Prof. frei Jorge Rocha, ofmcap.1
Nos últimos tempos, após decreto e decretos, sempre se escuta a expressão “atividade
essencial”. É natural que se esboce em cada cidadão a seguinte pergunta: o que é atividade essencial e onde encontrar uma definição segura? Numa análise preliminar, entende-se como “essencial” aquilo que caracteriza o básico para subsistência da vida humana. E a pergunta poderia se desdobrar: o que é essencial para a vida humana? É bom parar por aqui, a fim de não se cair num tautologismo infinitivo dos porquês, mas é preciso continuar refletindo e fazer um breve esboço.
Numa tentativa de conceitualização, a partir do prisma jurídico, uma luz se lança através do Decreto Federal 10.282 de 2020, que afirma: “[essenciais] são aqueles indispensáveis
ao atendimento das necessidades inadiáveis da comunidade, assim considerados aqueles que, se não atendidos, colocam em perigo a sobrevivência, a saúde ou a segurança da população” (§ 1o do artigo 3o do Decreto Federal). Mesmo não sendo um conceito absoluto, é um caminho na tentativa de compreensão.
A conceitualização jurídica não termina com a querela nem encerra a discussão sobre o que é, de fato, essencial, de modo especial em tempos pandêmicos. Ilustrando com algumas atividades em busca da essencialidade, entende-se, por exemplo, após as brigas
jurídicas e os devidos recursos nas referidas instâncias, que a atividade física é essencial, pois ela, segundo os especialistas, cria um equilíbrio entre o corpo e a mente, evita transtornos psíquicos, diminui os riscos de suicídio e, com isso, restabelece um nível de saúde elevado, sobretudo, em tempos de crise. Isso a tornaria indispensável na prática de uma vida sadia. Na mesma esteira, incluem-se os profissionais da chamada área psi, pois o cuidado com a mente gera pessoas equilibradas e, por conseguinte, homens e
mulheres com uma capacidade de intervenção social que gera relações de qualidade com um alto grau de empatia social.
Os comerciantes, incluindo os supermercados, requerem a primazia de também serem considerados como essenciais, por quê? Os integrantes destas áreas afirmam que o comércio, enquanto lugar, é o local de menor transmissibilidade, pois os cuidados de
1 Mestre em Teologia pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma (Itália), Doutor em Teologia pela Pontifícia Universidade Católica Argentina, Superintendente da Fundação Santo Antônio, Radialista e Apresentador. Professor na Universidade Católica do Salvador.
distanciamento social e da assepsia das mãos são observados com rigor. Sendo assim, o comércio torna-se um ambiente de impulso econômico e – quem diria – até um espaço de entretenimento. Ademais, o vigor do comércio estaria dando um suporte para garantir a vida pós-pandêmica e, por isso mesmo, o comercio é uma atividade essencial. Mesmo com tanto cuidado, comércio e supermercados não têm um passe livre para se sobrepor a quaisquer outras atividades. Tudo precisa ser moderado.
Por outro lado, a comunicação é, também, essencial, pois, como fica o povo sem informação? Uma boa informação é um veículo seguro através do qual começa a saúde, são dirimidas as dúvidas, dá dinamismo ao cotidiano pelo entretenimento. Notícia é conhecimento, é cultura; notícia é cidadania, é compromisso com a verdade, pois manter- se bem-informado gera a saúde mental durante a pandemia e, por conseguinte, dissemina uma rede de informação segura, distanciando-se das narrativas, das fake news e, aproximando-se dos fatos comprovados pela ciência, contribui na formação crítica de um
cidadão, formando um povo esclarecido e inibindo a ignorância. Ademais, conhecer a verdade é libertação, pois, “conhecereis a Verdade, e a verdade vos libertará” (Jo 8, 32).
O cuidado espiritual é indispensável em tempo de crise, portanto, é uma atividade essencial. O senso religioso contribui com este momento, sublinhando a fragilidade da vida e, por causa disso, uma maior preocupação com o outro, gerando uma empatia e uma interdependência, criando uma relação sadia com Absoluto que nos leva a abraçar a vida, pois, segundo o ensinamento bíblico, disse Jesus: “Eu vim para que todos tenham vida e vida em abundância” (cf. Jo 10,10). Por causa disso, abraçar a Deus é abraçar uma vida que não se acaba, uma vida com sentido que não se esgota na contingência da vida humana. Proteger a vida, na atual conjuntura, está mais para lockdown que para exposição.
A essencialidade do serviço espiritual não significa, necessariamente, manter os templos de portas abertas – ou entreabertas -, mas é um agir além fronteiras e estruturas físicas. Vital na Igreja, como disse o Papa Francisco, ‘é não se fechar e não se sentir satisfeita com o que já conquistou’. Ela [a Igreja] é além dos seus templos, pois a Igreja é um Mistério, Tenda de Deus no meio do mundo, Tabernáculo do Eterno, onde o Espírito de Deus veio morar. Para compreender isso, é preciso perceber que a fé exerce mais que um papel fundamental como fator de equilíbrio psicoemocional, mediada pela Igreja. O estar na Igreja, presencialmente ou através das diversas plataformas de comunicação, contempla algo da natureza humana que só se encontra nesse ocular teológico, conforme nos lembra São Gregório Magno: “Deus coloca-se na posição de educar-nos durante toda a vida, quer curar-nos e fazer com que nos assemelhemos cada vez mais a Seu Filho; mas para isso é preciso começar a ver todas as coisas à luz de Deus”. Ver o mundo a partir de Deus, afirma o Santo Padre, o Papa Francisco, significa que: “Devemos olhar o nosso mundo com simpatia, sem medo, sem preconceitos e com coragem, como Deus olha para ele, sentindo como nossas as dores, as alegrias e as esperanças dos nossos irmãos; e daí anunciar com a vida e a palavra, e fazer ‘conhecer e amar Jesus e Maria’, com a criatividade de diaconias e obras de apostolado”.
A Igreja, nesse sentido, é um locus privilegiado que ilumina esse ocular. Na LG, n. 1, encontramos: A luz dos povos é Cristo: por isso, este sagrado Concílio, reunido no Espírito Santo, deseja ardentemente iluminar com a Sua luz, que resplandece no rosto da Igreja, todos os homens, anunciando o Evangelho a toda a criatura (cfr. Mc. 16,15). Mas porque a Igreja, em Cristo, é como que o sacramento, ou sinal, e o instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo o género humano, pretende ela, na sequência dos anteriores Concílios, pôr de manifesto com maior insistência, aos fiéis e a todo o mundo, a sua natureza e missão universal. E as condições do nosso tempo tornam ainda mais urgentes este dever da Igreja, para que deste modo os homens todos, hoje mais estreitamente ligados uns aos outros, pelos diversos laços sociais, técnicos e culturais, alcancem também a plena unidade em Cristo.
É bem verdade, que muitos outros grupos poderão requerer a primazia da essencialidade em tempos pandêmicos. Isso nos leva a crer que essencial poderá percorrer, pelo menos, dois caminhos: é um conceito objetivo quando preconiza que é aquilo sem o qual o ser humano seria menos ser humano, isto é, é um movimento básico que impulsiona e dinamiza a vida humana. Porém, por outro lado, é um conceito subjetivo, pois a vida humana não é previsível e as necessidades variam de acordo com o ritmo de cada existência humana. As dores e os desejos são os mais variados, como também as vitórias e as derrotadas são encaradas a partir do ocular de cada um. Deve-se, portanto, a partir daquilo que se conceitua como essencial (objetivo), contemplar as individualidades, valorizando as alteridades. Irrenunciável mesmo é perceber que a vida é “dom e compromisso” e precisa ser protegida por todos, antes, durante e pós-pandemia num eterno “é tempo de cuidar”.
