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Por Luciano Trigo

Um dos sinais mais tristes da degradação moral e da sordidez espiritual do nosso tempo é a exploração política da morte pelas carpideiras ideológicas. Como urubus em cima da carniça, nos últimos 10 dias a lacrosfera se mobilizou em peso nas redes sociais e na grande mídia para tentar jogar no colo do governo a responsabilidade pelo desaparecimento do indigenista Bruno Araújo Pereira e do jornalista britânico Dom Phillips no Vale do Javari, na Amazônia.

Parecia revolta? Era apenas vigarice. A indignação, como sempre, foi seletiva: a tragédia só interessava como pretexto para exibir virtude, ficar bem na fita e sabotar o adversário de sempre.

Protestavam e derramavam lágrimas de crocodilo, mas no íntimo estavam comemorando. Porque, sempre que uma tragédia pode ser usada contra o governo e capitalizada politicamente, eles festejam, com mal disfarçado entusiasmo. Só querem palco, tribuna e palanque para ostentar superioridade moral e exercer seu ativismo.

Que tristeza.

Pois bem, para frustração dessa turma, ontem foi revelado que Dom e Bruno foram assassinados não por garimpeiros, nem por madeireiros, nem por desmatadores, nem pela policia fascista e genocida (isso, então, seria motivo de orgasmos), mas a mando de um narcotraficante: o peruano Rubens Villar Coelho, também conhecido como “Colômbia”.

Aparentemente, a presença do jornalista e do indigenista estava prejudicando o transporte de cocaína na rota entre o Brasil e o Peru. Motivo suficiente para os dois serem amarrados em uma árvore, torturados, assassinados e eviscerados. É a lei do tráfico, e não é apenas em regiões remotas da Amazônia que essa lei impera.

E agora? O que farão e dirão os justiceiros sociais? Por honestidade moral e intelectual, deveriam demonstrar indignação contra o narcotráfico que domina a região sem qualquer preocupação com a vida humana, muito menos com o meio ambiente. Mas, como escrevi neste artigo, contra traficante, no Brasil, ninguém faz protesto.

Fosse sincera a indignação contra a tortura e o assassinato de Dom e Bruno, todos aqueles que fazem do gesto de apontar o dedo uma razão de viver demonstrariam agora revolta contra o narcotráfico, exigindo justiça e combate implacável aos criminosos. Ou não?

Quando a indignação é seletiva, não é de indignação que se trata, apenas de estratégia e método.

O ator famoso, a funkeira empoderada, o imitador de foca, o fotógrafo premiado, o índio de passeata, o antropólogo esquerdopata, o jornalista checador de meme, os exilados em Paris, o youtuber de pronome neutro e todos aqueles que fizeram dos desparecidos pretexto para a militância do ódio do bem: será que algum deles dirá uma palavra sequer contra o tráfico? Podem esperar sentados: nunca disseram, não será agora que dirão.

Estranhamente, nessas horas, os indignados se recolhem a um silêncio quase reverente. Talvez porque, politicamente, estejam do mesmo lado do mandante dos assassinatos. Ou são partidos e governos de direita que a indústria da droga financia na América Latina? Ou são de direita os chamados “narcogovernos” da Bolívia, da Colômbia, da Venezuela e do México? Que partidos e governos são apoiados pelas Farc? São de direita?

Para ilustrar a relatividade moral dessa gente, basta lembrar o caso das três crianças de Belford Roxo barbaramente torturadas e assassinadas por traficantes, em dezembro de 2021, tema deste artigo.

Pobres e negros, três meninos foram executados por causa de uma gaiola de passarinho. Onde estavam os virtuosos que nos últimos dias demonstraram tanta indignação com o desaparecimento de Dom e Bruno? Não derramaram uma lágrima, não disseram um “ai”.

Desconfie de quem só protesta contra mortes que podem ser capitalizadas politicamente. Quando a indignação é seletiva, não é de indignação que se trata, apenas de estratégia e método.

Tivessem sido as crianças de Belford Roxo assassinadas por policiais, aí sim elas seriam dignas da revolta da militância progressista. Mas os assassinos eram traficantes, então os virtuosos ficaram em silêncio, fazendo de conta que não era com eles. Negras ou brancas, vidas não importam quando quem as tira é o dono da boca que se frequenta, ainda que simbolicamente.

De maneira similar, tivessem sido outros os assassinos, Dom Phillips e Bruno Pereira renderiam protestos até a eleição. Faixas e cartazes com a pergunta “Quem matou Dom e Bruno?” seriam exaustivamente exibidos em horário nobre. Não faltaria gente insinuando que o crime foi encomendado pelo próprio presidente.

Mas, como agora se sabe que quem mandou matar Dom e Bruno foi um traficante, subitamente o mandante do crime deixou de ter importância. A mídia deixará de lado esse “detalhe” para tentar espremer os últimos dividendos do caso, depois vai abandonar o assunto. (Você viu manchetes destacando a identidade e a ocupação do mandante? Nem eu.)

Como foi um traficante que mandou torturar, eviscerar e matar Dom Phillips e Bruno Pereira, não haverá mais como capitalizar politicamente a tragédia. De novo, não foi dessa vez. As carpideiras ideológicas vão ter que torcer por outros cadáveres para explorar.👍🏻👊🏻🇧🇷


É nítido que o ex-presidiário Lula tem evitado aparecer na rua. A situação já tem até outro nome, pelo fato de que o PT intitulou de “ambientes não controlados”.

Em todas as suas aparições públicas, o petista tem dado preferência a eventos com rígido controle de acesso de público, resultado em plateias totalmente entusiásticas, com risco zero de contestação ou animosidade que desmintam a sensação de vitória iminente de Lula, quem sabe ainda no primeiro turno.

O partido, obviamente, tem a explicação pronta para que Lula não encare as ruas, e que vai de questões de segurança até o receio de algum ato público acabar caracterizado como propaganda eleitoral antecipada – como se um discurso para uma plateia puramente chapa-branca não pudesse também se encaixar nesse conceito. Mais ainda: o PT e Lula garantem que, a partir de 15 de agosto, quando a campanha eleitoral começar oficialmente, o hoje pré-candidato irá “viajar o Brasil” e “conversar com o povo brasileiro”. No entanto, mesmo na hipótese de que não haja um “medo das ruas” da parte do petista, há uma outra relutância que deveria ser vista com muita preocupação por todos os que partilham da preocupação com o futuro da economia brasileira.

Os grandes problemas atuais da economia nacional – inflação, desemprego, juros altos, real desvalorizado, saúde fiscal deteriorada – não serão resolvidos com aquilo que Lula vem prometendo; pelo contrário, eles serão agravados 

Reportagem do jornal O Estado de S.Paulo publicada em 28 de maio mostra que Lula tem se recusado terminantemente a encontrar empresários para expor sua plataforma econômica. Membros da pré-campanha de Lula afirmaram que o petista já foi procurado para conversas com integrantes do mercado financeiro, mas já disse que não participará de nenhum evento no qual ele possa ser questionado abertamente sobre suas propostas para a economia. Em vez disso, ele acaba enviando emissários, como empresários amigos e ex-ministros. Oficialmente, o argumento é o de que o plano de governo ainda não está pronto; mas, neste caso, faltou combinar com o próprio Lula, que já anunciou todo tipo de loucura quando está diante de plateias que aplaudam entusiasticamente tudo o que saia de sua boca.

Afinal, o ex-presidente já prometeu derrubar o teto de gastos, revogar (ou ao menos “revisar” a reforma trabalhista de 2017 (criação de pessoas com “mentalidade escravocrata”, chegou a afirmar), interferir na política de preços da Petrobras para “abrasileirar” o preço dos combustíveis, e frear ou até mesmo revisar privatizações. Esse tipo de promessa, aliás, não é feito apenas diante de apoiadores; aparece dia sim, dia também nas mídias sociais de Lula, em artigos de jornal como o assinado por Guido Mantega no início deste ano, e até mesmo em alguns eventos com empresários aos quais o ex-presidente envia representantes. Um caso emblemático foi o de um jantar ao qual Lula mandou a presidente do PT, Gleisi Hoffmann – participantes descreveram o conteúdo como “horroroso”, remetendo à “nova matriz econômica” que devastou o Brasil no governo Dilma Rousseff.

Há quem diga que a retórica do atraso se destina apenas a “eletrizar a militância”, e que o programa de governo será diferente, como aconteceu com o “Lulinha paz e amor” de 2002 – afinal, todos os formadores de opinião que se esforçam diariamente em descrever Lula como um “moderado” teriam dificuldades em sustentar seu discurso diante de cada fala que anuncia a perspectiva de uma guinada tão radical à esquerda. Mas Lula não tem necessidade de pregar para convertidos. O mais provável é que o ex-presidente e seu partido estejam expondo suas reais convicções num raro rasgo de sinceridade, contando talvez que outra parte do eleitorado apenas associe a figura de Lula a um tempo de bons indicadores econômicos, sem refletir muito sobre como esses indicadores foram conquistados, sobre como Lula recebeu uma “herança bendita” de FHC e aproveitou um bom momento internacional, e sobre como o desastre veio assim que o PT implantou sua própria política econômica. Mas disso tudo os empresários e representantes do mercado financeiro – ao menos aqueles que não foram “amigos do rei” no passado, ou não tenham se deixado cegar pela ideologia – lembram muito bem, e isso pode explicar a relutância de Lula em se encontrar com eles.

Os grandes problemas atuais da economia nacional – inflação, desemprego, juros altos, real desvalorizado, saúde fiscal deteriorada – não serão resolvidos com aquilo que Lula vem prometendo; pelo contrário, eles serão agravados. Isso não é mera hipótese: já foi realidade menos de uma década atrás, quando o programa gastador e estatizante do petismo foi implantado e o resultado foi a maior recessão da história do país. Mas Lula não quer ter de ouvir isso, pois ele não teria resposta satisfatória a dar. É muito mais simples esconder-se e contar com a memória curta do brasileiro em outubro.

Informações Terra Brasil Notícias


(Por J.R. Guzzo, publicado no jornal Gazeta do Povo em 30 de maio de 2022)

Esse tipo de anomalia germina nos lixões mentais onde se cultivam e se colhem ideias vadias — nas escolas secundárias e nas universidades

A linguagem neutra tem espaço nas universidadesA linguagem neutra tem espaço nas universidades | Foto: Reprodução 

A linguagem do “todes” e do “iles”, que tanto prospera hoje em dia nas cerimônias de formatura de universidades e no credo ideológico de escolas de gente rica, é antes de tudo um erro de português — seria mais ou menos como ensinar, na aritmética, que 2 + 2 são 22, ou que o ângulo reto ferve a 90 graus. Não há, realmente, como sair disso: usar o feminino e o masculino é um requisito fundamental do português, idioma oficial do Brasil e, mais do que tudo, a língua que o povo brasileiro fala no seu dia a dia, de maneira livre, natural e sem nenhuma imposição vinda de cima ou de fora. O cidadão fala o português da maneira como aprende em casa, como lhe vem à cabeça e como está acostumado a falar em sua vida: não pode, simplesmente, ser obrigado a falar de um modo diferente. Querer impor o contrário é uma violência. Acima de tudo, é contra a lógica. Nossos catedráticos e outros altos pedagogos querem que os bebês sejam chamados de “menines”. Tudo bem: mas é menino ou menina? Xeque-mate.

Fica, desde logo, um problema insolúvel: por acaso as escolas e as universidades vão passar a reprovar, nos exames, os alunos que escreverem ou falarem o português correto? Os devotos da “abolição e gêneros” não admitem que se chame uma mulher de “ela” e um homem de “ele”, mas nos manuais de gramática portuguesa está escrito que é isso, exatamente isso, o que as pessoas devem fazer, se quiserem se expressar no idioma nacional. Como é que fica, então? Os militantes da “linguagem neutra” vão chamar o Ministério Público para processar criminalmente os infratores por atos contra a democracia, o igualitarismo e as “causas identitárias”? Ou, pior ainda, por “homofobia” — crime “equivalente ao racismo”? Será que vão apresentar um projeto de lei no Congresso para impor a sua nova língua à população?

Informações Revista Oeste


A fidelidade a toda prova ao grupo carlista de um dos maiores líderes políticos do interior da Bahia, o ex-prefeito feirense José Ronaldo de Carvalho (União Brasil), o credencia à preferência a ser o vice na chapa de ACM Neto (União Brasil) para governador da Bahia.
Visto sempre como aliado de primeira hora, José Ronaldo é tão fiel ao partido, o mesmo em toda sua trajetória política, quanto ao grupo carlista, estando ao lado do ex-governador ACM em todos os momentos de sua trajetória política quanto agora é visto como fiel escudeiro de ACM Neto em sua mais intensa disputa eleitoral.
A demonstração de fidelidade de José Ronaldo ao ex-prefeito de Salvador ultrapassa as barreiras dos limites entre a razão e a emoção. Foi assim que, sem pestanejar, abriu mão de cumprir seu quarto mandato como prefeito de Feira de Santana, atendendo convocação de última hora para substituir ACM Neto na disputa pelo Governo do Estado, em 2018, e foi ao sacrifício, mesmo consciente das dificuldades que enfrentaria para galgar êxito.
Além de marcar presença nas andanças de ACM Neto pelo interior da Bahia, desde o ano passado, José Ronaldo também é visto como um de seus principais articuladores políticos e um fiel escudeiro. Passou a caminhar lado a lado com o ex-prefeito de Salvador, estando mais presente na vida do pré-candidato a governador que o de sua própria família ao longo dos longos últimos meses.
O próprio ACM Neto reconhece as qualidades inquestionáveis de José Ronaldo, tanto a ponto de considerá-lo qualificado a ocupar qualquer cargo na vida pública, inclusive de vice ou mesmo governador. Entretanto a decisão pela indicação do candidato a vice, que por motivos que só ele conhece mas não se arvora até o momento em compartilhar, certamente empenaria para o lado do ex-prefeito feirense se ouvir o clamor popular. (29.05.22)

*Por Sem Censura


Com discurso de amor livre e jeito mimado, personagem de Jesuíta Barbosa se parece com muitos jovens “revolucionários” da atualidade

Por Kelly Miyashiro / VEJA

Jesuíta Barbosa como Jove em Pantanal
Jesuíta Barbosa como Jove em Pantanal Reprodução/TV Globo

Rico, mimado, branco, adepto do amor livre com as mulheres, inimigo do estereótipo da masculinidade e cheio de ideais progressistas. A descrição é de Jove, personagem interpretado por Jesuíta Barbosa no remake de Pantanal, da Globo. Para atualizar o papel vivido por Marcos Winter na trama originalmente escrita por Benedito Ruy Barbosa, a novela das 9 não economiza em colocar características típicas de um jovem “esquerdomacho” atual no filho de José Leôncio (Marcos Palmeira) na nova versão.

Com um texto equilibrado e sutil, Bruno Luperi, autor da adaptação, alfineta o bolsonarismo com Tenório (Murilo Benício), ao mesmo tempo em que debocha de comportamentos da esquerda com o amado de Juma (Alanis Guillen). Bem longe do Pantanal da trama, o herdeiro legítimo de José Leôncio passou muitos anos longe do pai, sendo criado pela família de Madeleine (Karine Teles) no Rio de Janeiro, onde estudou em boas escolas e se tornou um jovem moderno.

O “esquerdomacho” é um conceito popular disseminado nas redes sociais para denominar um jovem de esquerda que prega o amor livre, costuma fotografar mulheres nuas para “empoderá-las” e ficar com elas. Ele geralmente tem dinheiro, passa uma imagem de não ser tóxico, machista e muito menos violento, além de apoiar a luta feminista, e cultivar um jeito sensível e intelectual que conquista as mulheres. É como Jove, por exemplo, se comportou ao fugir de qualquer compromisso com Naiara (Victoria Rossetti) e Guta (Julia Dalavia), enquanto tenta “educar” Juma na história.

Ao longo da trama, o personagem de Jesuíta não come carne (o que já mudou) por ser contra os maus-tratos aos animais no agronegócio; namora com Naiara, se envolve com Guta e se apaixona por Juma; prega contra a masculinidade tosca e o machismo; tenta convencer os outros de seus ideais; e vive sustentado pela pensão do pai. O tempo inteiro, o mocinho preza pela liberdade de ser quem quiser, enquanto foge de qualquer tipo de responsabilidade, seja emocional ou financeira.

No capítulo de terça-feira, 24, Mariana (Selma Egrei) teve um embate com o neto. A ricaça em processo de falência ordenou que o filho de Madeleine comece a se preocupar com a herança do pai. Após dizer que não estava preocupado com dinheiro, recebeu uma invertida. “Então, acho bom você procurar um emprego, né? Para pagar suas contas”, disse a avó, sem paciência. A fala foi o suficiente para um pequeno surto do livre Jove, que, diante das opções, milagrosamente retornará à fazenda de Zé Leôncio para se tornar um verdadeiro pantaneiro.

Como na história original, o herdeiro deve preferir se adaptar à vida no campo em meio à pecuária do que se virar sozinho na metrópole carioca. E com o mimado, mais uma vez, Pantanal cumpre sua missão em causar furor nas redes sociais com uma chuva de comentários repreendendo o comportamento controverso do sobrinho de Irma (Camila Morgado).


Por Felipe Moura Brasil 

Colunista do UOL

Os autores da ação em que Sergio Moro foi citado para explicar os prejuízos da Petrobras e da economia do país, como se tivessem sido causados pelo combate à corrupção e não pelos corruptos, são os deputados do PT Rui Falcão, Erika Kokay, Natalia Bonavides, José Guimarães e Paulo Pimenta.

Todos eles, como mostrei no artigo anterior, votaram a favor das mudanças na Lei de Improbidade Administrativa, agora usadas até por Arthur Lira e Jair Bolsonaro para se livrarem de acusações por desvios cometidos em Assembleia e gabinete, respectivamente. Também defenderam, claro, os jabutis inseridos no pacote originalmente anticrime, proposto por Moro.

No Congresso ou na Justiça, o PT aplica o slogan da campanha de Lula, “Vamos reescrever uma nova história”, aquele que, de um lado, confessa a intenção do partido de trocar fatos incômodos por narrativas e, do outro, nem sentido faz, porque só se escreve uma nova história ou se reescreve uma já existente. Compreende-se pelos atos, porém, que os petistas tentam reescrever a história do petrolão, enquanto afrouxam a legislação para turbinar a impunidade geral.

2.

A história original foi legitimada pela auditoria técnica do Tribunal de Contas da União em relatório de 7 de janeiro de 2022, que embute ainda um parecer anterior da Secretaria Extraordinária de Operações Especiais em Infraestrutura (Seinfra Operações) do TCU.

Como diz o item 251, “não se sustenta a premissa de que a atuação dos integrantes da Operação Lava Jato causou a situação financeira atual do Grupo Odebrecht“. 

“Não há indícios que suportem tal ilação. Ao contrário, a situação financeira atual do Grupo decorre da prática delituosa e do seu modelo de negócio adotado, envolvendo ‘caixa 2’, por pelo menos 30 anos, conforme dito pelo próprio então Presidente do Conselho de Administração, Sr. Emílio Odebrecht.”

Item 252: 

Os órgãos de investigação do Estado brasileiro, em razão das competências e deveres legais, não podem se furtar a investigar os crimes cometidos por empresas do Grupo Odebrecht simplesmente porque, como consequência de tais investigações, poderia ser afetada a situação financeira e a arrecadação tributária desse ou dos outros grandes grupos empresariais envolvidos nas fraudes. 

Quanto aos prejuízos que decorrem das fraudes investigadas pela Operação Lava Jato, entende-se que tais valores estão contemplados, pelo menos em parte, nos acordos de leniência e colaboração, já que não foi calculada a integralidade do dano ao erário.”

Estarem contemplados nos acordos significa que os valores são ressarcidos aos cofres públicos pelas empresas que, confessadamente, participaram do esquema.

3.

Em forma de cronologia, trago apenas alguns exemplos, incluindo episódios relacionados:

Em 21 de dezembro de 2016, a Odebrecht e seu braço petroquímico, Braskem, assinaram um acordo internacional, comprometendo-se a pagar, respectivamente, R$ 3,82 bilhões e R$ 3,1 bilhões às autoridades do Brasil, dos Estados Unidos e da Suíça.

Em 9 de julho de 2018, o governo brasileiro assinou um acordo de leniência com a Odebrecht, esclarecendo que, daqueles R$ 3,82 bilhões, a construtora pagaria R$ 2,7 bilhões, ao longo de 22 anos, aos cofres públicos do país, como informou a Advocacia-Geral da União (AGU).

Desse total, R$ 900 milhões são referentes ao montante de propina paga pelo grupo Odebrecht a cerca de 150 agentes públicos; R$ 1,3 bilhão, ao lucro obtido nos contratos celebrados mediante corrupção; e R$ 442 milhões, à multa.

Em 29 de junho de 2021, a Petrobras anunciou que ultrapassou R$ 6 bilhões em recursos recuperados. Vale a pena resgatar o comunicado oficial, na íntegra, não só pela sua essência, mas também pelos detalhes finais:

Recebemos no final de junho a quantia de R$ 271,1 milhões referente ao acordo de leniência celebrado pela Technip Brasil e Flexibras(empresas do Grupo Technip). Assim, o total de recursos devolvidos para a companhia em decorrência de acordos de colaboração, leniência e repatriações ultrapassou o montante de R$ 6 bilhões. Somente este ano, mais de R$ 1 bilhão foi recuperado pela companhia. 

O acordo de leniência foi firmado com a atuação conjunta entre o Ministério Público Federal, a Controladoria-Geral da União (CGU), a Advocacia-Geral da União (AGU) e o Departamento de Justiça Norte-Americano (DoJ). A Petrobras já havia recebido as duas primeiras parcelas do acordo, em julho de 2019 e em junho de 2020, que somaram cerca de R$ 578,3 milhões. 

Esses ressarcimentos decorrem da condição de vítima da Petrobras nos crimes investigados no âmbito da Operação Lava Jato. Reafirmamos nosso compromisso de adotar as medidas cabíveis, em busca do adequado ressarcimento dos prejuízos decorrentes que lhe foram causados. A companhia atua como coautora do Ministério Público Federal e da União em 21 ações de improbidade administrativa em andamento, além de ser assistente de acusação em 79 ações penais relacionadas a atos ilícitos investigados pela Operação Lava Jato.”

Na verdade, em razão das mudanças na Lei de Improbidade Administrativa (LIA) – aprovadas por parlamentares do PT, da base bolsonarista e do Centrão, entre outros da velha política -, a Petrobras começou a perder o protagonismo em ações da Lava Jato. 

Em 25 de novembro de 2021, a companhia seria rebaixada à posição processual de “simples interessada” em ação de improbidade ajuizada por ela e pela União contra empreiteiras (Mendes Júnior, Mendespar, KTY Engenharia, Andrade Gutierrez) e seus executivos. O processo trata do pagamento de propina ao ex-diretor de abastecimento da Petrobras Paulo Roberto da Costa, para fraude em processos licitatórios.

“Por mais que possa interessar à Petrobras a reparação de eventual lesão ocasionada pelo suposto ímprobo, o novo regramento retirou do embargante os poderes necessários para continuar protagonizando posições de legitimação ativa na ação por ato de improbidade”, afirmaria a juíza Luciana da Veiga Oliveira, em decisão de não conhecer do recurso da companhia pela renovação do bloqueio de bens da Andrade Gutierrez.

“Assim, embora a estatal continue legitimada à ação civil pública autônoma (instrumento apto à pretensão específica da reparação cível ao erário), no contexto do modelo atual de persecução sancionadora-administrativa exerce papel de simples interessada, vítima do suposto evento danoso”, concluiria a juíza.

Isto porque foi revogado pela Lei 14.231/2021 o parágrafo 3º do artigo 17 da LIA, segundo o qual a pessoa jurídica interessada na ação de improbidade poderia atuar ao lado do autor, desde que isso se afigurasse útil ao interesse público. Agora, o mesmo artigo indica que a ação para a aplicação das sanções será proposta pelo Ministério Público, como o único e exclusivo legitimado à persecução sancionadora.

Mais uma ajudinha do sistema, no Congresso, às empreiteiras do petrolão.

Em outra ação de improbidade, que cobra cerca de R$ 3 bilhões como ressarcimento de valores obtidos ilicitamente nos contratos com a petrolífera, a Petrobras ainda aguarda decisão do STJ sobre manter (como decidiu a 3ª Turma do TRF-4) ou não (como havia decidido a 11ª Vara Federal de Curitiba) Odebrecht, Construtora Norberto Odebrecht e Andrade Gutierrez como rés.

Já nos Estados Unidos, sem manobras, tudo parece andar mais rápido.

Em 12 de outubro de 2021, o Departamento de Justiça dos EUA (DoJ, na sigla em inglês) anunciou que o ex-presidente da Braskema José Carlos Grubisich foi condenado a 20 meses de prisão no país. O motivo: Grubisich e outros funcionários da Braskem e da Odebrecht criaram e usaram um fundo secreto de recursos para subornarfuncionários públicos e partidos políticos do Brasil, garantindo contratos com a Petrobras.

Operado entre 2002 e 2014, sobretudo ao longo do governo do PT, o esquema de pagamento de propinas foi denunciado no âmbito da Lava Jatopor delatores como Paulo Roberto Costa e o doleiro Alberto Youssef. “Como parte do esquema, Grubisich e seus parceiros desviaram aproximadamente US$ 250 milhões da Braskem [mais de R$ 1,3 bilhão, no dia do anúncio] para um fundo secreto, que Grubisich e os demais formaram por meio de contratos fraudulentos e empresas de fachada offshore controladas secretamente pela Braskem”, disse o comunicado do DoJ.

A decisão contra Grubisich, que admitiu os subornos durante o processo, incluiu o confisco de US$ 2,2 milhões [R$ 12,1 milhões] e multa extra de US$ 1 milhão [R$ 5,5 milhões].Total recuperado, no câmbio daquele dia: R$ 17,6 milhões.

Em 17 de março de 2022, o Departamento de Justiça dos EUA e o FBI divulgaram na conta oficial de Twitter do DoJ a oferta de uma recompensa de até US$ 5 milhões (cerca de R$ 24 milhões, naquele momento) a quem fornecer informações que levem à identificação de destinatários de propinas da Odebrecht e da Brasken.

Aprovado pelo Congresso americano e administrado pelo Gabinete de Terrorismo e Inteligência Financeira do Departamento do Tesouro, o “Programa de recompensas de Recuperação de Ativos da Cleptocracia” tem como meta “identificar e recuperar ativos roubados, confiscar os lucros da corrupção e, quando apropriado e viável, devolver esses bens roubados ou valores ao país prejudicado pelos atos de corrupção”.

Sergio Moro comentou a postagem do DoJ: “Vergonhoso: enquanto o Brasil joga pelo ralo o legado da Lava Jato, inclusive tratando com naturalidade a candidatura de um ex-presidente que chegou a ser condenado por corrupção, os EUA oferecem US$ 5 mi por pistas que levem ao dinheiro desviado. Essa tarefa era para ser nossa.”

Em 19 de abril de 2022, a Quinta Turma do STJ brasileiro pelo menos manteve a condenação do petista José Dirceu, entre outros réus, no âmbito da Lava Jato, fixando em 27 anos e 1 mês de prisão, em regime inicial fechado, a pena do ex-ministro do governo Lula e braço-direito do ex-presidente. Dirceu recebeu mais de R$ 15 milhões de propina e lavou mais de R$ 10 milhões, de acordo com documentos do processo que apurou condutas ilícitas de empresas privadas – entre elas, a Engevix Engenharia -, agentes políticos, funcionários públicos e integrantes da Petrobras.

Curiosamente, no mesmo dia 24 de maio de 2022 em que veio à tona a citação de Moro na ação do PT, o MPF firmou um acordo de leniência com a empresa de trading company Glencore, também no âmbito da Lava Jato. Como noticiou O Globo:

“A organização, que opera a compra e venda de petróleo e derivados no mercado externo, reconheceu atos de corrupção por meio de pagamentos indevidos a funcionários da Petrobras, com o auxílio de intermediários, para ser favorecida nas transações. Com isso, terá que pagar diretamente à estatal o valor de US$ 39,6 milhões [mais de R$ 190 milhões, no câmbio do dia]. 

(…) O acordo prevê que o pagamento do valor milionário seja efetuado em parcela única, diretamente à Petrobras e em até 30 dias após a homologação do acordo pela 5ª Câmara de Combate à Corrupção do MPF (5ª CCR).”

4.

Encerrada a breve cronologia de exemplos, volto à auditoria técnica do TCU.

Prossegue o relatório, nos item 252 e 253: “E no caso dos valores constantes de tais acordos, não é permitida a sua inclusão na negociação com a AGU em relação aos créditos tributários, conforme normativo da própria AGU. Assim, considerando que [nem] sequer há indícios de perda de arrecadação tributária, não se sustenta a alegação de ocorrência de dano ao erário decorrente da atuação dos Procuradores ou do ex-juiz Sergio Moro e muito menos foi estabelecido o devido nexo causal, não existem elementos para conhecer a representação nesse ponto.”

Mais adiante, no item 260, o ponto é novamente enfatizado, assim como a responsabilidade da Odebrecht pela situação financeira decorrente dos próprios crimes:

“Quanto à prática do lawfarenão há nos autos qualquer indício de transação tributária envolvendo o Grupo Odebrecht nem, repita-se, que a situação financeira atual do Grupo Odebrecht tenha sido causada por Procuradores do MPF em Curitiba/PR ou pelo ex-juiz Sergio Moro. Também não há indícios de utilização dos instrumentos jurídicos, por parte de Procuradores e do ex-juiz, para perseguir, de forma ilegal e propositada, o Grupo Odebrecht. Ao contrário, o modelo de negócio adotado pelo Grupo, baseado no cometimento de fraudes, corrupção e ‘caixa 2’, por muito mais de uma década, é que o levou à situação atual de recuperação judicial e a própria condição de investigado.”

O item 261 mostra como a existência do petrolão foi atestada por diversões órgãos, para muito além da Lava Jato.

“Em adição, a CGU/AGU, o TCU, o CADE, a Polícia Federal, a CVM, a Petrobras e a Receita Federal do Brasil, a partir de suas próprias investigações e elementos compartilhados, também se utilizando dos instrumentos legais, chegaram à conclusão de que houve o desvio de bilhões de reais por meio de fraudes em licitações públicas envolvendo as empresas cartelizadas. E veja que os valores dos danos que estão sendo calculados pelo TCU são muito maiores do que aqueles montantes apurados pelo MPF. 

Negar o exercício de tais competências desses órgãos, e as consequências decorrentes das investigações, seria atentar contra a própria Constituição Federal e legislação vigentes. Assim, da mesma forma que os Procuradores ou o ex-juiz federal, os servidores públicos daqueles órgãos também não podem ser considerados responsáveis pelas dificuldades enfrentadas pelos grupos empresariais envolvidos nas fraudes. Não se trata, portanto, de perseguição ou abuso dos instrumentos jurídicos contra o Grupo Odebrecht, mas da assunção das consequências dos ilícitos cometidos.”

O item 262 registra que a roubalheira correria solta sem a Lava Jato e os demais órgãos:

“Como registrado anteriormente, é viável supor que sem a atuação da OLJ e dos demais órgãos citados não se conheceria o esquema cartelizado, não teriam sido realizadas as investigações nem teriam sido obtidos os elos para identificação dos responsáveis e para quantificação dos montantes desviados.”

O item 263, fundamental, indica a concorrência desleal das empreiteiras mancomunadas com o Poder Público, por meio de suborno, em relação às empresas que atuam honestamente no mesmo mercado de trabalho, também prejudicado.

“Caso não houvesse as investigações por aqueles órgãos, a situação financeira do Grupo Odebrecht e dos demais grupos empresariais possivelmente seria melhor que a atual, em detrimento de outras empresas idôneas e da eficiência do mercado, de uma forma geral. No limite de tal panorama, o cartel continuaria atuando para fraudar os procedimentos licitatórios e manipular preços, projetos inviáveis continuariam a ser construídos com dinheiro público, por preços muito acima do mercado, nenhum responsável teria sido identificado e nenhum valor teria sido ressarcido.

Ou seja: O prejuízo continuaria sendo do erário público, das empresas estatais e dos acionistas. Certamente, essa não é a melhor alternativa.

Como lembra o item 273, “a Exma. Ministra Cármen Lúcia, do Supremo Tribunal Federal, homologou os 77 acordos de colaboração dos executivos do Grupo Odebrecht, os quais confirmaram as fraudes, a operação de ‘caixa 2’, o pagamento das propinas, os prejuízos ao erário e o modelo de negócio adotado pelo Grupo por 30 anos”.

“Aliás”, diz o item 274, “o próprio TCU, divergindo dos valores calculados nos acordos de leniência e colaboração, considera que o dano causado ao erário devido às fraudes é bem maior do que os valores que foram acordados nas leniências subscritas pelo MPF, CGU e pelas empresas envolvidas, o que poderá agravar a situação financeira de tais empresas. E, ainda, em diversos casos, este Tribunal sancionou empresas, impedindo-as de contratar com a Administração Pública, bem como indisponibilizou os seus bens, incluindo os de pessoas físicas envolvidas”.

Mesmo assim, só Moro e procuradores da Lava Jato são alvos de perseguição.

Não se tem conhecimento de nenhuma reclamação contra servidores e autoridades das Instituições citadas no sentido de que, no exercício de suas obrigações e competências constitucionais, tenham contribuído para causar as dificuldades financeiras enfrentadas pelos envolvidos. Até porque, não se trata de opção, mas de obrigação de investigar e punir os responsáveis por fraudes.”

Caso contrário“, diz o item 276, apontando a eventual seletividade indesejada, “tais Instituições poderão, de forma injustificada, escolher quem deve ser investigado, sancionado ou condenado. E da mesma forma, agentes públicos e privados poderão cometer fraudes, receber propinas e causar danos ao erário sem o receio de serem responsabilizados sempre que sua situação financeira for prejudicada.”

A legitimação do “rouba mas faz”, em nome da estabilidade, é justamente o desejo dos criminosos e de seus protetores, em sua mistura de fraudes e chantagem emocional.

Por fim, “vale destacar”, como diz o item 277, “que o raciocínio segundo o qual o combate à corrupção teria acarretado a má situação financeira dos grupos empresariais atingidos pelas investigações e sanções é contrário a um compromisso internacional assumido pelo Brasil com a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE)” e, como acrescenta o item 278, “poderão ter como efeito prático a negativa de acesso do País a essa condição” (tema abordado no meu artigo “O Brasil na contramão do combate a autocratas e ricos delinquentes“).

Como disse o Sr. Drago Kos, chefe do Grupo de Trabalho Antissuborno da OCDE, citado no relatório: “enquanto a Operação Lava Jato nos deu informações tão positivas sobre a capacidade do Brasil de combater a corrupção nacional e internacional, hoje parece que alguns dos processos iniciados em 2014 estão dando marcha a ré”, “o desejo de encerrar a operação o mais rápido possível é realmente surpreendente”.

A Lava Jato já foi encerrada pelo procurador-geral da República, o “espectador” Augusto Aras, hoje mais ocupado em ofender um colega de Conselho Superior do MPF (“Vossa Excelência não é digno de respeito”) e partir para cima dele. Mas o sistema, sobretudo Lula, continua tentando reescrever a história, em busca de vingança e propaganda eleitoral.

A NEGAÇÃO DA DEMOCRACIA
15 de Maio de 2022

REVISTA OESTE

O STF abandonou sua função essencial de árbitro da Constituição e passou a agir, segundo alega, como intérprete, legislador e executor do que considera serem “os desejos da sociedade”

Circulam livremente no Brasil deste momento, numa atmosfera de alta reverência, devoção ideológica e temor à força divina, duas ideias absurdas. A primeira sustenta que o Supremo Tribunal Federal, e o resto do alto aparelho judiciário que habita o Plano Piloto de Brasília, são as forças que garantem a democracia neste país. A segunda diz que essa muralha de virtudes precisa ser defendida com urgência pela sociedade brasileira, pois estaria sendo ameaçada pelo “populismo”, a “direita” e o “governo Bolsonaro”. É uma contrafação de proporções espetaculares — e quanto mais a sua falsidade se revela, mais agressiva se torna a veneração prestada a esse embuste pela mídia, pelas elites que vivem à custa do atraso nacional e pelas classes intelectuais.

Isso se chama ditadura — sem tanque na rua e sem polícia secreta, mas ditadura do mesmo jeito

As duas colocações, como vem se tornando comum no ambiente de aberta veneração à mentira vivido hoje pelo Brasil, estão exatamente do lado contrário de tudo aquilo que mostram os fatos. O STF, na vida real, é neste momento o mais ruinoso inimigo da democracia no Brasil — porque abandonou sua função essencial de árbitro da Constituição e passou a agir, segundo alega, como intérprete, legislador e executor do que considera serem “os desejos da sociedade”. É fatal. Todas as vezes que uma corte suprema deixa de ser, mesmo por cinco minutos, um tribunal que se limita a decidir se esta ou aquela decisão é constitucional, e se intromete em qualquer outro tipo de questão, ela passa imediatamente a ser um agente da tirania. Não há ninguém acima do STF; suas decisões, quaisquer que sejam, não podem ser revistas. Se é assim, e se os ministros podem decidir sobre todas as questões que existem, o tribunal começa a governar o país sem sofrer contestação — e sem ter sido eleito para governar coisa nenhuma. Isso se chama ditadura — sem tanque na rua e sem polícia secreta, mas ditadura do mesmo jeito. De forma idêntica, os fatos comprovam que o STF persegue grosseiramente os seus inimigos políticos, põe gente na cadeia, aplica multas exorbitantes, boicota a ação do governo, exige informações em “três dias”, abre inquéritos policiais, desrespeita objetivamente a lei. Como pode se queixar, então, de estar sendo ameaçado? É ele, na prática, que ameaça as pessoas. É demente.
O STF, para usar uma expressão da moda entre a esquerda brasileira e entre os próprios ministros, está vivendo em estado permanente de “desvio de função”. Ao contrário do que pregam as bulas papais do ministro Luís Roberto Barroso, tido pelos jornalistas, professores de ciências sociais e bilionários de esquerda como a turbina ideológica da “suprema corte”, o STF não existe para “transformar o Brasil”. Não é pago pela população para “carregar a história para a frente”, como diz ele — e nem para condenar o presidente da República como “inimigo”. Não lhe cabe melhorar o país ou organizar a sua administração, nem ditar como os políticos devem se comportar, e nem influir nos usos e costumes da sociedade. Sua única função é decidir, nos casos de dúvida, se a Constituição de 1988 está ou não está sendo aplicada corretamente — é isso, e não pode ser mais do que isso, sob pena de subversão da ordem pública. O STF não está se comportando como a lei determina.

Moraes age como um carcereiro maníaco, como naqueles filmes do tipo “terror no presídio”

Os ministros, cada vez mais, agem como os árbitros dos desejos e das necessidades da sociedade — quer dizer, deram a si próprios o poder de decidir o que a população está querendo. Ao fazerem isso ofendem o princípio mais sagrado de uma democracia de verdade — o de que só existe um regime democrático quando o governo é exercido com o consentimento dos governados. O STF, abertamente, quer governar sem este consentimento. Há ministros que já disseram, aliás, que o Brasil é “conservador” demais para o modelo de país que têm em suas cabeças; a maioria dos brasileiros precisaria mudar de ideias, para se encaixar no Brasil desejado pelo ministro Barroso e seus colegas. É possível. Mas se for assim não cabe ao STF tornar o Brasil mais “moderno” — ou mais “igualitário”, ou mais “inclusivo”, ou mais “justo”. Por acaso a maioria da população brasileira é a favor do aborto, por exemplo, ou do casamento gay, ou da entrega às tribos indígenas de porções cada vez maiores do seu território? Quer que seja proibida a construção de ferrovias, de estradas ou de usinas hidroelétricas? Apoia a doutrinação política de esquerda na escola pública? Os ministros querem decidir sobre isso tudo; pretendem ditar os hábitos do cidadão, e determinar como devem se comportar em suas vidas pessoais. É a negação da democracia. Os desejos da população têm de ser atendidos pelo Congresso Nacional, e unicamente por ele; não há outra opção, a não ser em tiranias. É para isso — para executar a sua vontade — que o povo elege deputados e senadores. Os que temos podem ser lamentáveis, mas não existe no Brasil outro parlamento que não seja esse aí. Fazer o quê? Cabe aos eleitores, exclusivamente a eles, melhorar as decisões do Congresso. O STF não tem nada a ver com isso.
Não se trata de discordância com o teor das decisões do Supremo, como os ministros querem fazer crer diante de qualquer crítica que recebem. Tanto faz o teor — seria a mesma aberração se as decisões estivessem indo no sentido oposto ao que o STF tem decidido. Ajuda muito a embaralhar o debate, é claro, a baixíssima qualidade das sentenças, uma espécie de Museu de Horrores de Madame Tussaud; é tudo em geral tão infame, tão subdesenvolvido e tão ofensivo à lógica, que o problema parece ser a incompetência dos ministros no seu papel de magistrados. Ninguém, nesse ponto, supera no momento o ministro Alexandre de Moraes. Esqueça um pouco as considerações feitas acima sobre democracia e Constituição; aqui o angu é outro, e bem mais grosseiro. Moraes, no caso da sua incompreensível perseguição pessoal ao deputado Daniel Silveira, age como um carcereiro maníaco, como naqueles filmes do tipo “terror no presídio”. Está mortalmente ressentido porque o presidente da República, no estrito cumprimento da lei, anulou a pena de quase nove anos de cadeia que tinha socado em cima de Silveira. De lá para cá, vem dobrando a aposta: decidiu que, com indulto ou sem indulto, com lei ou sem lei, o deputado tem de ser punido, para que ele, Moraes, prove que é mais forte que o presidente e que a Constituição. Criou uma situação de desordem.

O que há de constitucional na decisão do ministro Edson Fachin que anulou as quatro ações penais contra Lula?

No seu último surto, o ministro vetou a redução de 35% no valor do IPI que o governo havia decidido, na tentativa de dar mais um estímulo à economia. Que diabo a redução do IPI tem a ver com as funções de um ministro do Supremo? Moraes não tem de decidir absolutamente nada nesse assunto. A decisão também não teve relação nenhuma com as suas possíveis convicções sobre política fiscal; foi vingança pessoal pura, simples e infantil. Não prejudica o “governo”. Como em tantas outras intromissões do STF em assuntos que não lhe dizem respeito, prejudica, de forma direta e imediata, a população.
Que ligação lógica pode existir entre a Constituição brasileira e tornozeleiras eletrônicas, multas de R$ 400.000 para as vítimas do ministro Moraes ou o CEP de Curitiba? O que há de constitucional na decisão do ministro Edson Fachin que anulou as quatro ações penais contra Lula, incluindo a sua condenação pelos crimes de corrupção e lavagem de dinheiro, em terceira e última instância e por nove magistrados diferentes? E a exigência do “passaporte sanitário” para cidadãos brasileiros entrarem no seu próprio país — uma decisão tão estúpida que nunca chegou a entrar realmente em vigor? O STF decidiu que os prefeitos tinham direito de manter fechadas por dois anos as escolas do Brasil. Bloqueia a construção de uma ferrovia essencial para a produção do Centro-Oeste, porque ela passa em 0,8% de uma “terra indígena”. Fecha acordos com empresas estrangeiras que controlam as redes sociais, como se fosse uma repartição administrativa, para censurar o conteúdo de mensagens e abolir fatos que possam favorecer o governo durante a campanha eleitoral. Ameaça, seguidamente, “cassar” a chapa do presidente para a eleição de outubro próximo; o ministro Moraes, a propósito, já prometeu “prisão” e outros horrores para os acusados de “fake news” e “desinformação.” O STF, há anos, desceu ao nível da justiça comum, funcionando hoje como um escritório de advocacia penal para soltar marginais, ladrões do Erário público e traficantes de droga. Atende sistematicamente a exigências de partidos da esquerda, quando querem impor uma decisão de governo ou um ponto de vista partidário. Onde a Constituição se conecta com isso tudo?
Mais extraordinária ainda é a queixa, apresentada diariamente nos meios de comunicação, de que o STF está sendo “ameaçado”, que sofre “uma campanha de descrédito” e é vítima de ações de “lavagem cerebral”. O STF, ameaçado? Só se for pela vontade da maioria da população, que vai se expressar nas próximas eleições — essas mesmas que tanto preocupam os ministros e seus agentes do TSE. Ameaça dos militares com certeza não é; se estivesse preocupado com eles, o TSE não iria devolver, sem atender a nenhuma, todas as sugestões feitas pelas Forças Armadas para reforçar a segurança das apurações. Do “governo Bolsonaro” também não pode ser. Não há nos últimos três anos e meio nenhum exemplo, mesmo distante, de que qualquer órgão do governo tenha desrespeitado a lei ou o Estado de Direito — ao contrário, o Executivo foi atacado 24 horas por dia pelo STF, teve dezenas de decisões bloqueadas e não desobedeceu a nenhuma das ordens que recebeu da justiça. Onde está a perseguição? Não existe, simplesmente — a não ser como desculpa antecipada para tentativas de virar a mesa, em mais uma cruzada para salvar a democracia no Brasil.


Por Joilton Freitas 

Foto: Reprodução

Nesse sábado (7) aconteceu o tão esperado lançamento da pré-candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva à Presidência da República, de maneira formal, visto que desde sempre Lula é candidato, mesmo quando cumpria pena em Curitiba por vários crimes cometidos contra o erário. O evento aconteceu no Expo Center Norte, em São Paulo. Por lá, estavam uma boa parte da esquerda anacrônica brasileira e seus aliados de conveniência. 

Mas o novo Lula se apresenta com roupagem do velho Lula. Aquele das eleições de 1989 para presidente. Um Lula mais jovem, cheio de ideias e novas ilusões que visava conquistar “mentes e corações”, e quase conseguiu, não fosse ter que enfrentar Fernando Collor de Mello, candidato de direita e escolhido das elites da época, que demonstrou desde o início da campanha que seria eleito presidente.

O evento tentou resgatar na memória dos convidados a euforia vivida nos idos de 1989. Mesmo sendo derrotado, a campanha de Lula foi bem feita e bonita, com foco principal em conquistar os jovens. Era através dessa parcela da sociedade que o partido dos Trabalhadores tentava chegar ao poder. Os ideólogos e a máquina de propaganda petista sabem que a mente juvenil é suscetível e mais fácil de iludir do que a mente calejada. Além disso, quem viveu a história sabe muito bem o que Lula e sua gangue fizeram no verão passado.

Em 1989, eu me encontrava em Ruy Barbosa, era jovem e trabalhava no Jornal Tribuna da Chapada. Uinde, minha filha mais velha, acabara de nascer. Portanto, uma presa fácil para as artimanhas da “máquina de propaganda” petista. Fui cooptado pela mensagem: eu e quase todos os meus amigos da época. De fato, Lula conquistou “mentes e corações” desavisados. Foi essa semente plantada naqueles anos, que germinou em 2002, levando Lula a ser eleito presidente do Brasil. 

No início, o governo parecia que iria entregar o que vendeu durante a campanha eleitoral. Ledo engano, logo veio o Mensalão e depois o Petrolão. Nós, os cooptados, começamos a acordar de um sonho que virou pesadelo. O PT se transformou em uma máquina de corrupção sob o comando de Lula que protagonizou o maior esquema de roubo e corrupção de uma nação que se tem conhecido na história mundial. E o refrão da música: “Lula lá, é a gente junto…” perdeu totalmente o sentido. 

O PT e seus intelectuais estão apostando todas as suas fichas, mais uma vez, em cooptar os jovens, na militância e naqueles que não se preocupam com o que Lula e Cia. fizeram com o país em passado recente. É como pegar um produto apodrecido e colocar em uma embalagem nova.

Lula é um produto adulterado pelo tempo e por suas nefastas ações. A engenharia que os ideólogos petistas querem fazer é extremamente difícil — seria fazer com que grande parte da população esqueça quem realmente é Lula e a sua essência predatória, e que o jovem de hoje seja o de ontem. “Sinto muito tio, mas não vai rolar!”.


23.mar.2022 - O presidente Joe Biden, na Casa Branca; nesta semana, ele visitou uma instalação da maior produtora de armas do mundo - Alex Wong/Getty Images via AFP
23.mar.2022 – O presidente Joe Biden, na Casa Branca; nesta semana, ele visitou uma instalação da maior produtora de armas do mundo Imagem: Alex Wong/Getty Images via AFP

Em 17 de janeiro de 1961, durante seu discurso de despedida, o então presidente dos Estados Unidos, Dwight Eisenhower (um ex-general cinco estrelas do exército norte-americano) disse ao Congresso de seu país que reconhecia a indústria de defesa como vital para a manutenção da paz, mas que, era preciso, no governo, que os líderes se precavessem contra a sua “aquisição de influência injustificada”, pois “o potencial para a ascensão desastrosa de poder ‘fora de lugar’ exist[ia] e persisti[ria]”.

Ao cunhar o termo “complexo industrial-militar”, Eisenhower referia-se a uma ampla e articulada rede de indivíduos, grupos e instituições envolvidas na produção de armas e tecnologia militar, cujo interesse permanente estaria em mobilizar esforços para garantir um nível favorável de gastos do governo em seu segmento. O presidente alertava para os riscos de tensionamento entre interesses públicos e privados, uma vez que haveria necessidade de gerenciar, em muitos momentos, o que seria o melhor para o Estado norte-americano versus o que beneficiaria apenas alguns grupos econômicos.

Eisenhower tinha razão. As guerras e seus senhores tornaram-se assunto permanente em matéria de política doméstica e de inserção internacional dos Estados Unidos. São incontáveis os livros, artigos, documentários e relatórios produzidos ao longo das últimas décadas a respeito deste lobby, considerado um dos mais poderosos do país. Ele reúne membros do Congresso ligados a distritos dependentes dessa indústria, o Departamento de Defesa e os braços a ele relacionados, e empresas de grande porte, como Boeing, Lockheed Martin e Northrop Grumman, por exemplo.

Desde a Segunda Guerra Mundial, os gastos militares se multiplicaram nos Estados Unidos e, impulsionados pela Guerra Fria e depois pelo 11 de setembro, nunca deixaram de crescer. Os relatórios publicados anualmente pelo SIPRI, o Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo, evidenciam que o país consistentemente se mantém como o maior responsável por esse tipo de gasto no mundo.

No documento de 2021, ainda antes do início da Guerra na Ucrânia, os norte-americanos apareciam como os que empregaram US$ 778 bilhões nesse setor. Em segundo lugar, com diferença digna de nota, vinha a China (US$ 252 bilhões), seguida da Índia (US$ 72,9 bilhões) e somente então a Rússia (US$ 61,7 bilhões).

O papel do complexo industrial-militar ganhou novo momentum essa semana quando o presidente Joe Biden visitou uma instalação da Lockheed Martin no Alabama. Trata-se da maior produtora de armas do mundo e de uma das mais importantes fornecedoras do governo dos Estados Unidos. Os contratos, nos últimos anos, passaram da casa dos bilhões de dólares. Além disso, a Lockheed também costuma ser mencionada no contexto de discussões envolvendo o papel da OTAN no mundo, uma vez que uma das organizações que mais incentiva sua expansão foi chefiada por um vice-presidente da empresa, Bruce Jackson.

A visita de Biden ocorreu quando muito se falava sobre a necessidade de reabastecer o estoque de armas do país. Estando lá, ele aproveitou para reforçar seu pedido ao Congresso dos Estados Unidos para que acelerasse a aprovação de um novo pacote de ajuda militar à Ucrânia.

Vale lembrar que, pouco tempo antes, também a Alemanha, que está em vias de rever sua posição sobre desarmamento, anunciou a compra de jatos F-35 da Lockheed, o que causou um pico no preço das ações da empresa, alcançando um aumento de 43,4% em apenas quatro meses.

Desde o início no conflito no leste europeu, os norte-americanos já enviaram bilhões de dólares em armas para a Ucrânia, e o orçamento do Pentágono não pára de crescer.

A disputa envolvendo uma proxy war (uma “guerra por procuração”, conforme já explicamos nessa outra coluna) visando combater um “inimigo externo comum”, com cara de Guerra Fria, conquistou apoio bipartidário nos Estados Unidos. Em ano de eleições legislativas, a barganha da indústria de defesa encontra um horizonte amplamente favorável para a expansão de seus negócios.

Os custos detalhados disso, nos próximos meses e anos, ainda são desconhecidos. Em todo caso, a experiência pregressa permite apostar: 1) no desvio de atenção e de recursos para outras agendas importantes; 2) no aumento progressivo dos déficits federais e; 3) na disputa inter-burocrática cada vez mais intensa dentro dos Estados Unidos.

Por hora, sabemos que o conflito na Ucrânia pacificou republicanos e democratas em torno dos senhores da guerra.


Informações UOL


Protestos em SP:  Ato de apoiadores de Bolsonaro X Ato das centrais sindicais com o Lula - Guilherme Galdolfi/Futura Press/Estadão Conteúdo/Eduardo Knapp/Folhapress
Imagem: Guilherme Galdolfi/Futura Press/Estadão Conteúdo/Eduardo Knapp/Folhapress

Por: José Luiz Portela – UOL – Todos no Brasil, sem exceção, vivemos um mal-estar amplo e difuso. Não nos encontramos felizes, nem otimistas. Lulistas, bolsonaristas, nem-nem, tanto faz, todos estão tragando uma fumaça tóxica da violência que nos constitui. E assola.

Em “O mal-estar na civilização”, um clássico, Sigmund Freud realiza um escrutínio sobre as origens da infelicidade, os conflitos entre os indivíduos e a sociedade. Escrito às vésperas da crise de 1929, simbolizada pelo colapso da Bolsa de Nova York, foi publicado em Viena no ano seguinte. O título original foi: “Das Unbehagen in der Kultur”. Freud entende que 3 fontes produzem nosso sofrimento: 1) prepotência da natureza; 2) fragilidade de nosso corpo; 3) insuficiência das normas que regulam os vínculos humanos na família, no Estado e na sociedade. Simplificando, existe um instinto de construção, de modelagem de uma sociedade acolhedora e saudável, representada por Eros, e um instinto agressivo e destruidor, que contém nossa violência congênita, Tânatos, o instinto de morte. Que se antagonizam. O homem não é só bom por natureza, e o mal existe, porque tem um instinto de violência natural, dentro de nós. Não somos só bonzinhos e quem nos estraga é a sociedade, não; temos o mal também incrustado, e cabe saber lidar com isso. Conforme Freud, “uma parte do instinto se volta contra o mundo externo (que tem sido bem hostil a nós, brasileiros) e depois vem à luz como instinto de agressão e destruição. É a quadra que está em curso.

pior é que Lula e Bolsonaro, que juntos representam cerca de 75% do eleitorado brasileiro, concorrem para piorar o ambiente. Ambos são autoritários, onipotentes, messiânicos, dissimulados e têm falado bobagens a granel, contribuindo para a desinformação e aumento da agressividade. Qualquer debate entre amigos que se alinham em lados contrários se torna uma batalha oral, onde, aos poucos, o vocabulário vai perdendo o nível e enveredando para a desqualificação do outro.

Lula, no afã de parecer um demiurgo da redenção do Brasil à democracia e ao processo civilizatório, tem sido mais dissimulado, atingindo, em momentos, certa hipocrisia que assusta e causa repulsa. Pior para ele. A agressividade dele se explicita por trás de um falso amigo da paz e da conciliação. Ele pensa que não notamos que ele é nada bonzinho. Tem motivos para se sentir ofendido, mas não reage como alguém que deseja “dar a mão”. E tem muitos motivos para ser criticado, começando com a falsa ignorância do que ocorreu no Brasil do PT.

Bolsonaro, em sua limitação intelectual, e no alimento de seu lado primitivo e tosco, escorrega para o lado agressivo frontal, embora não despreze o cinismo também. A pergunta que muitos fazem, naquela “santa” ingenuidade do brasileiro, que sempre se considera vítima, nunca culpado de nada (tipo Lula), é o que fizemos para estar enredados nas duas opções. Fomos coniventes com o “jeitinho”, em várias situações de nossa vida pessoal, fomos agressivos na vida particular com amigos de bar e vizinhança, com as respectivas mulheres, fomos racistas em várias ocasiões, de forma disfarçada, pregamos um “politicamente correto” exagerado e fingido, para parecermos budas iluminados, a favor do bem, enquanto entendíamos que poderíamos levar vantagens pessoais, que abominamos nos políticos. Brasileiro é espetacular na sua capacidade de ação inovadora, criativa, adaptativa, é afetivo, mas não é bonzinho. Fascistas se fantasiam de defensores da liberdade e do direito de expressão, que eles extirpariam, um dia após assumirem o poder da forma que Bolsonaro deseja.

Burgueses acadêmicos combatem o instituto da burguesia, sendo burgueses no comportamento; socialistas e comunistas se travestem de defensores da civilidade e democracia, que extinguiriam, logo que tomassem o poder, como Prestes o faria. E Castro e Chávez fizeram. Somando os dois, a maioria brasileira não é democrata de verdade, quer usar a democracia para chegar ao poder e extingui-la. Os que pensam diferente são, infelizmente, minoria, uma minoria considerável, mas minoria. O mal-estar em que estamos metidos vem do nosso instinto violento, do nosso Tânatos nativo, e a hipocrisia de nossos dois candidatos líderes vem da nossa hipocrisia amena, feita com suavidade e afetividade. Somos o “homem cordial” de Sérgio Buarque de Holanda. Os brasileiros da Sabinada, Cabanada, Palmares, Farrapos, Canudos, Revolta da Vacina, da Chibata, Confederação dos Tamoios, dos Cariris, Intentona Comunista, Revolução de 1930 e outras. Não estamos nessa só porque Lula e Bolsonaro possuem defeitos consideráveis, conforme o lado que analisa. Eles são patogênese, mas também sintoma e consequência, simultaneamente.

Os discursos que fizeram em 1º de Maio foram sem conteúdo e alimentaram a disputa agressiva. Bolsonaro insultou a Constituição. Em certo ato seus correligionários, que nele se inspiram, rasgaram a Constituição em nome de falsa liberdade. Lula falou de forma agressiva, quase sem fôlego vital, e consagrou a demagogia com aquele “vamos acabar com as salas de tiro e fazer bibliotecas”, que não fez, quando presidente, da forma figurativa que falou. Tergiversou.

Ao lado de várias lideranças velhas e de aspecto do “mais do mesmo desalentador”, Lula enalteceu seu autoengano de ser o Dom Sebastião I do Brasil. O Lula de gente nova se adornou de gente velha. O mal-estar que estamos vivendo é “coisa nossa”. Lula e Bolsonaro são tristes alternativas insuficientes para o país que precisamos. Todavia, são os nossos produtos. “Nossa dor é perceber que apesar de tudo o que fizemos ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais”.

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