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Os tons lúgubres da violência dominam boa parte dos 87 minutos de “Violência Solitária”, o thriller em que Stephen Durham repisar muitos dos chavões do gênero na tentativa de recriar a aura dos clássicos do gênero, até aproximando-se um pouco do faroeste. Irretocável, a fotografia de Jon Schweigart mantém a história num compasso de tensão sem fim, desde as primeiras cenas do flashback que dá algumas pistas quanto aos desdobramentos da ideia infeliz de um casal apaixonado. Apostando na confusão, Durham vai atulhando seu filme de diálogos mais e mais acerbos, em que os personagens centrais experimentam a hostilidade da cidadezinha onde pretendem passar o feriado sem qualquer preocupação com os eventuais contratempos do dia a dia. Antes que cheguem ao bosque num lugar inóspito do Alabama, sudeste dos Estados Unidos, onde pretendem acampar, Durham e seu trio de roteiristas situam a dupla numa estrada deserta, por onde se deslocam num jipe laranja sem maiores sobressaltos, até quase serem abalroados pela caminhonete prata cujo motorista parece bastante estimulado pela beleza da condutora.

Esse desconforto inicial perdura no café da Rota 56 onde Brenner Baker e o marido, Dillon, resolvem entrar para fazer um lanche sem ao menos suspeitar que o estabelecimento pertence à mãe do homem que os perseguira. No café, nota-se que Brenner, a personagem de Ellen Hollman, é uma mulher bastante segura, uma vez que consegue se defender sozinha do assédio de Butch — ainda bem, porque Dillon, de Matt Passmore, é um pouco civilizado demais para aqueles confins tão agrestes. O reencontro compulsório dos dois com a figura selvagem de Butch, muito mais que apenas o cafajeste mimado a que Gary Kasper dá vida, serve para ordenar o andamento confuso do longa, que vai se agudizando até o final. Enquanto ainda é possível se captar todos os inúmeros detalhes do enredo, surge também a Mama encarnada por Geraldine Singer, mãe de Butch e outros marmanjos mal-encarados e prontos para levar a termo suas orientações. Dona do restaurante e gerente de negócios que, conforme Durham explica mais tarde, vai muito mais longe que um singelo diner para motoristas famintos e cansados, a antagonista de Singer é o bom gancho de que se vale o diretor a fim de apresentar os dois viajantes aos perigos que justificam a trama.

Histórias com mocinhas quase como super-heroínas, dotadas das habilidades específicas que as livram de apuros inesperados, foram ganhando espaço conforme a própria importância da mulher nas várias esferas da vida social se ampliou. No caso de “Violência Solitária”, a personagem de Hollman lança mão da técnica aprendida no curso de formação dos Rangers, o grupo de elite do exército americano, para desvencilhar-se das armadilhas que lhe prepara Butch, um vilão muito caricato, e, claro, empreender o plano de desagravo a que alude o título. Já sem poder contar com Dillon, Brenner dá cabo de seus verdugos um por um, exatamente como se espera em filmes com essa proposta, feitos para agradar o aficionado pelo gênero, e só. Fosse apenas isso, “Violência Solitária” alcançaria seu objetivo com folga e louvor; contudo, a pretensão em tecer comentários político-ideológicos rasteiros sobre quase tudo — do ingresso criminoso de armas e drogas à hipocrisia e o pseudomoralismo que norteia a vida de falsos cristãos (Mama é uma protestante ardorosa, daquelas que faz questão de cumprimentar o pastor ao fim do culto) —, e do jeito mais desmazelado, coroada por uma edição lenta, arrastada, bisonha mesmo, além da forma como os moradores da cidadezinha são retratados, todos rednecks insensíveis, alienados e coniventes com posturas delituosas, coloca tudo a perder. É muito elitismo artificioso e ódio gratuito quando balas e sangue chegariam.


Filme: Vingança Solitária
Direção: Stephen Durham
Ano: 2020
Gêneros: Ação/Thriller
Nota: 7/10

Informações Revista Bula


Foto: Divulgação/Netflix

Talvez a única obviedade de “O Suplente” seja mesmo a excelência, o pluralismo, a genialidade dos filmes argentinos. Depois de um debute estrepitoso no Festival Internacional de Cinema de Toronto, o TIFF, no Canadá e provocando ainda mais rebuliço na premiação de San Sebastián, na Espanha, o trabalho de Diego Lerman foi seguindo uma trajetória constante de um encantamento reflexivo ao capturar o espírito do tempo, de implacável crítica às perenes desigualdades sociais, mais ou menos equivalentes ao redor do mundo, e moldá-lo a um recorte muito íntimo da vida em sociedade a partir de um universo cheio de idiossincrasias. Cada vez mais instada a representar segmentos diferentes, pessoas diferentes, a escola congrega entendimentos utópicos sobre temas diversos que se completam e os de todo incongruentes entre si, bem como a ausência de toda a deambulação pela filosofia mais rasteira. Parece que só a poesia tem o condão de selar todas as percepções, e então começa a despontar, afinal, o herói desse enredo.

O texto de Lerman e outros quatro roteiristas aproxima-se, guardadas as justas medidas, de “Sementes Podres” (2018), em que o comediante irano-francês Kheiron vale-se de sua, digamos, experiência extraclasse para motivar adolescentes a um passo da delinquência. O filme do argentino, contudo, não deixa vácuo para blagues entre tolas e mordazes, e Lucio Garmendia, o candidato a herói vivido por Juan Minujín, até fisicamente parecido com Kheiron, esbarra no desafio de inspirar em seus alunos o gosto pela literatura, malgrado saiba que, para tanto, tem de conseguir desviar da relação vertical que só serve aos protocolos e aprofundar-se na realidade que agora o rodeia, o cotidiano na escola de um bairro afastado da periferia de Buenos Aires, cheia de jovens rejeitados pelo sistema e, ainda que não o percebam, bastante inconformados por isso. Conservando a tradição, o diretor nunca lança mão de uma frase, de único gesto que seja de maneira gratuita, e a sequência de abertura delineia com fidedignidade o que se vai assistir ao longo de 111 minutos: um homem que se levanta pela manhã bem cedo carregando sobre os ombros o peso das frustrações e dos malogros que, alheios a seu empenho, não poderá evitar.

As subtramas em “O Suplente” encadeiam-se de modo mais ou menos orgânico, dando uma profundidade aflitivamente humana ao personagem de Minujín, que mata tudo no peito e segue convencido da vitória até o final — sua vitória, não de Lucio. O physique du rôle do protagonista, algo chapliniano, denuncia mesmo que o professor há de passar por maus bocados, e, por paradoxal que soe, a classe acaba sendo a menor de suas preocupações. Quando não está na sala algo caótica, de janelas amplas que dão para carros e caminhões se deslocando em alta velocidade, Lucio tem de desdobrar para cuidar de Chileno, o pai filantropo interpretado com toda a segurança por Alfredo Castro, padecendo de uma doença terminal, e visitar Sol, a filha depressiva, de Renata Lerman, na casa de Mariela, a ex-mulher vivida pela não menos certeira Bárbara Lennie. Seu elo verdadeiramente emocional com o ofício, para além dos muros do colégio, toma corpo na figura de Dilan, o traficante juvenil com nome e alma de poeta, capaz de entrar em qualquer noite pouco acolhedora com toda a doçura, mas ávido por emular o espírito aventureiro de trovadores ainda mais despojados.

O desfecho não reserva nenhuma guinada surpreendente para Lucio. No entanto, o substituto, aquele que entra numa porção de vidas sem nunca deixar-se abater, como a sombra da palmeira no mar tormentoso, sai como chega. Infeliz.

Informações Revista Bula


Foto: Divulgação/Netflix

Por mais isolada que uma terra seja de todas as outras, literal ou metaforicamente, delimitada por um território quase inalcançável e orgulhosa de sua mentalidade progressista, arrojada, encarnação de um pensamento democrático que defende, sem o cinismo da periferia do mundo, que os indivíduos podem mesmo ser o que desejarem, sempre resta um pequeno detalhe fora da ordem, uma inadequação qualquer que fomenta um sem fim de distúrbios. Em “O Lobo Viking”, o norueguês Stig Svendsen repisa uma ideia algo batida do repertório do terror a fim de saltar para o caráter eminentemente prosaico de seu filme, sem deixar que o vínculo entre esses dois extremos de seu trabalho se esgarce. Svendsen mantém o espectador sempre no fio da navalha, equilibrando-se de um lado para o outro, sem saber direito o que esperar da história, que também flerta com um thriller formulaico, protocolar, resolvido um tanto depressa. A ambivalência do roteiro, do diretor e Espen Aukan, desorienta à primeira vista, mas conforme a história avança, fica mesmo claro que este é um filme sobre o homem e suas inconsistências e debilidades.

Após a explicação sobre a origem do mal na Noruega — lírica e aterradora, como convém a quase tudo quanto respeita à cultura escandinava —, Svendsen joga luz sobre o cotidiano de uma família comum. Thale Berg, a garota-problema vivida por Elli Rhiannon Müller Osbourne, vai morar com a mãe em Nybø depois que o pai morre subitamente. Liv, a heroína interpretada por Liv Mjönes, tenta se adaptar à convivência com a filha, pouco mais que uma hóspede indesejada e também cheia de outras prioridades, feito qualquer adolescente, e entre o trabalho como policial na naquela cidadezinha meio esquecida dos rincões do norte do mundo, na vastidão de bosques profundos e noites intermináveis, e o novo posto que é forçada a assumir, tenta ter uma vida marital minimamente satisfatória com Arthur, de Vidar Magnussen, que não sabe muito bem que papel desempenha na relação das duas.

“O Lobo Viking” desembarca da crônica de costumes muito calculadamente, jamais abandonando-a de todo. Thale comunica ao padrasto que vai sair, cruza com a mãe no quintal e segue para uma festa nas imediações da praia, próximo à floresta. Trond Tønder realça o sublime e o tétrico das paisagens nórdicas, valendo-se da luminosidade ora evanescente, ora quase baça de Nybø na intenção de contribuir com a atmosfera de mistério cada vez mais decisiva para que se vislumbre o que espera a antimocinha de Osbourne e os outros jovens com quem passa a sair, entre eles, Jonas, papel de Sjur Vatne Brean, por quem vai se apaixonando para sua própria surpresa. Essa sua primeira interação com a turma da nova cidade presta-se a um legítimo batismo de sangue devido à aparição de uma criatura bestial, que encerra o grande mistério que esclarece boa parte das circunstâncias nem tão enigmáticas assim dispostas ao longo de pouco mais de hora e meia de um suspense psicológico que se mistura ao terror sem prejuízo da sutileza.

Invocando elementos das mitologias escandinava e celta, expostos com refrescante originalidade no excelente “Os Banshees de Inisherin” (2022), de Martin McDonagh, Svendsen furta-se ao banal e lembra que mesmo um país rico e espantosamente civilizado precisa ter medo de alguma coisa. “O Lobo Viking” avisa, com muita cautela, que uma vez que o demônio se instala, há que se aprender a dominá-lo. Por bem ou por o mal.


Filme: O Lobo Viking
Direção: Stig Svendsen
Ano: 2022
Gêneros: Suspense/Terror
Nota: 8/10


Foto: Jaime Olmedo/ Netflix

O apocalipse vem como se em ondas, arrastando os homens para o centro de eventos sobre os quais não tem nenhum controle, dominado por circunstâncias que tomam-lhe anos até que se esclareçam. O recorte que “Infiesto” faz de uma catástrofe do nosso tempo, um misto de incúria, negligência, desmazelo e horror, presta-se a alicerce de uma espiral de mistérios, indóceis à vontade de quem se esmera por desvendá-los. A partir de março de 2020, a humanidade passou a ter de acarar o resultado diabolicamente palpável de décadas de degradação ambiental, constituída de uma convivência promíscua e desrespeitosa entre seres humanos e o meio que os acolhe, transformada num genuíno caos à medida que se foram avultando a inépcia e o descaso com que se conduziu o problema. Patxi Amezcua, o diretor deste thriller policial ousado e definido por reviravoltas surpreendentes, equipara esse cenário de incertezas e atrocidades ao que conta, durante pouco mais de hora e meia, acerca do que se reveste da aura de um mero plano para encobrir intentos ainda mais hediondos.

A pandemia de covid-19 foi ainda mais devastadora em Infiesto, uma cidadezinha pacata nas Astúrias, norte da Espanha, segundo o texto do diretor-roteirista, que se aproveita do cenário bucólico — metamorfoseado numa espécie de vilarejo medieval sombrio e envolto por uma bruma de morte graças à fotografia plena de elementos em verdes-oliva e amarelo queimado — para despistar as atenções do público e confundi-lo um pouco mais a cada cena. Os acontecimentos do filme de Amezcua e o modo como os destrincha assemelham-se muito a “Marshland” (2014), de Alberto Rodríguez, sem licença para deambulações retóricas e investindo maciçamente na violência conforme fica mais claro que alguma coisa de muito obscuro se passa nos limites do povoado. A Espanha foi um dos países que acusaram com maior veemência o golpe da peste, e na esteira de um isolamento nefasto, de consequências para a integridade mental ainda desconhecidas, tem início a série de desaparecimentos e sequestros, mormente de mulheres jovens, que afronta Samuel García, o inspetor-chefe vivido por Isak Ferriz e tanto mais Castro, sua adjunta, de Iria del Río.

García e Castro estão sempre a uma cabeça da identidade do facínora responsável por todo o calvário em que Infiesto tem se perdido. Se por um lado essa incapacidade de resolver um caso aparentemente sem maiores consequências depõe contra a dedicação dos aguerridos policiais interpretados por Ferriz e Del Río, por outro é precisamente o jogo de gato e rato proposto por Amezcua o que mantém a história quente mesmo em momentos em que parecia fadada ao tédio, à espreita nas sequências em que os dois se enfurnam em salas enevoadas para deliberar sobre os próximos movimentos. Na virada do clímax para o desfecho, ao cabo dos seis primeiros dias do confinamento obrigatório a que Infiesto e a Espanha como um todo foram compelidos a se sujeitar, o diretor começa a tirar os travos dos olhos da plateia ao elencar suas escolhas metafísicas, tão delirantes quanto sofisticadas, para a avalanche de tragédias que soterrara aquele éden degenerado, aludindo a um estranho ritual da mitologia celta praticado pelos druidas, os sábios desse povo milenar e desconhecido, no equinócio de primavera. O sacrifício de seres humanos em clamor de novos tempos de serenidade é a mentira mais cínica dos falsos profetas de ontem e de hoje.


Filme: Infiesto
Direção: Patxi Amezcua
Ano: 2023
Gêneros: Suspense/Drama/Policial
Nota: 8/10

Informações Revista Bula


Decisão vale mesmo para as favoritas dos fãs

CEOs da Netflix defendem o cancelamento de séries, mesmo as favoritas dos fãs Foto: Pixabay

Os CEOs da Netflix, Ted Sarandos e Greg Peters, defenderam o cancelamento do streamer de programas favoritos dos fãs. A informação consta em uma reportagem do site Entertainment.

Recentemente, fãs lamentaram o fim de séries como Warrior NunInside Job1899 e Residente Evil. Em resposta, Sarandos afirmou que a Netflix “nunca cancelou um programa de sucesso”.

– Muitos dessas séries eram bem-intencionadas, mas falam para um público muito pequeno com um orçamento muito grande. A chave para isso é que você deve ser capaz de falar com um pequeno público com um orçamento pequeno e um grande público com um grande orçamento. Se você fizer isso bem, poderá repetir sempre – disse ele recentemente à Bloomberg .

O CEO apontou como exemplo positivo o hit sul-coreano Round 6.

– É muito raro que um programa como esse seja tão global quanto foi. Em 30 horas, o mundo assistia a Round 6 sem qualquer tentativa nossa para tentar comercializar o programa para o mundo – disse.

Greg Peters acrescentou que a Netflix trabalha de forma que o programa sul-coreano seja “algo que aconteça toda semana, e que não seja algo incomum, uma exceção”.

Outros cancelamentos que irritaram os telespectadores no passado incluem The Midnight Club, Fate: The Winx Saga, The OA, The Baby-Sitters Club, Gentefied e Santa Clarita Diet.

No ano passado, foi criada a hashtag #CancelNetflix, que alcançou grande sucesso no Twitter; uma forma de os fãs expressarem seu aborrecimento com o cancelamento de títulos que, de outra forma, teriam seguidores cult e pontuações críticas positivas, algumas das quais até marcando renovações antes de finalmente serem eliminadas.

*AE


Wandinha ajudou a Netflix a alcançar a meta de novos assinantes no último trimestre de 2022 - Divulgação/Netflix
Wandinha ajudou a Netflix a alcançar a meta de novos assinantes no último trimestre de 2022 Imagem: Divulgação/Netflix

A Netflix não esconde sua ambição de roubar espectadores e anunciantes da TV. O plano, como o anúncio de resultados na quinta-feira passada mostrou, após ajustes no conteúdo e cortes no orçamento nos últimos meses, parece estar funcionando.

Na quinta-feira, a Netflix divulgou que superou sua própria previsão de ganhos de assinantes no último trimestre de 2022, adicionando quase 7,7 milhões de novos clientes. O número foi 70% superior ao que a empresa havia previsto, 4,5 milhões. O sucesso da série “Wandinha”, e dos filmes “Glass Onion: Um Mistério Knives Out” e “Troll”, ajudaram no resultado.

A receita da Netflix também superou ligeiramente sua projeção, sugerindo que o novo plano baseado em publicidade lançado no último trimestre não gerou uma grande redução entre os assinantes atuais de planos mais caros.

A Netflix também projetou que a receita do primeiro semestre de 2023 cresceria cerca de 4% em comparação ao mesmo período do ano passado. O número é o dobro do aumento de 2% registrado no quarto trimestre. A empresa prevê que o aumento de assinantes e do lucro devem seguir crescendo nos próximos meses.

A explicação para o aumento do lucro é que a Netflix vai apertar o cerco para quem compartilha senhas. Segundo a empresa, os testes na América Latina sugerem que combater o compartilhamento de senhas levou a uma “receita geral melhorada, que é nossa meta com todas as mudanças de planos e preços”.

Os bons resultados e perspectiva positiva fizeram as ações da Netflix dispararem na bolsa de valores, chegando a subir mais de 8,5% na sexta-feira. Adicionar 7,7 milhões de assinantes foi positivo, mas fazer isso sem perder dinheiro e podendo ganhar ainda mais animou os investidores.

As ações da Netflix já subiram mais de 48% nos últimos seis meses, período em que a empresa anunciou sua entrada na publicidade, cortou custos, realizou grandes cortes de funcionários e retomou o crescimento de assinantes. Em meio às boas notícias a empresa também adiantou que Reed Hastings, fundador da Netflix, deixará o posto de co-CEO.

Disney sofre ataque de investidores

Enquanto a Netflix realiza uma transição aparentemente tranquila, voltando a crescer e lucrar, suas principais concorrentes estão em crise. A Warner Bros. Discovery corta para pagar sua alta dívida e a Disney passa por uma de suas maiores crises. No final do ano passado a Disney demitiu o CEO, Bob Chapek, por pressão de acionistas, e agora trava uma nova batalha com fundos ativistas que querem ver mais lucro das plataformas de streaming da empresa.

Bob Iger, que voltou da aposentadoria para retomar o posto de CEO da Disney, posição que ocupava antes de Chapek, inclusive já vem sendo pressionado para deixar o cargo. Nelson Peltz e seu fundo de investimentos Trian, que comprou US$ 900 milhões em ações da Disney (0,5% da empresa), querem que sejam feitos grandes cortes de custos, além de exigirem um assento no conselho da Disney e um plano de sucessão para Iger.

A Trian, em uma apresentação intitulada Restore the Magic (Restaure a Mágica) publicada dias atrás em seu site, descreveu o que vê como erros cometidos pelo conselho da Disney e comparou os retornos dos acionistas da companhia com as principais empresas listadas na bolsa e os competidores do setor durante o mandato de cada diretor. A ideia era mostrar a baixa performance das ações em relação aos competidores.

“Ainda existem vários diretores atuais e membros da administração que supervisionaram e aprovaram algumas das piores falhas estratégicas e de governança corporativa da Disney”, escreve a Trian na apresentação. O fundo cita a compra da 21st Century Fox por US$ 71,3 bilhões, os altos salários dos executivos da Disney e o alto endividamento da empresa como exemplos de má gestão.

A Disney contra atacou Peltz e divulgou na terça-feira uma apresentação de 16 slides defendendo Iger e o conselho. “Nelson Peltz não entende os negócios da Disney”, diz o texto que também afirma que Peltz não deveria receber um assento no conselho.

O acordo com a Fox, disse a Disney, permitiu expandir suas ofertas diretas ao consumidor em todo o mundo e ampliou seu portfólio de propriedades para incluir filmes como “Avatar” e programas de TV como “Os Simpsons”. A empresa também observou que as vendas de ativos após a compra reduziram o custo para a Disney para cerca de US$ 57 bilhões.

Mas Iger e Peltz concordam em um ponto: o streaming da Disney tem problemas e precisa mudar de rota. A Disney perdia mais de US$ 1 bilhão por ano com suas plataformas de streaming desde a estreia do Disney+. Mas em 2022 o prejuízo disparou. Nos primeiros nove meses de 2022 a empresa perdeu mais de US$ 2,5 bilhões com a área. A hemorragia financeira foi uma das razões da demissão de Chapek.

Por que a Netflix não tem futebol ao vivo?

Enquanto a Disney patina, a Netflix projeta um fluxo de caixa livre (a quantidade de dinheiro disponível em uma empresa que sobra após todos os gastos serem quitados) de US$ 3 bilhões para o ano atual. Vale lembrar que além da Netflix, nenhum outro streaming dá lucro e nem deve fazer isso antes de 2025.

A Netflix disse nesta semana que já passou da fase de maior fluxo de caixa na construção de seus negócios e agora está focada em gerar forte fluxo de caixa livre. O plano de anúncios e o combate ao compartilhamento de senhas para aumentar a receita são duas prioridades para fazer fazer isso.

Outra estratégia é segurar os custos. Se gigantes como Apple, Google e até players tradicionais como Disney e Paramount têm investido bilhões para terem grandes atrações esportivas ao vivo em seus streamings, a Netflix segue distante do movimento.

Mas não é por falta de vontade. A Netflix chegou a conversar com a F-1 e donos de direitos de campeonatos de surf e tênis, mas o negócio não andou. Ted Sarandos, co-CEO da companhia, disse em dezembro em uma conferência com investidores que a empresa não se opõe a ter esportes, mas não fechou nenhuma compra de direitos porque a conta não faz sentido e não estão dispostos a perder dinheiro.

“Não vimos um caminho lucrativo para licenciar grandes esportes”, afirmou Sarandos, que acrescentou: “Não somos antiesportivos, somos apenas pró-lucro”. A Netflix “pode ficar duas vezes maior sem esportes”, acrescentou. A Netflix já conquistou uma grande audiência, disse ele, alegando que 165 milhões de lares assistiram à série coreana Round 6 sem que o programa de TV “tivesse que seguir o Super Bowl”.

“Não estamos fazendo essa migração [de um negócio de TV de legado]”, disse Sarandos. “Temos lucro no negócio de streaming.” Disse o executivo em referência a um comentário de Bob Iger, CEO da Disney, que afirmou em uma conferência em setembro que a TV tradicional “está marchando para um precipício distinto e será empurrada (pelo streaming)”.

Neste ano, a Netflix fará sua primeira transmissão de evento ao vivo, tendo o comediante Chris Rock como anfitrião. Em entrevista à Bloomberg, Sarandos também adiantou que ter canais FAST (Free Ad-Supported Streaming TV, canais online gratuitos com anúncios) estão nos planos.

Prejuízo para ganhar mercado

Empresas de tecnologia como Amazon e Apple têm sido agressivas na aquisição de direitos esportivos para suas plataformas de streaming, principalmente nos Estados Unidos, onde o mercado está saturado e crescer é cada vez mais difícil.

A Amazon está pagando bilhões pelos direitos exclusivos do “Thursday Night Football” da NFL no Prime Video, enquanto a Apple fechou acordos para a Major League Baseball e a Major League Soccer no Apple TV+. Mas Sarandos – embora tenha feito uma ressalva de “nunca diga nunca” sobre a aquisição de direitos esportivos pela Netflix – comentou que a economia dos esportes ao vivo é construída em torno da TV paga e não faz sentido para o streaming.

Mas vale notar que nem os gigantes de tecnologia estão alheios ao novo cenário econômico. Amazon, Google e Microsoft (vista por muitos como uma potencial compradora da Netflix) anunciaram milhares de demissões nas últimas semanas.

A estratégia de comprar grandes eventos, principalmente os esportivos por atraírem grandes audiências, é efetiva para atrair assinantes e ganhar mercado, mas costuma trazer prejuízos. O modelo de compra de esportes na TV se sustentava porque a TV paga ajudava a fechar a conta cobrando caro do assinante.

Netflix copiando a Globo?

Em seu plano para se tornar a nova TV a Netflix foge do prejuízo e busca fazer negócios racionais. Segue a mesma cartilha da Globo, que abriu mão de competições e renegociou contratos até mesmo abrindo mão da exclusividade da Copa do Mundo de futebol. Manuel Belmar, diretor-geral de Finanças da Globo, já afirmou que a Globo quer ter todas as grandes competições esportivas, mas não fará loucuras nem terá prejuízos.

Uma consequência, como o colunista Mauricio Stycer apontou em sua newsletter semana passada, é que “a série ideal da Netflix deve ser como um cheeseburger gourmet, ou seja, um programa que seja ao mesmo tempo comercial, de fácil compreensão, mas com algo diferenciado, premium”.

Bridgerton, apontada como exemplo deste cheeseburguer gourmet, tranquilamente poderia ocupar a faixa das 18h da Globo, nota Stycer.

Um efeito colateral dessa transformação para TV é a radical mudança de conteúdo. Sai o conteúdo mais artístico e segmentado e entram os arrasa quarteirão. A chegada do plano com publicidade na Netflix deve acelerar essa tendência.

Por que há tantas séries canceladas?

Cada vez mais a Netflix precisa que uma série retenha o público por muito tempo para garantir que mais publicidade seja exibida. A expectativa da empresa é que até 10% de seu faturamento venha de publicidade, algo como mais de US$ 3 bilhões por ano. Uma das razões do cancelamento da série “1899” foi a baixa taxa de pessoas assistindo o conteúdo até o final, além de seu alto custo de produção. Apesar de ter chegado ao segundo lugar no topo dos mais vistos em diversos países, a série não terá segunda temporada.

Pela mesma razão mais séries devem ser canceladas. Mesmo uma série de sucesso talvez não faça sentido ter uma nova temporada se já existir algo semelhante no catálogo da Netflix para o mesmo público custando menos. Como na TV, o objetivo é atrair um público mais abrangente pelo menor custo.

“Nunca cancelamos um programa de sucesso”, disse Sarandos semana passada à Bloomberg. “Muitos desses shows foram bem-intencionados, mas falam para um público muito pequeno com um orçamento muito grande. A chave para isso é que você deve ser capaz de falar com um público pequeno com um orçamento pequeno e um grande público com um orçamento grande. Se você fizer isso bem, você pode fazer isso para sempre.

“House of Cards” e “Orange Is the New Black” foram pioneiras e marcaram território, mas hoje dificilmente funcionariam na nova Netflix.

Desde 2019, à medida que a competição aumentava no streaming, cresceu a reclamação de que os algoritmos passaram a beneficiar os blockbusters e grandes franquias como Stranger Things em detrimentos das produções mais artísticas.

Ironicamente, à medida que a Netflix fica cada vez mais parecida com a TV tradicional, a TV tradicional tenta criar produtos diferenciados para resistir ao apelo das gigantes de streaming. A guerra do streaming virou a guerra da mídia e está longe de acabar.

Informações Splash UOL


Foto: John Wilson/ Netflix

O aspecto eminentemente contraditório de se estar só, do berço ao túmulo — uma das poucas certezas da vida e que abarca toda a humanidade — é que são recorrentes as situações nas quais não se percebe lá muito interesse de quem encontramos pelo caminho quanto a partilhar experiências, tampouco aquelas emoções capazes de justificar a estada de cada um no mundo e muito menos aquilo que nos empenhamos em manter no esconderijo que temos por ideal, a salvo da nefasta curiosidade alheia, certos de que assim nunca haveremos de padecer com surpresas desagradáveis. Por outro lado, a despeito da vontade atávica, ancestral e instintiva da fuga e do isolamento, persistimos, com uma pertinácia quase doentia, a adequação ao que esperam de nós, observando modelos tácitos de comportamento, tanto mais artificiosos à medida que deles nos ocupamos com maior atenção, pretexto bastante cômodo para que nos olvidemos de nossas solidões, nossos traumas, das neuras e, claro, das deleitosas manias que fazem nosso cotidiano um pouquinho menos enfaroso. Nem tudo é só desespero, contudo; é difícil, mas ninguém se cansa de esperar o milagre de conhecer alguém que, por acaso ou por destino, vive de um jeito muito parecido ao nosso. E sem que se anunciem terceiras intenções.

Depois de algum tempo, do alto da maturidade que chega para cada um na quadra oportuna, cristaliza-se a verdade de que os vínculos que estreitamos ainda em tenra idade são os que dispõem de mais chances de se manterem pelos desencontros da vida afora, malgrado, lamentavelmente, a própria vida se encarregue de desfazer esses laços assim que crescemos, o que só ratifica a ideia de que a amizade é mesmo uma força potente, que se bem conduzida, muda uma história, duas, transforma o mundo, se o deixarem. A união dessa mágica às humanas vontades, mesmo que pareçam condenadas a conviverem cada qual no seu círculo, como água e azeite, os sentimentos mais incongruentes entre si resultam em algo novo, indefinível, o grande segredo dos afetos que nunca se extinguem. Este, definitivamente, não é o caso dos personagens de “Glass Onion: Um Mistério Knives Out”. No segundo filme de uma trama que tem muita lenha para queimar, Rian Johnson mantém a linha de um suspense bem elaborado, abrindo o horizonte dramático que dos tipos que apresenta, ricaços entediados que se dedicam a joguinhos tolos, mas perigosos, para esquecer sua irrelevância.

Aludindo a uma canção dos Beatles, o roteiro de Johnson ilumina as muitas camadas aparentemente translúcidas das relações humanas, hábeis em filtrar toda a luz que lhes possa atravessar e vertê-la numa energia pouco benfazeja. Como não poderia deixar de ser, o diretor segue reverenciando — de um modo bastante original, que se diga — Agatha Christie, (1890-1976), sem prejuízo dos trechos cômicos que se prestam a um tempero bem dosado para uma narrativa saborosa, estilo de que a Dama do Crime decerto não se ressentiria. A exemplo do que se denota do filme que abre a franquia, Johnson perturba o seu tanto a ordem do estabelecido no gênero e vive transfigurando o enredo, sem importar muito quem fará o quê, mas a que altura da história se vai chegar ao assassino, que a propósito, ainda não existe. Se no longa de 2019, o morto cujo algoz se queria descobrir era Harlan Thrombey, célebre autor de livros de suspense — e essas jogadas metalinguísticas soem cair logo no gosto do público —, degolado com requintes de crueldade aos 85 anos em sua própria mansão, aqui, Benoït Blanc, o requintado detetive que inspira perfis na “New Yorker”, de um Daniel Craig mais e mais artisticamente maduro, é chamado a partilhar das excentricidades de convivas com muitos parafusos a menos. Mesmo a fina crítica social proposta pelo diretor-roteirista não se perde, dando ênfase tanto às doidices de Kate Hudson como Birdie Jay, a dondoca pouco inteligente que tenta sufocar seu esplim dando festas literalmente incendiárias (e se aborrece ainda mais), aproveitando para destilar, mas redes sociais uma intolerância racial entre ingênua e criminosa, como a Janelle Monáe, a consciência encarnada da turma, num papel duplo.

Talvez o grande defeito de “Glass Onion: Um Mistério Knives Out” seja mesmo o longuíssimo tempo de projeção, extenso a ponto de fazer quem assiste especular demais sobre o desfecho, perspicaz. Nada que não se possa resolver numa terceira empreitada de Benoït Blanc.


Filme: Glass Onion: Um Mistério Knives Out
Direção: Rian Johnson
Ano: 2022
Gêneros: Thriller/Crime/Comédia
Nota: 9/10


Seleção passa por nomes como Stranger Things e Wandinha

Foto: Reprodução/Twitter
Foto: Reprodução/Twitter

O streaming Netflix compartilhou nesta terça-feira (27) dados interessantes a respeito de seus conteúdos lançados em 2022. A empresa norte-americana divulgou um levantamento com as séries e filmes mais assistidos do ano, em uma seleção que passa por nomes como Stranger Things e Wandinha.

A empresa, que passou pela maior crise de assinantes da sua história em meio à pandemia da Covid-19, conseguiu se recuperar do baque e lançar produções bastante populares em 2022. Segundo o portal Tecnoblog, a Netflix encerrou o ano com seis entre as dez séries mais buscadas no Google.

O ranking contempla produções de língua inglesa e leva em conta o consumo dos assinantes entre 1 de janeiro e 18 de dezembro.

Confira a lista com as 10 séries mais assistidas da Netflix em 2022:

1ª – Stranger Things 4
2ª – Wandinha (Temporada 1)
3ª – Dahmer
4ª – Bridgerton (Temporada 2)
5ª – Inventando Anna
6ª – Ozark (Temporada 4)
7ª – Bem-Vindos à Vizinhança (Temporada 1)
8ª – The Sandman (Temporada 1)
9ª – The Umbrella Academy (Temporada 3)
10ª – Virgin River (Temporada 4)

Top 10 filmes mais assistidos da Netflix em 2022:

1ª – Agente Oculto
2ª – O Projeto Adam
3ª – Continência ao Amor
4ª – Arremessando Alto
5ª – O Golpista do Tinder
6ª – A Fera do Mar
7ª – Enola Holmes 2
8ª – De Volta ao Baile
9ª – O Homem de Toronto
10ª – Dupla Jornada

Informações Bahia.ba


Foto: John Wilson/ Netflix

O ano de 2022 foi uma torrente de produções que aguçaram o senso crítico do espectador, primando por alargar as perspectivas e dar novo fôlego a opiniões as mais contraditórias, que se repelem entre si enquanto também se complementam, provando uma vez mais que a arte espelha a vida no que esta tem de densa, de bela, de única. A vida bem que poderia ser um eterno domingo, não? Não que nos outros dias devamos nos esquecer das pequenas alegrias que a vida nos proporciona, mas certamente tudo adquire um colorido a mais quando se dá esse curto respiro a cada cinco dias de trabalho duro. Aos fins de semana, como num passe de mágica, como numa ópera de Giuseppe Verdi (1813-1901), a gente se sente mais leve, mais animado, os pássaros cantam mais alto (até no inverno), as crianças brincam até tarde (tarde até demais), as manchetes de tragédias nos jornais são relegadas à lúgubre segunda-feira, quando o ramerrão volta à carga. Como em “La Traviata”, ópera de Verdi de 1853, como no grande cabaré em que a existência humana se transforma às vezes, aproveitamos o fim de semana para praticar os prazeres que nos nega a vida nos dias de peleja. É claro que, justo aqui na Bula, não iríamos esquecer dos filmes para aqueles que se decidiram a ficar em casa. Na nossa lista de hoje, temos cinco pérolas, ou ainda mais, cinco diamantes para você ter no seu descanso experiências preciosas. Os títulos, todos na Netflix, aparecem do mais novo para o mais antigo, em ordem alfabética, sem nenhum outro critério. Você descansa e a gente rala, para que você descanse ainda mais. Ah! Pensando bem, qual seria a graça se a vida fosse um eterno domingo, certo?

Bardo, Falsa Crônica de Algumas Verdades, de Alejandro González Iñárritu

lejandro González Iñárritu parece continuar firme em seu propósito de não mais tolerar as delicadezas cínicas que sustentam o mundo. Em “Bardo, Falsa Crônica de Algumas Verdades”, Iñárritu personifica muitas das neuroses não apenas do gênero humano, mas das Américas, da história do continente americano, da glória e do desajuste de ser artista numa era de violências perpetradas das mais diversas maneiras, das mensagens que condenam, das palavras que matam. El Negro, como é conhecido em Hollywood, já conta cinco Oscars no currículo e este seu trabalho mais recente — pleno de toda a originalidade e de todos os maneirismos pelos quais a Academia costuma se enamorar — parece que vai juntar-se aos outros homenzinhos dourados do mexicano. Com seu 13° filme, o diretor inclina-se a escancarar um pouco mais seu choque frente à ignorância maciça que rege nossos dias, espraiada pelos campos mais insólitos e mais urgentes. Combinando o lirismo agridoce e niilista de “Biutiful” (2010) às iluminações acerca da pobreza da arte nas sociedades pós-modernas, como o exposto em “Birdman ou (A Inesperada Virtude Da Ignorância)” (2014), e sem deixar de lado as experimentações que bem o caracterizam, caso de “O Regresso” (2015), Iñárritu não tem pudor nenhum de escarafunchar as chagas nunca cicatrizadas dos Estados Unidos. Há em boa parte dos 160 minutos de projeção metáforas sobre o que é ser chicano para além dos domínios do Rio Grande, mas este é um relato pessoal também. Silverio Gacho, o bardo do título, é um alter ego muito bem pesado de El Negro — que incorporou o apelido até como um meio de autoafirmação —, e malgrado juntem-se ao roteiro, de Iñárritu e Nicolás Giacobone uma legião de personagens, Silverio, atuação irretocável de Daniel Giménez Cacho, resume tudo quanto se precisa saber a respeito de El Negro, da vida, de seu cinema. Do mundo e de sua feiura, indizível, mas ainda assim doce.

Enola Holmes 2, de Harry Bradbeer

O roteiro de Harry Bradbeer, escrito em parceria com Jack Thorne, se esmera por cristalizar a figura da mocinha, apresentada ao cinema por Bradbeer em 2020, com texto solo de Thorne, como uma personagem capaz de merecer uma franquia para chamar de sua depois dos sete livros de Springer (e contando). Já nas primeiras cenas, Millie Bobby Brown deixa muito claro quem é a estrela aqui, o que, convenhamos, não é tão difícil frente à atuação quase mecânica de Henry Cavill, o primogênito dos Holmes. Enola está numa quadra tensa de sua incipiente carreira: decidiu encampar a atividade detetivesca, para a qual tem, sim, alguma vocação — e o desempenho de Brown faz com que o espectador compre a ideia —, mas, por óbvio, esbarra em obstáculos de maior ou menor importância, e o gênero feminino, por estranho que pareça, está na segunda categoria.

Glass Onion: Um Mistério Knives Out, de Rian Johnson

Aludindo a uma canção dos Beatles, o roteiro de Johnson ilumina as muitas camadas aparentemente translúcidas das relações humanas, hábeis em filtrar toda a luz que lhes possa atravessar e vertê-la numa energia pouco benfazeja. Como não poderia deixar de ser, o diretor segue reverenciando — de um modo bastante original, que se diga — Agatha Christie (1890-1976), sem prejuízo dos trechos cômicos que se prestam a um tempero bem dosado para uma narrativa saborosa, estilo de que a Dama do Crime decerto não se ressentiria. A exemplo do que se denota do filme que abre a franquia, Johnson perturba o seu tanto a ordem do estabelecido no gênero e vive transfigurando o enredo, sem importar muito quem fará o quê, mas a que altura da história se vai chegar ao assassino, que a propósito, ainda não existe.

O Desconhecido, de Thomas M. Wright

“O Desconhecido” é um filme singular. Evitando abusar da violência, Thomas M. Wright, o diretor-roteirista, escancara situações do expediente policial que o público leigo nem sonha serem possíveis. Tentando encontrar alguma resposta minimamente sensata que aponte uma justificativa para a degradação moral em que mergulhamos todos há algum tempo, Wright compõe uma narrativa ligeiramente farsesca, entre a sátira e o ensaio, sobre policiais que fazem o que lhes autoriza a lei — ou seja, muito pouco — na intenção de levar a cabo a investigação de um assassinato. Uma vez que se dão conta de que observar todos os ritos legais é, mais do que inútil, contraproducente, um deles em especial aposta a última ficha, numa manobra arriscada que pode redundar em derramamento de sangue, começando pelo seu. O texto de Wright prima pela sutileza, mas nunca se deixa levar pela ambiguidade fácil. Aqui, ninguém fica muito bem no papel de mocinho; entretanto, cada personagem desempenha o papel que dele se espera, sem muita margem para grandes tergiversações.

O Milagre, de Sebastián Lelio

Religião e fé são variações de um mesmo tema, que alcança ainda o misticismo e, refinando-se um pouco mais a perspectiva, as relações entre Deus e o homem. Se a natureza divina se faz presente em rigorosamente todos os seres, animados ou inanimados, racionais ou não, como pensou Spinoza, o Criador seria também capaz de apresentar-se sob uma forma curiosamente ambígua, juntando num único ser a constituição sem falhas que o difere de qualquer outra entidade e a matéria, perecível e dúbia, que conhecemos tão bem. O chileno Sebastián Lelio tem tarimba em descrever situações nos mais matizados graus de incômodo. Em “O Milagre” (2022), Lelio resolve encampar novos e indigestos pontos de vista, desta feita voltadas a uma das controvérsias mais frutíferas da civilização. O diretor mira Deus e de que maneira certos homens O veem, explicitando a confusão deliberada em torno da necessidade de se guardar a fé e de se estar sempre atento aos propósitos nada ingênuos que visam a manter aceso o interesse nas coisas do Altíssimo.

Informações Revista Bula


Cena de Sideral, que aparece entre pré-indicados em curtas-metragens no Oscar - Reprodução/YouTube
Cena de Sideral, que aparece entre pré-indicados em curtas-metragens no Oscar Imagem: Reprodução/YouTube

A lista divulgada hoje pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas anunciou os filmes e curtas-metragens pré-selecionados ao Oscar 2023.

São dois representantes do Brasil: o curta-metragem de ficção “Sideral”, de Carlos Segundo, e a coprodução brasileira “O Território”, parceria com Estados Unidos e Dinamarca, entre os documentários.

O filme brasileiro “Marte Um” está fora da disputa de “Melhor Filme Internacional”. A obra de Gabriel Martins não apareceu entre as obras divulgadas hoje. Os indicados serão anunciados oficialmente em 24 de janeiro, e a premiação está marcada para 12 de março. Confira a lista completa:

Melhor filme estrangeiro:

Melhor documentário

Melhor maquiagem

Melhor trilha sonora original

Melhor canção original

Melhor curta documentário

Melhor curta animado

Melhor curta-metragem live action

Informações UOL

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