, ou US$100 bilhões. Uma fração dos US$400 bilhões que valia quando a capitalização foi feita. Neste momento, porém, a empresa vale US$60 bilhões, menos do que a quantia que os gringos “exploradores” pagaram por uma fração da empresa.
Essa visão de que o investidor estrangeiro está na verdade fazendo a empresa explorar a população para lucrar, claro, também contribui para um valor de mercado baixo. Na prática, a visão política crítica do investidor, o mesmo que foi tratado como parceiro quando o país precisava dos recursos, deixa na mesa uma fortuna.
Neste exato momento, a Petrobras que Jean Paul Prates assume é uma empresa que vale 1,87 seu lucro. A Shell por sua vez negocia a 4,89 vezes, enquanto a ExxonMobil negocia por 8,29 vezes.
Com o Tesouro nacional sendo dono de cerca de 38% da empresa, estamos falando de no mínimo R$150 bilhões em valor de mercado pertencentes ao governo jogados no lixo para cumprir a visão negativa sobre estrangeiros.
Isto, claro, para não falar dos 718 mil brasileiros pessoas físicas, e dos milhões de investidores via fundos de pensão que acreditam na empresa.
Apenas via investimentos pelo FGTS, os brasileiros pessoa física somaram 248 mil em uma operação realizada nos anos 2000.
Tal visão sobre o papel da empresa na economia brasileira deve mudar de maneira “radical” sob Prates. Se ao longo dos últimos anos a empresa vendeu negócios diversos e focou naquilo que é especialista, a exploração em águas profundas, agora a situação deve mudar radicalmente.
Mas há poucas razões para se acreditar que a Petrobras volte a subsidiar combustíveis. E não se trata aqui de acreditar na palavra do ministro, mas de algo lógico.
A Petrobras é hoje uma empresa com lucro de R$176,79 bilhões em lucro, além de R$285 bilhões em Ebitda (de forma simplificada, a geração de caixa).
Forçar a empresa a subsidiar combustíveis implicaria reduzir sua capacidade de investimentos, o que não parece ser desejável pela nova administração, que vê na empresa um meio de aumentar a presença do estado na economia.
Lembre-se que o orçamento da União possui R$89 bilhões em recursos livres (despesas discricionárias). É dessa quantia, cerca de 6% do orçamento total, que saem os recursos do orçamento secreto e tudo que o governo investe.
Em 2022, estes recursos foram distribuídos aos acionistas, o que levou a uma melhoria considerável das contas públicas. Caso opte por barrar dividendos, o novo governo terá um problema fiscal relevante, e ao que tudo indica, essa será a opção.
A manutenção dos preços baixos de combustíveis deve ocorrer via endividamento, o que por sua vez deixa a Petrobras livre para investir estes bilhões, apesar de implicar um patamar maior da dívida pública. Nada que pareça preocupar o novo governo.
O resultado para o país pode ser uma economia de algumas dezenas de bilhões em recursos que antes iam para remunerar os gringos, mas na prática implica em maior déficit público, e consequentemente juros mais altos.
Trata-se daquilo que o economista francês descrevia como “O que se vê e o que não se vê”. Veremos grandes obras da Petrobras para que políticos possam inaugurar placas, mas iremos conviver com juros maiores e uma dívida pública em situação frágil. São escolhas políticas, claro.
Metafisicamente, o inferno pode ser uma abstração da mente de Dante Alighiri, ‘A Divina Comédia’, ou uma falsa crença criada por uma religião. Mas no mundo real, no mundo dos vivos e que todos podem ver e sentir, ele é muito verdadeiro.
Portanto, o inferno aqui na terra é construído por pessoas, e não por um ser com chifres, pé de bode e que cheira a enxofre. Normalmente os diabos que habitam esse planeta, podem ter boa aparência e até usar perfume importado, no que facilita o convencimento dos incautos.
Mas como no inferno de Dante, esse planeta tem vários infernos, mais precisamente, países. O mundo é dividido por continentes, que formam fronteiras, países e culturas. Isso facilita a ação de seres tenebrosos e uma forma de estabelecer regras, as regras macabras
Se o inferno e o diabo são construções de mentes e crenças, para os que têm o dom da fé, e isso é um dom, a força de um ser criador, de bondade, de amor, de compreensão e que nos concedeu: inteligência e livre árbitro. A existência de Deus é uma certeza.
Dentro dessas concessões feitas pelo criador, a liberdade é para mim uma das mais importantes concedida por ele. Deus sabia que teria que dar liberdade para a sua criatura, sem o espírito da liberdade não seria seu filho, mas apenas uma marionete.
Mas se Deus nos deu tudo isso, por que a maior parte do planeta é um inferno? Porque existem mentes doentes. Pessoas que durante a gestação, infância e adolescência passam por traumas, e na vida adulta se entregam ao lado tenebroso de sua existência humana.
Durante esse período de criação da mente doente, esse ser aprende a manipular, mentir, se corromper, corromper, violência e principalmente suprimir a liberdade e opinião. Liberdade e opinião, para esse tipo de gente, é como hóstia e água benta para o diabo. Eles odeiam quem pensa diferente e quem tem a mania de expor sua opinião.
O Brasil é um dos muitos países onde o reino do inferno teve vários períodos, mas de curta duração. Normalmente em boa parte do tempo isso aqui é um purgatório. Até que o STF achou que era hora de mudar.
A Suprema Corte, como na fábula do burro, resolveu soltar um ser que sempre viveu nas trevas: Lula! Mas tirá-lo só da cadeia não seria o suficiente. Ele precisava ficar livre para fazer o que mais aprendeu: enganar incautos e avarentos. Portanto, tudo seria providenciado.
Foi aí que às forças do mau formaram uma coalizão: STF, TSE, a velha mídia, banqueiros, narcotraficantes e partidos de esquerda, para fazer dele mais uma vez presidente. E conseguiram!
Das forças de coalizão, o STF, sob o comando de Alexandre de Moraes, foi, é, e continuará sendo a mais atuante. A Corte não só deixou Lula em condições de ser candidato. Ela atuou diretamente na sua eleição. A perseguição ao seu principal adversário nunca foi vista na história da nação. Os conservadores que ousaram emitir opinião, foram presos, processados e calados. Se a situação já é de uma ditadura, antes do filho das trevas assumir, imagine a partir do dia primeiro!
É preciso que às pessoas que acreditam em Deus, honestas e de espírito livre, não desistam. Porque sabem que é na dor que o espírito cresce e se fortalece. Que é na tempestade que se conhece o cipreste. Mas, você pode me perguntar: e no futuro, o que vai acontecer com os que seguiram o caminho das trevas? Aí, só Deus e o diabo é quem sabem. Quando morrerem pagarão pelo mau que fizeram a essa nação.
Quem sabe talvez o inferno realmente exista. Serão recebidos pelo capeta que dirá: bem vindos ao inferno!
Vez por outra a humanidade pare um gênio. Um deles se despediu hoje deixando o mundo – eu, inclusive- emocionado. Alguns tentarão medir sua performance enumerando total de gols, assistências, títulos; outros inventarão poréns na tentativa infame de reduzir sua majestade e cairão fulminados como zagueiros driblados inapelavelmente por Pelé. Ele é rei porque era perfeito em todos os fundamentos- velocidade, salto, drible, mente, cabeceio de olhos abertos-, massacrante na busca da meta alheia, fera acuada que reagia por qualquer ameaça de derrota. Tudo isso sem a megaciência que rodeia a formação de um atleta atualmente. Celebridade sem arrogância, fenômeno individual sem desprezo ao coletivo, símbolo de chuteiras com perfeita intimidade com as passarelas da fama. Ao elevar o futebol dos seus rudimentos à apoteose a arte de Pelé abriu portas, destrancou universos, inaugurou mercados, deu status a um país. Todos, depois dele, lhe são devedores da dimensão e encantamento que sua mágica habilidade conferiu ao futebol. E só isso já seria uma obra monumental.
Ninguém foi tão universal, curvou reis, rainhas, papas, presidentes, famosos, como ele. Mas tudo isso são molduras, composições ao redor do maior maestro da bola de todos os tempos. Dos já existidos e dos por existir. O que há em Pelé, para ser lembrado, é aquele instrumento bárbaro e incomparável, implacável, terreno e divino, capaz de na mesma conjunção arruinar adversários e erguer vitórias para os seus: o talento inigualável para inventar caminhos- muitos, nunca antes navegados- para o gol. A bola fez de Pelé seu peregrino de devoção.
Nunca houve quem matasse a bola no peito como Pelé, pois ali era o regaço natural dela, a estação de embarque rumo às redes. Nunca houve quem imaginasse o nunca imaginado como ele fazia com ela- em eterno galanteio- para executar o drible como uma dança na ponta das sapatilhas diante de um touro enfurecido. Pelé extirpou o pueril do jogo em nome dos torcedores extasiados.
Guardaremos- órfãos que somos desde que parou de jogar- o chute do meio campo para encobrir o goleiro adiantado, o fenomenal, fenomenal, drible de corpo no goleiro uruguaio como a tese completa de uma obra- a humilhação da criação no maior lance do futebol de todos os tempos. Sim, o lance não foi gol, para não tirar a beleza bruta, visceral, definitiva, do gênesis. Pelé, mais uma vez, digitava poemas com os pés.
Não há lugar, portanto, para o Rei morrer enquanto uma bola – de meia, de plástico, de couro- correr nos pés sonhadores de um jogador, mas o Criador, se tiver bom senso, deve estar preparando alguma várzea lá no céu para aprender como se faz com sua criatura. Vá em paz, meu Rei.
Decisão de Gilmar Mendes dissocia programas sociais do teto de gastos Imagem: Reprodução – Carlos Moura/SCO/STF
A autorização de Gilmar Mendes para o Bolsa Família furar o teto de gastos reacende uma questão: por que o último dia de funcionamento do STF (Supremo Tribunal Federal) costuma vir recheado de decisões polêmicas? Mendes tomou a decisão já no fim da noite de domingo. A partir de terça-feira (20), a Corte entra em recesso. As atividades serão retomadas em fevereiro de 2023.
A decisão de Mendes não abre brecha para ser derrubada até lá. Ele não encaminhou o caso para referendo do plenário físico ou virtual, que encerram a movimentação hoje. Até fevereiro, portanto, a autorização de Mendes permanecerá válida. Ou seja: garante que Luiz Inácio Lula da Silva cumpra uma de suas principais promessas de campanha logo no início do governo.
A partir de fevereiro, Mendes poderá enviar o caso para referendo em plenário, mas não tem a obrigação de fazer isso. Se fizer, existe chance de a ordem ser mantida pela maioria, caso a jurisprudência da Corte sejam obedecida.
No fim de 2021, por dez votos a zero, o plenário manteve a decisão que obrigou o governo federal a implementar, a partir deste ano, o pagamento do programa de renda básica de cidadania, ainda que houvesse restrições fiscais ou da legislação eleitoral. O benefício deveria ser pago a brasileiros em situação de extrema pobreza e pobreza, com renda per capita inferior a R$ 89 e R$ 178, respectivamente.
Ainda segundo a decisão do ano passado, os valores deveriam estar previstos no orçamento do ano seguinte, o que poderia viabilizar a ampliação do Auxílio Brasil em ano eleitoral. A decisão de 2021 foi tomada a partir de uma ação apresentada pela DPU (Defensoria Pública da União) em abril de 2020.
Agora vem a parte intrigante: diante do impasse do governo Lula na negociação com o Congresso Nacional para abrir espaço no orçamento e garantir o pagamento dos R$ 600 do Bolsa Família, a Rede Solidariedade entrou com um pedido no STF para viabilizar a autorização de crédito suplementar. Esse pedido foi feito na mesma ação que gerou a decisão de 2021.
Embora sejam assuntos conexos, o contexto de ambas as decisões é absolutamente diferente. Ao fazer esse pedido justamente na ação em que Gilmar Mendes era relator, a Rede acabou escolhendo qual ministro tomaria a decisão. Se entrasse com outra ação no Supremo, como seria o caminho mais tradicional, o caso poderia ser sorteado para qualquer outro ministro – e, dessa forma, o partido correria o risco de ser derrotado.
Desde que o governo começou a negociar a abertura de espaço no orçamento para garantir o Bolsa Família, Gilmar Mendes tem dito a interlocutores que existia a possibilidade de abertura de crédito suplementar para pagar o benefício. Ele vinha citando a jurisprudência de 2021 sobre a renda básica da cidadania para sustentar a tese. A Rede não ignorou os sinais e resolveu tentar pelo caminho mais garantido.
A decisão de Mendes tira do governo Lula o peso da negociação com o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), para conseguir cumprir uma promessa de campanha. Nesta segunda-feira (19), outra decisão deve influenciar nas conversas entre o governo eleito e o Congresso: o plenário decidirá se o orçamento secreto será ou não derrubado.
Quando assumiu a presidência do STF, em setembro, Rosa Weber tinha o objetivo de tirar a Corte dos holofotes. Enquanto a Corte for demandada pelo mundo político, a ministra não conseguirá ver a meta cumprida.