
Na Bahia, onde o rádio ainda ecoa como um dos principais meios de comunicação, especialmente na cobertura esportiva, uma história até então invisível começa a ganhar voz. É o que revela a pesquisa de mestrado da radialista e agora mestre em Comunicação, Emanueli Marques Pilger, defendida em abril na Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB). O estudo é o primeiro no estado a investigar e documentar a presença feminina no radiojornalismo esportivo baiano.
Radialista há 25 anos, Emanueli se debruçou sobre um campo ainda pouco explorado pela academia. Com orientação da professora doutora Hérica Lene (UFRB) e coorientação do professor doutor Francisco Alves Júnior (UFBA), ela enfrentou a escassez de registros formais e recorreu à história oral para resgatar a memória de mulheres que ousaram ocupar um espaço historicamente reservado aos homens.
“Comecei no rádio em 1999 e sempre percebi o jornalismo esportivo como um território masculino. Durante muito tempo, parecia que só os homens tinham legitimidade para falar sobre futebol. Faltavam referências femininas e, mais ainda, registros sobre elas”, afirma Emanueli.
Primeiros nomes, primeiros silêncios
A pesquisa identificou figuras pioneiras como Isaura Maria, primeira mulher a atuar como repórter de campo em uma emissora FM em Salvador, nos anos 1980. Isaura chegou a entrevistar jogadores nos vestiários — prática comum na época, mas ainda incomum para mulheres — e enfrentou restrições até na vestimenta para trabalhar nos estádios.

Outros nomes lembrados foram Heloísa Braga, Selma Reis e uma narradora identificada como Lala Moreira, que, segundo relatos, teria atuado no interior do estado, mas cuja história permanece envolta de incertezas.
“Não havia arquivos, fichas ou registros nas rádios. Em muitos casos, era como se essas mulheres nunca tivessem existido. Foi preciso recorrer a entrevistas com veteranos do rádio para chegar até elas”, explica a pesquisadora.
Avanço nas TVs vs resistência em rádios
A presença feminina na narração esportiva evoluiu de forma lenta, mas notável, especialmente na televisão. Emanueli lembra que a primeira mulher a narrar futebol no Brasil foi Zuleide Ranieri, ainda na década de 1970, seguida por Luciana Mariano, que se tornou a primeira a narrar uma partida na TV brasileira em 1990 — incentivada por seu marido, o lendário narrador Luciano do Valle.
Mais recentemente, Renata Silveira entrou para a história como a primeira mulher a narrar um jogo de Copa do Mundo na televisão brasileira, em 2020 — marco que só veio após mais de 50 anos de transmissões. Desde então, outras vozes femininas, como Natália Lara e Manuela Vena, vêm ocupando espaço na mídia esportiva televisiva.

“O rádio ainda é um terreno marcado por rejeição. Muitas vezes, a justificativa para a ausência de mulheres nas narrações é a de que os patrocinadores não querem investir em vozes femininas, por acreditarem que a audiência prefere ouvir vozes masculinas. Há também um preconceito com o tom de voz feminino — por ser mais agudo — e até a velha ideia de que mulher ‘não entende de futebol”, aponta Emanueli.
Representatividade ainda é exceção
A pesquisadora também chama atenção para o recorte racial, destacando que a maioria das mulheres que romperam essas barreiras são brancas. Apenas recentemente a Globo contratou sua primeira narradora negra, Letícia Pinho, o que representa um avanço, mas ainda longe do ideal.

E na Bahia, o contraste é gritante: há apenas uma mulher narrando futebol atualmente no estado.
“Na comparação com Rio e São Paulo, os números são muito baixos. E como professora, vejo alunas com potencial enorme que nem sequer tentam entrar nesse mercado — porque não enxergam espaço. Se não há primeiras chances, não há estímulo”, lamenta.
Da dissertação para o livro — e para o futuro
A dissertação de Emanueli será transformada em livro, com previsão de publicação pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). A banca avaliadora contou com a professora Valcia Zuccolotto, maior pesquisadora de rádio do Brasil, o que fortalece ainda mais o reconhecimento do trabalho. A autora também planeja seguir no doutorado, aprofundando o tema.
“Quero que essa pesquisa sirva como ponto de partida para outras, que não seja mais tão difícil pesquisar sobre o rádio esportivo da Bahia. Precisamos romper com essa tradição inventada de que só homens podem comentar futebol. As vozes femininas precisam ser ouvidas — e reconhecidas”, afirmou Emanuelli.
