Por Danillo Lisboa, psicólogo, doutorando e pesquisador do Laboratório de Processos de Subjetivação em Saúde da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP) da USP
Tem se tornado um jargão da atualidade a ideia de que todo mundo precisa de um psicólogo. Entre amigos, colegas e familiares, a necessidade de um acompanhamento psicológico tem sido posta à mesa das mais diferentes formas, geralmente, justificadas a partir de outros jargões, como: “Todo mundo tem um trauma a tratar”, “ninguém é 100%”, “todo mundo tem, nem que seja alguma coisinha, para falar para o psicólogo”. Mas será mesmo verdade que todo mundo precisa de um profissional da Psicologia? É claro que não. Ainda assim, por que estamos nos habituando com tanta tranquilidade a afirmar que “todo mundo precisa de um psicólogo”?
Com a ampliação do número de profissionais da Psicologia no Brasil, o uso corrente dessa ideia pode ter contribuído para aumentar a procura de pessoas pela clínica psicológica, especialmente, com a redução de preconceitos entre aqueles que acreditavam que psicólogo seria um profissional específico para pessoas enlouquecidas. Porém, o efeito colateral desse senso comum de que “todo mundo precisa de um psicólogo” tem revelado alguns prejuízos para a própria Psicologia, sobretudo, pelo raciocínio evidente de que: se todo mundo precisa, ninguém precisa.
Vejamos, se, ao invés do profissional psicólogo, afirmássemos: “Todo mundo precisa de um advogado”, quais efeitos isso teria? Seria um completo absurdo, isso porque, se todo mundo precisasse de um advogado, o que estaria em falha não seriam os direitos individuais, mas o próprio sistema de garantias de direitos. Uma outra situação se aplica ao caso da Medicina, se, de repente, afirmássemos: “Todo mundo precisa de um médico”, estaríamos revelando muito mais a ausência de saneamento básico, os problemas bacteriológicos, de saúde pública, virais, epidemiológicos, nutricionais, entre outros, do que de fato enaltecendo as contribuições da Medicina. No caso da Psicologia, o que parece é que, ao sustentar o jargão “todo mundo precisa de um psicólogo”, alguns profissionais se enveredam pelo canto da sereia generalizante que puxa cada vez mais a profissão para o fundo do oceano.
A Psicologia, enquanto ciência da subjetividade, precisa pôr em evidência as razões que sustentam os discursos engendrados no tecido sociocultural, a fim de tornar claro que na afirmação rotineira de que “todo mundo precisa de um psicólogo” há muito mais conteúdo dito do que gostaríamos de ouvir. Nas entrelinhas desse jargão, estamos também dizendo que todo mundo está adoecido psiquicamente e que, na atualidade, ninguém tem condições de ter saúde mental. A denúncia é importantíssima para compreendermos o nosso tempo, e é uma ilusão o psicólogo achar que ele detém a resposta que “todo mundo precisa” para resolver os males dessa era obcecada pelo desempenho e pela autoexploração. Aqui reside o canto da sereia que muitos profissionais têm preferido escutar.
Em parte, a ideia ingênua contida no jargão “todo mundo precisa de um psicólogo” encontra sustentação na cultura contemporânea do autoempreendedorismo, que convoca profissionais a criarem nichos de mercado a qualquer custo, e, também, no modelo biomédico presente no campo da saúde. Esse modelo, historicamente, tem privilegiado uma compreensão dos fenômenos de saúde-doença dentro de uma lógica individualizante, intrapsíquica, neuronal e biológica, isentando fatores sociais, políticos e culturais de questionamento, o que distancia a análise e correlações entre fenômenos sociais e necessidades clínicas.
Por isso, neste contexto, o mal-estar, por mais coletivo que seja, passa a ser visto como individual e cada um que procure um psicólogo de confiança para se “tratar”. É a lógica da clínica intrapsíquica e individualizante em sua capacidade pura de desconectar a necessidade existente do contexto em que ela surge, como se fosse possível uma doença surgir fora do contexto que a produz. Ao desconsiderar o contexto, o risco de culpabilizar o indivíduo por manifestar na pele os problemas de uma época pode ser ampliado.
Por isso, é preciso seriamente se perguntar: por que, hoje, todo mundo precisaria de um psicólogo? As contas não fecham. Ou a nossa sociedade está produzindo pessoas adoecidas psiquicamente ou estamos banalizando a potência de contribuição que a Psicologia poderia dar para o desenvolvimento de pessoas mais conscientes de si, de suas histórias e de suas possibilidades de transformação. E essas hipóteses podem atuar conjuntamente. No passado, no contexto educacional, a Pedagogia foi banalizada e usurpada por setores que buscaram minar suas importantes contribuições para a emancipação de pessoas. Agora, a Psicologia parece viver um processo muito semelhante de destituição de suas potências a partir da lógica de que “todo mundo precisa de psicólogo”, fenômeno que revela uma imposição determinista capaz de fazer ruir a própria subjetividade que a profissão almeja alcançar.
É preciso que os profissionais da Psicologia resistam ao canto da sereia de generalizar comportamentos passíveis de intervenção psicológica, como fazem os adeptos das fórmulas mágicas e receitas para tudo, e sustentem a subjetividade como eixo direcionador de suas intervenções, garantindo que cada pessoa alcance um reconhecimento pessoal do porquê procurar um psicólogo. Sem formular minimamente essa questão, nenhum processo terapêutico se inicia. Sem isso, é muito provável que a clínica da Psicologia caminhe para se tornar mais uma modinha do momento: “Porque todo mundo precisa”.
É claro que diferentes pessoas podem se beneficiar do acompanhamento psicológico com um profissional e isso pode vir a ser uma ajuda muito importante para a compreensão de si mesmo e para o movimento construtivo e reconstrutivo de questões subjetivas, feito que coloca a psicoterapia como um instrumento fundamental para o amadurecimento humano e uma grande contribuição para o desenvolvimento da saúde. Porém, se a lógica da atualidade é que todo mundo precisa de uma psicoterapia, estamos muito mais próximos da revelação do modo de funcionamento social do nosso tempo, cuja ênfase recai sobre o indivíduo, do que propriamente do papel potencial da psicoterapia para o desenvolvimento humano.
Se, diante da evidência de que o mundo não vai bem e de que as pessoas estão adoecendo psiquicamente, a cultura contemporânea tem adotado a estratégia de enfiar nos consultórios psicológicos, ou no de outras especialidades, os adoecidos que este tempo produz, justificando que “todo mundo precisa”, não estamos agindo na raiz do problema, apenas individualizando questões através dos compartimentos dos consultórios. Se é esse o anseio da atualidade na busca pela clínica psicológica, é preciso que os próprios profissionais da Psicologia, na honestidade da clínica, frustrem-no, contribuindo para que as questões individuais passem a ser comunitárias. Como afirmou o psicólogo Gilberto Safra (USP), muito do que as crescentes demandas clínicas da atualidade têm revelado é a urgente necessidade de reerguer um mundo comum onde o rosto humano possa ser reconhecido.
O espaço de uma clínica profissional especializada, cercada pela segurança de um consultório planejado e estruturado, não isentará ninguém de ver o mundo, pelo contrário, deve ampliar esse olhar. O mal-estar contemporâneo, mais do que nunca, vai além da individualidade historicamente privilegiada na compreensão dos fenômenos psicológicos e de saúde, e nos revela aspectos comunitários fundamentais para que o ser humano possa ter saúde. O mal-estar contemporâneo não poderá ser enfrentado transformando a clínica da Psicologia em lugar desmedido para todo mundo, pois é o mundo que precisa voltar a ofertar a hospitalidade necessária para que o ser se torne humano.
Ao invés de afirmar que “todo mundo precisa” de um determinado tipo de profissional/especialidade, poderíamos encaminhar nossos esforços para afirmar que todo mundo precisa de saúde e saúde mental para viver, utilizando conceitos mais amplos que nos coloquem em relação com o mundo comum em que vivemos, reivindicando que a Psicologia e os demais campos do conhecimento reconheçam que, na oferta de cuidado e saúde, o mundo comum é sempre maior do que a clínica de qualquer especialidade.
Não sei quem é. O texto não é sobre ela. Ou, talvez, seja sobre todos.
Na verdade, eu só queria refletir a respeito do interessante fenômeno social decorrente do BBB: as pessoas começaram a ver que a lacração é chata.
Lacrar não é normal. Era bonitinho para ganhar aplausos e receber um pouquinho de aceitação social que resolvia sua carência, mas não é o modo normal de viver.
A vida cobra suas contas e seus boletos. Ela exige resultados reais da mesma forma como possui problemas reais.
Não existe uma dívida cósmica com você: na verdade, a maior parte das pessoas no mundo, sua quase totalidade, sequer sabe que você existe.
Quando a lacração trazia seguidores, curtidas e carinho afetivo, ela era interessante.
Mas esse BBB teve um mérito: mostrou como seria uma comunidade de pessoas lacradoras vivendo juntas.
E ninguém agüentou.
Há coisas que as pessoas só compreendem depois que vêem, porque, então, podem imaginá-las.
E elas começaram a imaginar: “e se isso fosse a regra geral?”
Houve um embrulho inconsciente no estômago.
E o sentimento foi descarregado nos participantes: “ei, isso não legal; isso não é a vida verdadeira e ninguém aqui vive assim”.
O resultado foi que até os companheiros de lacradas aqui fora começaram a negar os antigos parceiros: “eles não nos representam”.
Mas não representavam até ontem?
Os aplausos da lacração são ilusórios até nisso: não são sinceros.
Carência louva carência e retira o seu louvor tão rápido quanto o gozo passa.
E os participantes? Esses são os mais perdidos nisso tudo.
Eles estavam acostumados a fazer aquilo e a ser louvados em seus próprios perfis.
Era seu mundo: seu único mundo, onde eles definiam as regras e recebiam os aplausos por isso.
Então, foram convidados para outro ambiente de glamour e atenção. Pensaram: “qual o problema? É só continuar a fazer o que já fazíamos”.
Mas não era, porque, enquanto cada um criava seu mundinho artificial, ali todas essas artificialidades se chocaram e não puderam subsistir.
Glamour, aplausos, lacração: tudo é fugaz.
Tão fugaz que eles mesmos ficam sem entender depois que voltam para cá.
Para nós, pelo menos, isso serve como uma lição prática.
Da esq. para a dir.: Onyx Lorenzoni, Ronaldo Caiado, Jair Bolsonaro e ACM Neto. Raquel Dodge é próxima do governador de Goiás Imagem: Presidência da República/BBC
ACM Neto ofereceu à crônica política uma cena de desequilíbrio explícito. Rodou a baiana nas redes sociais. “Considero lamentável a aceitação, pelo deputado João Roma, do convite do Palácio do Planalto para assumir o Ministério da Cidadania“, anotou o presidente do DEM. “A decisão me surpreende porque desconsidera a relação política e a amizade pessoal que construímos ao longo de toda a vida.”
João Roma já foi filiado ao DEM. Trabalhou como chefe de gabinete de ACM Neto na prefeitura de Salvador. Hoje, é um deputado federal inexpressivo dos quadros do Republicanos, partido do centrão que levou seu nome ao balcão aberto por Bolsonaro. Nesse contexto, o piti do pajé do DEM é esquisito e desconexo.
A esquisitice está na presunção de que o vínculo com ACM Neto faria soar um alarme na porta giratória que Bolsonaro instalou na Esplanada. A falta de nexo decorre do fato de que o DEM convive gostosamente com dois filiados que integram a equipe do capitão: Tereza Cristina e Onyx Lorenzoni. Por que implicar com o apadrinhado de legenda alheia?
A reação de ACM Neto ganhou contornos cenográficos com o seguinte comentário: “Se a intenção do Palácio do Planalto é me intimidar, limitar a expressão das minhas opiniões ou reduzir as minhas críticas, serviu antes para reforçar a minha certeza de que me manter distante do governo federal é o caminho certo a ser trilhado, pelo bem do Brasil.”
A importância que ACM Neto atribui a si mesmo é um bom mote para alimentar conversas em rodinhas de políticos e jornalistas. Mas o tema parece tão relevante para o futuro do Brasil quanto a cloroquina para a cura da Covid.
Numa entrevista publicada pela Folha há nove dias, perguntou-se a ACM Neto se descartava a hipótese de o DEM fechar com Bolsonaro em 2022. E ele: “Nós não estaremos com os extremos. Você pergunta se eu descarto inteiramente a possibilidade de estar com Bolsonaro. Neste momento não posso fazer isso.”
ACM Neto não pode tomar distância de Bolsonaro porque a maioria da bancada federal do partido que supõe comandar alistou-se na tropa legislativa do capitão. Serviu-se das verbas e dos cargos que bancaram a eleição do líder do centrão Arthur Lira à presidência da Câmara. O piti do amigo do novo ministro João Roma cai como uma cereja sobre o bololô produzido por Bolsonaro na seara inimiga.
Há um quê de mistério naquele desejo inexplicável dele.
E todos que assistíamos, de alguma maneira, passávamos a desejar também.
Eu mesmo já me vi fazendo um sanduíche de presunto após assistir ao Chaves, quando era moleque.
Que delícia de sanduíche, aliás.
Saboroso! Que tinha de mais?
Nada.
É isso que torna o sanduíche de presunto do Chaves tão sensacional.
Há um sabor nu e cru igual a presunto fresquinho ali.
É inexplicável!
Mas quer outro exemplo?
Coca-cola com gelo em dia de sol.
Um gole de água fria durante o calor.
Café feito agora com bolacha Cream Cracker novinha e requeijão.
Cuscuz pronto com manteiga derretendo e ovos mexidos.
Cerveja nevando e carne assada de churrasco.
São sabores crus e parece que são os melhores de todos.
Há uma beleza singular nas coisas mais simples da vida.
Captar essa beleza nas pequenas coisas é o que nos torna mais felizes.
Na sua condição, o Chaves poderia viver desejando banquetes senhoriais, mas ele só queria um sanduíche de presunto.
Nós temos sanduíches de presunto e não os valorizamos — até reclamamos por ser “só de presunto”.
Existe uma estupidez suína em desprezar as graças que estão nas nossas mãos, porque só fazemos isso quando já estamos usufruindo delas — e não há nenhuma lógica nisso.
Sejamos mais gratos pela simplicidade do que possuímos.
Enxerguemos a beleza das coisas pequenas, sintamos o prazer dos acontecimentos comuns, guardemos tudo aquilo no coração.
É amar cada momento como se fosse o último, até a leitura desse texto — porque, convenhamos, ninguém garante que não é.
Muita gente queria apenas um sanduíche de presunto.
Se você tem um, seja grato.
Amanhã pode ser que não tenha mais nem isso.
Precisamos ser fiéis no pouco, como disse Jesus (Mateus 25,21).
É por isso que pedimos a Deus “o pão nosso de cada dia”, ao qual adicionamos o próprio “presunto de gratidão” a Ele.
Como faz tempo que eu não escrevo, já que os ganchos do Face não me permitem mais e como a noite de ontem foi emblemática por conta da vitória do governo nas eleições dos presidentes das duas casas legislativas, eu decidi voltar às raízes e fazer um textão. . Ontem, após o resultado das votações, muita gente veio me perguntar como eu acertei os resultados quase que na mosca (inclusive, os placares), mesmo tendo feito as minhas análises há uns três meses para a Câmara e há mais de um mês para o Senado. Além disso, muita gente veio me perguntar se eu não estaria preocupado com os presidentes eleitos e se eles seriam fiéis ao presidente. . Bom, diante disso, serve este texto para mostrar para vocês como se faz uma análise de jogo político e, ao final, passo as minhas impressões acerca da fidelidade, ou não, dos eleitos. . Pois bem. Como eu já disse aqui mais de um milhão de vezes, apesar do grande crescimento do interesse da população em geral em relação aos desdobramentos políticos, analisar cenário político é uma ciência e, acredite, das mais difíceis. De forma bem resumida, se você quiser aumentar as suas chances de acertar (óbvio que sempre poderá errar), é necessário seguir um passo a passo que, basicamente, compreende 4 etapas: . (i) esqueça qualquer tipo de vaidade – você tem que analisar as coisas não para mostrar que é o fodão ou que sabe tudo, mas sim para ajudar as pessoas a entenderem como o jogo é jogado e, assim, humildemente, voltar atrás quando necessário e saber sempre que há elementos que você ainda não teve acesso – ng sabe tudo; . (ii) desconecte-se de ABSOUTAMENTE todos os canais de mídia e opiniões de supostos especialistas – você verá que a mídia está lá apenas para turvar sua visão e os tais “especialistas”, na verdade, não sabem porra nenhuma (nunca sabem); . (iii) nunca analise fatos isolados e sim uma sequência de fatos – Política é filme e não foto; e . (iv) se necessário, ajuste as expectativas – na Política, o imponderável (morte, escândalo, etc) sempre está presente e, portanto, temos que ter a humildade de reconhecer que podemos ter que alterar o curso da análise, bem como reconhecer que, às vezes, faltam subsídios para estampar uma opinião (é um pouco do que eu disse no item (i), mas vale o destaque). . Tendo isso em mente, vou explicar como eu sabia que o presidente iria emplacar os presidentes da Câmara e do Senado. Confesso que o movimento do Senado foi mais difícil de ler, mas é por conta de particularidades daquela casa que eu falo no momento adequado. . Como eu já escrevi antes e eu fui debochado por muita gente que achava que eu estava inventando coisas ou que era otimista demais, não foi o governo que se aproximou do Centrão, mas sim o contrário. Se me permitem, vou fazer um breve histórico de como era para ser o governo JB antes da pandemia e como tem que ser agora, durante a pandemia e logo após o seu fim. . JB foi eleito prometendo mudar o jeito de governar. Sempre atacou a cooptação derivada do presidencialismo de coalisão, que, na prática, significa comprar apoio dos parlamentares com verbas e cargos. Nesse sentido, vale lembrar que a CF foi desenhada por parlamentaristas e, assim, muito poder foi dado ao Legislativo. Para melhorar, ainda, o aparelhamento do Judiciário que ocorreu nos anos de PT, enquanto dormíamos, fez com que o poder do Executivo fosse completamente esvaziado. Dessa forma, para se governar no Brasil, criou-se uma arapuca que é a necessidade de se governar com o Congresso ou, simplesmente, não governar de jeito algum (Collor e Dilma – 2o mandato – tentaram e o que aconteceu?). Se tivéssemos bons parlamentares eleitos, poderíamos pensar em aglutiná-los em torno de um bom projeto, mas como sabemos que eles só estão interessados com seus próprios umbigos, esqueça, ou você os compra ou você não governa. Essa é a regra. . Há alguma exceção a essa regra? Sim, há! Os 6 primeiros meses do mandato do presidente se ele for eleito de forma maciça pela população, que foi, justamente, o que ocorreu com JB em 2018. Portanto, JB sabia que poderia iniciar seu mandato com força total e o Congresso seria obrigado a engolir goela abaixo suas reformas. O que pensava o governo? Formar um ministério técnico (como nunca antes visto), contar com a opinião pública para empurrar as reformas econômicas goela abaixo do Congresso (lembrem-se das manifestações pela Reforma da Previdência) e, com isso, no final de 2019, início de 2020 a economia decolaria. Com a economia decolando, amigão, esquece todo o resto, porque não há ninguém que ousa bater num governo em período de prosperidade econômica. . O plano seguia perfeitamente bem, mas aí veio a puxada de tapete que foi a pandemia. Dali para frente, tudo mudou e o que se viu é que o presidente e sua equipe acabaram errando na estratégia. Deveriam ter seguido o único que teve essa visão, o Dep. Luiz Phillipe (o Príncipe), que disse que antes de qualquer reforma econômica, era necessário reformar o Judiciário. Pois bem, se o governo tivesse usado a força popular, pode ter certeza que teria reformado o Judiciário e colocado os urubus nos seus devidos lugares, mas não foi o que ocorreu e, no final das contas, o que acabou acontecendo? O STF boicotou tudo e destruiu os planos governistas, em especial quando determinou que cabiam aos prefeitos e governadores decidirem o que era melhor para tratar a pandemia. Resumo da ópera: a CGU estima que 65% dos recursos destinados aos estados e municípios foram DESVIADOS e o problema não acaba nunca. Para piorar, mesmo com todo esse plano sórdido, a culpa ainda é jogada nas costas do presidente, o que acabou causando, além da crise sanitária e econômica, uma relevante crise política. . Dali para frente, insistir na mesma estratégia seria suicídio. Você pode ter ficado triste com a aproximação do governo junto ao centrão, mas eu te garanto que se ela não tivesse ocorrido, em 2022, a esquerda estaria de volta ao poder, fosse a esquerda mais radical, fosse uma esquerda mais polida. . Então, o que restou? Fazer Política. Era isso ou naufragar. Mas como eu disse, JB, ratazana velha e conhecedor do que é a política brasileira na essência, usou de uma outra estratégia e, ao invés de pedir pinico para os caciques do centrão, inverteu o jogo e foi conquistando popularidade no território deles, em especial NO e NE. . Eu comecei a ver esse movimento lá para maio do ano passado e, em agosto, eu já tinha certeza absoluta que o governo iria eleger o presidente da Câmara. No Senado, as coisas iriam demorar mais um pouco para se mostrarem. . Mas como eu descobri isso? Eu já disse : se você quiser entender para onde a Política vai, nunca olhe para as pessoas que querem a cadeira do presidente da república. Olhe, justamente, para aqueles que não querem. E pq isso? Pq os que querem agem justamente para atingir esse objetivo, enquanto os que não querem não fazem força alguma, mas apenas andam conforme a maré. . Vou ensinar a vocês como ler o que vai acontecer no país inteiro, analisando, apenas, o que acontece em um pequeno estado. Peguemos o simplório Piauí. Bom, o Piaui, como quase todo estado do Nordeste, é dividido entre esquerda (por conta dos anos e anos de política assistencialista) e os coronéizões da área, como Ciro Nogueira (PI), Ciro Gomes (CE), ACM (BA), Sarney/Jader (MA) e por aí vai…Os tais coronézões se aliam a esquerda quando a esquerda está mais forte e o fazem justamente porque seu objetivo é um só: permanecerem no poder. Só isso que querem. . Vamos voltar ao Piaui? Pois bem. O Governo do Piaui é do PT. O Wellington Dias é o governador e o nosso querido amigo do centrão, Ciro Nogueira, era seu aliado desde o começo de seu mandato. Assim, o estado era dividido entre eles. Acontece que no dia 5 de agosto de 2020 foi noticiado que o Ciro abandonaria o Wellington e deixaria de apoiar o governo. Mas pq vc acha que ele fez isso? Fez pq sabia que a esquerda estava enfraquecida e a força bolsonarista estava tomando o estado. Assim, cordialmente, o Ciro Nogueira pulou do barco e passou a apoiar o presidente. Sabe qual foi o resultado? Nas eleições municipais, o PP saltou de 40 prefeituras em 2016 para 83 em 2020 e, assim, ficou com mais do que o dobro das prefeituras do MDB e PSD e mais de 3x mais prefeituras do que o PT. . Percebeu que o Ciro Nogueira e os demais caciques do centrão viram que eles precisavam mais do JB do que o contrário? E, assim, eles se aproximaram. E qual a vantagem de inverter o jogo? Simples: todo apoio no Congresso custa e custa caro, mas, ao inverter o jogo, o governo pode negociar com mais cartas na manga e, assim, ceder menos. . Um adendo importante aqui. O Centrão não busca holofote. Eles, que são os verdadeiros reis da Política brasileira, mantém-se no poder desde que o Brasil é Brasil, justamente porque agem na surdina. Nãos querem exposição. Mantém-se no poder porque exploram um povo pobre que não tem opção de votar por ideologia, mas apenas por um prato de comida. Agora, o preço que o Centrão paga é não ter popularidade. E é por isso que, às vezes, precisam se apegar a figuras mais carismáticas, como fizeram com o Lula no passado e agora fazem com JB. Acontece que, pela primeira vez, com todas as mudanças de conscientização política tidas no país, o centrão vai provar um pouco da popularidade do JB. Ou vc acha que o Roberto Jefferson está popular pq? E o Lira então? Ng sabia quem ele era há 6 meses e hoje é herói nacional. Percebeu a força do JB? E não se enganem, os caras vão adorar provar dessa popularidade e vão se lambuzar com ela. O cara que só quer manter seu curral eleitoral e que o fazia na base da opressão, ser aclamado pelo povo é novidade e isso, certamente, será viciante para eles. Vão querer mais disso, mas sabem que essa mágica acaba com um estalar de dedos do JB. Ora, se JB acabou com o herói nacional Moro, imagina como não e fácil aniquilar o não tão popular Lira, por exemplo? Percebeu como o jogo é bruto? Percebeu o golaço que o JB fez na Câmara? . Mas calma que melhora. Esses caras que agora apoiam o governo já sabem do poder popular que JB tem. No mais, eles vão disputar 2022 e, portanto, não podem nem ser loucos de se meter em confusão ou atrapalhar o governo. Se forem pegos roubando ou boicotando o presidente, dão adeus à reeleição. Por isso, eu falo tranquilamente: GANHAMOS A CÂMARA! Podem ficar tranquilos! . Agora, no Senado, o jogo é mais complexo. Primeiro lugar, diferentemente da Câmara, no Senado não há um bloco dominante e o alto clero (leia-se políticos relevantes de DEM e MDB) dão as cartas. Segundo, apenas 1/3 das vagas do Senado estarão em jogo em 2022 e, portanto, a pressão popular ali funciona menos. E terceiro, 19 dos últimos 22 presidentes do Senado (contando com o Pacheco, que é de RO, mas eleito por MG) vieram do NO e NE. Isso devido à representatividade, já que se elegem 3 senadores por estado, independentemente da população e, assim, a bancada do NE junto com a do NO elegem 48 dos 81 senadores. Ou seja, ali o jogo é outro. . De qualquer forma, o governo articulou e conseguiu eleger o Pacheco. Muitos falaram que o candidato foi apoiado pelo PT tb, mas, sinceramente, tenho minhas dúvidas, até mesmo pela ausência do Jacques Wagner na votação de ontem. De qualquer forma, a situação no Senado não é tão limpa quanto na Câmara. . Então, limpa o nojinho um pouco, para de pensar com o fígado e vem para a turma do cérebro. O que tem que fazer o governo numa situação dessas? Garantir o apoio do presidente do senado, certo? Sim, mas como? Infelizmente, dando um ministério para o DEM. Ladies and gentleman, é por isso que ou Minas e Energia ou Integração Regional vão para as mãos do DEM, do Alcolumbre, sendo que o ministro está com cara de ser o Marcos Rogério. Podem reclamar a vontade, mas ou é isso ou é o país parado por mais 2 anos, o que faz com que a Esquerda possa voltar com tudo. Infelizmente, precisamos ter uma lista de prioridades e, na minha, certamente, a prioridade número 1 é afastar a esquerda do poder, não por revanchismo ou birra, mas pq a Esquerda elimina qualquer chance de termos um país melhor mais para frente. O Centrão não. O Centrão dá para controlar e usá-los para avançarmos naquilo que sabemos que é importante. Eles jogam o jogo se deixarmos eles rirem um pouco. . Estou falando para deixarmos os caras roubarem? Não! Estou falando para fazermos vistas grossas com a corrupção? Não! Estou falando em deixarmos eles colherem os louros da vitória quando o governo decolar. Qqquer ministro do JB num governo exitoso sabe que está com o futuro garantido. É o que eu mais queria? Não, mas vc viu que depois da puxada de tapete era isso ou devolver o país na bandeja pra Esquerda. Estávamos começando a limpar a casa, mas quebraram as nossas pernas e hoje sequer conseguimos sair da cama. . Estamos aleijados. Precisamos voltar a andar, antes de retomar a faxina. Esse é o movimento que estamos fazendo e, por isso, não caiam nas narrativas que serão plantadas de que devemos ir para cima de impeachment de ministro do STF, pautar prisão em 2ª instancia ou fim do foro. Isso não é para agora! Isso é para depois de 2022. Até lá, precisamos recuperar a economia, senão, em 2022, sequer teremos chance de sonhar com essas pautas. Sejam espertos, abandonem ideologias e devaneios juvenis e tentem entender como se joga o jogo. Precisamos de 2 anos de PAZ INSTITUCIONAL para aprovar os projetos que são ESSENCIAIS para nossa SOBREVIVÊNCIA. E não tenha medo do STF. Ele vai atrapalhar um pouco, mas, acredite, o STF morre de medo do Congresso. Para quem não sabe, Senador pode afastar ministro do STF durante seu mandato, mas ministro do STF só afasta senador e deputado durante seu mandato, com o aval das casas legislativas. E quando acaba o mandato, acaba o foro e o processo vai para 1ª instancia, ou seja, sai das mãos do STF. Resumo da ópera: quem ganha a queda de braço entre Legislativo e STF é o Legislativo. . Agora, se você se decepcionou com o que eu disse, sinto lhe informar, mas a culpa é TODA SUA que deixou o país chegar onde chegou. Agora, aguenta, seja paciente, ajude seu país a sair dessa, mesmo que, para isso, tenha que sujar as mãos e, principalmente, APRENDA A VOTAR, para que, em 2022, consigamos dar um bom congresso (ou, pelo menos, um melhor congresso) para JB e, aí sim, exigirmos dele tudo aquilo que ele estava fazendo antes de tomar a invertida. . Tirem as crianças da sala, que agora o jogo é de gente grande!
Quais lições o presidente Bolsonaro deve extrair das derrotas sofridas por Mauricio Macri na Argentina e Donald Trump nos Estados Unidos? Afinal, em ambos os casos um presidente associado à direita não foi capaz de se reeleger, permitindo a volta da esquerda ao poder. O que esses casos dizem sobre a realidade brasileira, sempre lembrando que cada país tem suas particularidades?
Em minha opinião, cada um deles errou por motivos diferentes, ou mesmo diametralmente opostos. Macri venceu com uma plataforma reformista liberal, tentou emplacar mudanças no começo, mas logo se viu diante da pressão do establishment e cedeu. No final de seu mandato ele já era quase um peronista, tendo até congelado preços. Ou seja, Macri aderiu totalmente ao establishment, e seu eleitor decidiu puni-lo. Se é para ter um populista irresponsável no comando, então que venha logo o original, não uma réplica malfeita.
Já Trump errou do outro lado extremo: achou que era capaz de declarar guerra ao establishment todo, contando apenas com o apoio popular. Seu slogan de campanha era “drenar o pântano” em Washington, e nesse processo Trump colocou inclusive muitos republicanos contra ele. A crença de que sobreviveria declarando guerra contra todos se mostrou otimista ou ilusória. O “deep state” se vingou do presidente.
Não se faz uma revolução em quatro anos, eis a dura verdade que os mais empolgados custam a aprender. Bolsonaro venceu com 57 milhões de votos, muitos dos quais antipetistas. A parcela mais militante, que o considera um “mito” e estará com ele até o fim não importa muito o que aconteça, não é a maioria. Esta quer resultados concretos. Seu governo precisa, então, entregá-los se quiser permanecer mais quatro anos.
É aqui que começam os problemas. Para tanto, ele precisa de governabilidade, já que tem de aprovar reformas estruturais. Como a reforma previdenciária passou, muitos acharam que era viável governar só com bancadas temáticas e pressão das ruas. Ledo engano. Isso sem falar do risco de impeachment, que os oportunistas sempre vão manter sobre a cabeça do presidente. Não tem milagre: Bolsonaro é refém do Congresso, ainda mais no modelo brasileiro, fragmentado.
O perigo é ele aderir demais da conta ao establishment em troca de governabilidade e blindagem. Nesse caso, ele estaria cometendo o erro de Macri, e muitos brasileiros ficariam decepcionados. Se é para isso, então eles podem pensar: qual diferença faz? Que venha alguém como Michel Temer mesmo, ou então algum tucano que aceita jogar o jogo sujo. Bolsonaro precisa trazer uma ala do “centrão” para dentro do seu governo, sem deixar isso contaminar seu diferencial, sua posição patriótica e seu ministério técnico. É um desafio e tanto, mais uma arte do que uma ciência.
Ao mesmo tempo, ele tem que fazer isso sem perder sua militância mais aguerrida, que atua como única fonte de resistência diante dos ataques pérfidos e infindáveis da imprensa. É aqui que o lado Trump entra em ação: as brigas com jornalistas, as respostas duras e as “mitadas” fazem parte do repertório necessário para não afastar quem votou nele para isso mesmo, para detonar o establishment e a mídia corrupta.
O risco aqui é errar na mão, exagerar na dose, e com isso implodir muitas pontes e gerar antipatia nas “mães de subúrbio”, como aconteceu com Trump. Bolsonaro já se mostrou irritado com críticos à direita, que chamou de “idiotas das redes sociais”, e postou uma imagem que ilustra bem sua visão: uma cidade na mira de uma gigantesca pedra, e ele como o herói que segura o pedregulho e impede a desgraça de todos. Até que os cidadãos passam a jogar pedras nele, o herói, que acaba então saindo da frente para que o pedregulho siga seu destino destruidor. Vão atacar Bolsonaro por picuinhas ou qualquer imperfeição? Então tudo bem, toma o PT de volta!
É a mensagem que o presidente quer transmitir, não sem alguma razão. Por outro lado, se ele se mostrar imune a qualquer crítica construtiva, que o traga de volta à realidade de sua vitória, acabará se afastando de sua base fiel de apoio, e ficará totalmente misturado ao establishment, será mais do mesmo. Nesse cenário, é como se ele fosse absorvido pelo pedregulho. Ou seja, a metáfora pode ser outra: Bolsonaro é a cidade que a pedra (establishment) quer destruir, e a única coisa que impede esse destino é sua base de apoio popular.
Não sabemos qual será o resultado disso. O que sabemos é que o establishment está cada vez mais ousado e determinado a derrubar Bolsonaro. A mídia perdeu qualquer pudor. Se o presidente não fizer concessões para sobreviver e avançar com algumas reformas, ainda que desidratadas, então ele dificilmente será reeleito. Por outro lado, se ele declarar guerra total a todos, como querem os mais fanáticos e jacobinos, ele não dura nem até o fim deste mandato. O segredo para Bolsonaro seguir adiante é adotar uma postura entre Macri e Trump, patinando em gelo fino, ciente de que alguns anéis terão de ser entregues para se preservar os dedos. E do lado de sua base de apoio será fundamental que os bolsonaristas entendam que não se faz uma revolução em quatro anos, e sem o Congresso ainda por cima.
Todos aqueles que temem a volta do PT e que rechaçam a ideia da volta dos tucanos deveriam ter isso em mente. Os destinos de Macri e Trump estão aí para servir como alerta.
Fernando Duarte/Bahia Notícias- Intencionalmente ou não, o episódio das latas de leite condensado adquiridas pelo governo federal gerou o ambiente perfeito para o presidente Jair Bolsonaro se refestelar nas críticas à imprensa. Com razão. Até que se haja uma apuração aprofundada sobre a aquisição dos itens da cesta alimentícia do Executivo, com a análise dos fornecedores ou até eventuais sobrepreços, por exemplo, qualquer afirmação sobre o tema é um tiro no vazio. Talvez o absurdo nesse episódio tenha sido a forma como o jornalismo foi mal usado contra Bolsonaro e o feitiço virou contra o feiticeiro.
Avaliar o orçamento público é uma tarefa extremamente complexa. Analisar cada um dos itens é extenuante e são raros os governos que dispõem de ferramentas de transparência que permitam isso. Não é o caso do governo federal. Os dados podem até ser mal organizados, mas estão há bastante tempo na internet. No entanto, parte da população achou ter descoberto a pólvora ao ver a lista do supermercado associada ao Palácio do Planalto. O pulo do gato é entender esse episódio.
A matéria inicial, divulgada pelo portal Metrópoles, não fazia juízo de valor sobre as compras. Apresentava os dados, com alguns poucos detalhes, e deixava que o leitor tirasse suas próprias conclusões – a compra de uvas passas, por exemplo, foi uma tentativa de tornar o texto bem humorado. Só que os adversários do presidente, então, correram para identificar item a item e associá-los ao consumo palaciano. Faltou uma informação básica: a “feira” era de todo o Executivo, incluindo aí todos os ministérios, a exemplo da Educação, e as Forças Armadas, destinos comuns para gêneros alimentícios, e sequer incluíam os gastos da morada do presidente.
Ao pinçarem o leite condensado e lembrarem os peculiares hábitos de tomar café com a iguaria como recheio, os “inimigos” do bolsonarismo deram todas as oportunidades possíveis para apagar o vexame político da campanha de vacinação, iniciada com a antiga alijada CoronaVac, e a desastrosa participação do governo federal no Amazonas. Uma cama de gato construída com o apoio de uma rede extensa de famosos e anônimos que ficaram atordoados com a meia verdade que o doce tinha ido para alimentar o Planalto.
O presidente entrou de sola, bem no estilo dele e adorado pela claque. Em um ato sem tantos holofotes, sugeriu que as latas de leite condensado seriam para a imprensa guardar em um local pouco republicano. Pode haver irregularidade na passagem do Executivo pelo supermercado? Talvez. Mas analisar o fato sem contexto abre margem para uma virada de tempo. Como diria o ditado, quem semeia vento, colhe tempestade.
Uma tragédia se abate sobre o mundo, uma catástrofe humanitária sem precedentes na história. Milhões de infectados, UTI’s e leitos hospitalares no limite de suas capacidades, algumas situações mais críticas como a de Manaus.
Esta situação dantesca se agrava num país como o nosso que se arrasta em uma grave crise social.
Os sindicatos defendem suas categorias profissionais, reivindicando EPI’s , a categoria patronal tenta atender num mercado corporativo, capitalista, desatinado, visando aproveitar a carniça deste caos.
Todos estamos sofrendo e imersos no mar do perigo, a esperança da vacina viralizou, devemos lembrar que temos um programa de imunização respeitado mundialmente, porém essa ação e os resultados são a longo prazo, como foi também o processo para outras doenças como varíola, poliomielite, sarampo, meningite, e outras.
De imediato a população precisa fazer sua parte, evitar aglomerações, principalmente festivas, onde a máscara, uma de nossas armas contra este inimigo invisível não pode ser usada durante o consumo de bebidas e comidas.
País tropical, povo receptivo, festivo, precisamos nos unir para esperarmos soluções viáveis que não limitem nossos hábitos; clamamos principalmente os jovens que terão muitos e muitos verões e festejos ao longo das suas vidas, contribuam no processo do “penoso” isolamento social, proteja-se, proteja sua família e quem você ama, sinta-se ator importante nesta história.
É hora de PENSAR NO COLETIVO.
Apelo profissional e pessoal.
Profa. Mestra Maria das Graças Mascarenhas Fonsêca Diretora Administrativa da Clínica Dr. Antenor https://www.instagram.com/p/CKKCnJJj96t/?igshid=lle4ccma4l85
Eu fiz uma cirurgia bariátrica há muitos anos, de maneira estabanada, para me livrar dos meus antigos 150 quilos. Meu pai morreu do coração aos 45 anos, e eu não podia continuar com aquele peso. O médico diz que você vai poder comer de tudo. O problema é que você passa a beber de tudo também.
Eu quase virei alcoólatra. Como, aliás, acontece com muitas pessoas que fazem bariátrica sem se preparar antes e sem supervisão depois. E foi para cuidar dos meus excessos — de cigarros, bebidas, cafés, refrigerantes e remédios para dormir – que eu, graças a Deus, conheci o médico psiquiatra Arthur Guerra. Ele transformou a minha vida não me entupindo de mais remédios, mas tirando esses remédios e me entupindo de esportes.
Guerra me botou para fazer triatlos e maratonas e me fez descobrir um mundo que acorda às 5 da manhã e dorme exausto e feliz às 10 da noite.
Mas, de tudo o que Arthur Guerra me ensinou, nada é mais brilhante do que a pergunta dele que eu coloquei em cima da minha mesa de trabalho e a que tento responder todos os dias: “Nizan, você aguenta ser feliz?”. Esta, querido leitor e querida leitora, é a pergunta que dou de presente de Ano Novo depois de um ano de tantas tristezas, mas também superações. Você aguenta ser feliz?
A pessoa luta para alcançar determinados objetivos na vida e, se e quando consegue atingi-los, quer mais e mais. A gente sonha com uma meta e, quando chega lá, começa a sofrer atrás de outra mais distante. Pedimos aos céus o que não temos, em vez de agradecermos o que já temos. E, quando atingimos o que tanto queríamos, aí queremos neuroticamente um novo objetivo. Ou seja, estamos sempre deixando para ser feliz na próxima conquista. Isso pode ser (e é) motivador, mas muitas vezes é enlouquecedor também.
Então meu ponto aqui é que a felicidade, como tanta coisa nessa vida, é uma questão de disciplina.
O dalai-lama diz que a felicidade é genética ou treinada. E de fato tem gente que é feliz por natureza. Para nós, a grande maioria, ela é uma conquista. É como se fosse uma outra carreira, interna: administrador de si mesmo.
E essa pessoa insaciável retratada nesta coluna está, em maior ou menor grau, dentro de todos nós. Os felizes não a escutam muito. Os infelizes são dominados por ela.
Esse comportamento nos leva a fazer duas coisas que são absolutamente inúteis: tentar corrigir erros de coisas que ficaram no passado e postergar a felicidade para conquistas que enxergamos no futuro. Como passar 2021 tentando corrigir os fracassos de 2020 ou adiando a felicidade para 2022.
Por isso, a pergunta é necessária. Será que você aguenta ser feliz? Até porque as melhores coisas da vida não têm preço: amor, família, amigos, fé, respiração.
Ser feliz é quase uma dieta, uma alimentação balanceada da alma. Que mistura bens materiais e, principalmente, imateriais.
Essa é uma reflexão para você, pessoa física, mas que pode ajudar muito a pessoa jurídica. Por isso Harvard tem tratado tanto da administração da pessoa ao tratar da administração da empresa.
O que desejo a você, leitor, é o que eu me desejo em 2021 e será o meu desafio diário: que você lute para ser as coisas que queira ser, mas não despreze o que é conquistado, o que já é. E que viva 2021, e não 2020 ou 2022.
Até porque o ano que começa será, tem que ser, um ano de cura, de vacina, de virada e de vida. 2020 foi um ano de grande tristeza. De muitas perdas. De muitas e duras lições.
Ficamos desesperados e muito tristes, e essa tristeza era inevitável. Mas a vida precisa da felicidade, e a felicidade precisa da vida.
A obsessão de legislar sobre a Covid-19 e sobre todos os seus aspectos, uma espécie de ideia fixa cada vez mais próxima do estágio clínico, está levando o Brasil (vamos deixar de fora o resto do mundo; o Brasil já chega) a descer de olhos fechados em direção à uma tirania meia-boca, medíocre e ignorante, envenenada pela superstição com o carimbo de ciência e comandada por uma multidão miúda de pequenos governadores, pequenos prefeitos e pequenos mandarins com estabilidade perpétua no emprego, aposentadoria com salário integral e nenhum risco de pagar pelos desastres que provocam. A Covid-19, atiçada pelo pânico sem precedentes que provocou desde o seu início, entregou a essa gente toda um poder que nunca imaginaram ter, nem os eleitos, nem os burocratas, inclusive a ventura de fazer compras sem licitação — e agora eles não querem mais largar o osso. Contam, para cumprir suas decisões ilegais e seus chiliques de despotismo subdesenvolvido, com a cumplicidade amedrontada da Justiça — sobretudo desembargadores e ministros dos tribunais superiores e do STF, que disputam entre si para ver quem obedece mais rápido às neuroses legalóides dos políticos. Aceitam tudo, validam tudo e, até agora, ao longo de dez meses inteiros de epidemia, não foram capazes de frear uma única ordem anticonstitucional baixada em nome da “preservação da vida”.
Da mesma forma, o Ministério Público, que entra em transe a cada vez que imagina ter diante de si a mínima contestação aos direitos de quilombolas, mendigos ou viciados em crack, não deu um pio, até agora, diante de violações flagrantes dos direitos individuais e das liberdades públicas cometidas para “combater a Covid” e “seguir as recomendações da ciência”. Governadores e prefeitos estabelecem a Lei Seca, violam o direito de ir e vir, obrigam os cidadãos a fazer coisas não previstas em nenhuma lei e envolvem-se o tempo todo em episódios de corrupção — e o MP, quando não abaixa a cabeça ou apoia esses disparates, faz de conta que isso tudo está acontecendo no Congo Belga, e não no Brasil. A maioria dos integrantes do Poder Legislativo engole com casca e tudo a ação dessa tirania de quintal — ou, então, se amontoam uns sobre os outros para embarcar no mesmo bonde, com projetos sem nexo algum e palavrório de apoio maciço aos atos mais agressivos de desrespeito às leis e à Constituição. As classes intelectuais, os que estão recebendo salário sem ir ao trabalho e as fatias superiores da sociedade engrossam essa sopa. Para completar, os veículos de comunicação agem como se fossem editados por uma cabeça só. Dedicam-se à defesa da “quarentena” como quem cumpre uma obrigação religiosa — publicam ou deixam de publicar informações e pontos de vista não em obediência a critérios jornalísticos, mas baseados na fé, ou, então, como militantes de um centro acadêmico. É uma espécie de morte cerebral.
Para se ter uma ideia, a imprensa passou a admirar qualquer decisão do governador João Doria, que até dez meses atrás era tido como um demônio só comparável ao presidente Jair Bolsonaro — chegou, até mesmo, a mostrar “compreensão” com o governador Wilson Witzel, escorraçado do palácio de governo do Rio de Janeiro sob acusações de roubalheira extrema. Mudou o sinal por um motivo só: Doria e Witzel passaram a ser aceitos como campeões nacionais da repressão em favor do “distanciamento social”. Na verdade, qualquer político esperto percebeu em dois tempos que o melhor jeito de se dar bem com a mídia, hoje em dia, é dizer que está de olho no vírus, botar uma máscara e sair por aí.
Todos os mencionados acima contam, enfim, com o apoio mais decisivo de todos: a passividade praticamente absoluta da maioria da população diante do furto de seus direitos. Aceita-se o “distanciamento social”, os acessos de tirania marca barbante e a safadeza das “autoridades locais” como um muçulmano aceita o Alcorão — parece que estamos diante de uma espécie de “queda no sistema”, em que as pessoas abriram mão da capacidade de pensar e passaram a ouvir apenas os ruídos produzidos dentro de suas próprias cabeças. É uma paralisação de anestesia geral, em que as vítimas se acreditam protegidas pelos reizinhos de esquina que lhes batem a carteira; estão vendendo sua liberdade a preço de banana, prontos a engolir qualquer coisa que venha da “autoridade” e dos seus médicos de rebanho.
Um dos efeitos mais perversos dessa trapaça em escala mundial tem sido a desordem que contaminou a palavra “ciência” — hoje uma das mais baratas de todo o vocabulário, pois qualquer um passou a encher a boca com ela a cada vez que pretende tirar proveito das oportunidades trazidas pela epidemia. “Estou a favor da ciência”, dizem autoridades, médicos e pesquisadores que pensam exatamente o oposto em torno de qualquer coisa relativa à Covid-19, da estrutura molecular do vírus ao uso da cloroquina. A ciência deixou de ser o universo dos fatos e passou a ser uma questão de opinião — e, a partir daí, ficou liberada para o primeiro passante a utilização da palavra “ciência” na defesa de suas crenças ou de suas agendas pessoais. Quando um médico diz que o vírus não pode fisicamente se transmitir a um toque no botão do elevador, por exemplo, e outro médico, no consultório ao lado, diz o contrário, ambos autorizam o paciente leigo a ter, ele, também a sua própria opinião. Por que não? Se os médicos deram para dizer “eu acho”, e passaram a ouvir lições de infectologia dadas por repórteres de televisão portando máscaras design — bem, aí não dá para reclamar que o Zé Mané também diga o que acha sobre a Covid, a mutação de átomos ou a eficácia relativa das vacinas da Pfizer, de Oxford ou a chinesa “do Doria”. Os políticos e ministros do STF, do seu lado, ganham direito a legislar sobre ciência, os eclipses solares e a área do triângulo. É para onde a Covid-19, sob aplausos gerais, acabou nos trazendo.