VAMOS TODOS MORRER NA PRAIA
28 de Outubro de 2026

Por Eduardo Brandão

Vou parar de falar de política. Talvez estas sejam minhas últimas palavras sobre o assunto. Não por falta de convicções, tampouco por resignação intelectual, mas por uma razão muito mais amarga: o esgotamento da esperança.

A política brasileira deixou de ser o território do debate de ideias para se transformar, aos meus olhos, num exercício permanente de indignação, impotência e desalento. E há um momento na vida em que até a indignação cobra seu preço. A alma também envelhece.

Lula foi eleito, a meu juízo, graças a uma sucessão de manobras jurídicas e políticas que considero uma afronta à consciência democrática. Mas isso já não importa. Assumirá mais um mandato e, temo, governará como governou anteriormente: sustentado por um sistema de alianças, conveniências, fisiologismo e promiscuidade entre o poder político e as instituições que deveriam fiscalizá-lo.

Os Alcolumbres e os Alexandres continuarão, provavelmente, onde sempre estiveram: próximos ao poder, protegidos pelas engrenagens de um sistema que parece ter desenvolvido extraordinária capacidade de preservar seus protagonistas, enquanto consome a esperança daqueles que deveria servir. Os personagens permanecem incólumes; as instituições se desgastam; a sociedade paga a conta.

Mas o que verdadeiramente me atormenta já não é Lula. É o tempo.

Quando outro presidente assumir depois dele, estarei com 67 anos. Sessenta e sete anos! Uma idade em que o futuro deixa de parecer uma promessa inesgotável e passa a ser medido pela urgência dos dias que ainda nos restam.

E não estou sozinho nesse sentimento.

Vejo meus amigos, companheiros de geração, igualmente cansados. Homens que atravessaram décadas acreditando que o Brasil poderia, enfim, encontrar seu destino. Hoje, carregamos a sensação devastadora de termos envelhecido à espera de um país que nunca chegou.

Não foram apenas anos perdidos. Foram anos que deixamos de viver plenamente, consumidos pela expectativa de uma mudança que parecia sempre próxima e que, a cada novo amanhecer, se afastava um pouco mais.

Passamos praticamente todo o século XXI combatendo aquilo que consideramos a degradação política e moral do Brasil. Vimos o Partido dos Trabalhadores consolidar uma estrutura de poder que, em nossa percepção, ultrapassou a disputa eleitoral e alcançou a própria consciência de parte da sociedade.

Lutamos, denunciamos, discutimos, escrevemos, votamos, protestamos. Acreditamos que a verdade prevaleceria sobre a conveniência, que as instituições resistiriam às tentações do poder e que a democracia seria capaz de corrigir seus próprios desvios.

Talvez tenhamos cometido o mais humano dos equívocos: acreditar que a história caminharia necessariamente em direção ao progresso.

Mas a história não tem compromisso com nossas esperanças.

O tempo, esse juiz silencioso e implacável, não devolve os anos sacrificados em nome de causas que não triunfaram. E há uma crueldade particular em perceber que podemos ter dedicado a melhor parte da existência a uma batalha cujo desfecho talvez não tenhamos sequer o privilégio de testemunhar.

Envelhecemos lutando. E, enquanto lutávamos, a vida passou.

Não teremos mais a juventude necessária para recomeçar. Talvez nem a disposição para continuar. A reconstrução de uma nação exige décadas; a existência humana, entretanto, não admite prorrogações.

É essa a dimensão mais dolorosa da nossa derrota: não apenas a possibilidade de perdermos o país que sonhamos construir, mas a certeza de que estamos perdendo o tempo que nos permitiria vê-lo reconstruído.

Ao fim desse quarto mandato de Lula, temo que o Brasil se assemelhe a uma embarcação que atravessou sucessivas tempestades sem jamais encontrar um porto seguro. Uma nau exaurida, com o casco ferido, as velas rasgadas e a tripulação dividida entre os que ainda acreditam na travessia e os que já não distinguem o horizonte.

E nós, que durante tantos anos remamos contra a correnteza, talvez já não tenhamos forças para alcançar a margem.

Há uma tragédia silenciosa em chegar ao entardecer da vida e descobrir que a pátria pela qual se lutou continua sendo uma promessa adiada.

Não é apenas uma derrota política. É uma espécie de exílio dentro da própria terra.

E, se existe algo mais doloroso do que perder a esperança no presente, é olhar para os filhos e netos e perceber que talvez lhes estejamos deixando como herança exatamente aquilo que passamos a vida tentando combater.

Sinto muito por eles. Profundamente.

Porque nós ainda tivemos o direito de sonhar com outro Brasil. Receio que eles herdem um país onde até o sonho tenha se tornado um luxo.

Ao fim e ao cabo, talvez seja esse o destino da nossa geração: assistir, impotente, ao naufrágio das próprias esperanças, enquanto o tempo recolhe, uma a uma, as forças que nos restam.

E, quando a última onda finalmente alcançar a areia, talvez não haja vencedores entre nós. Apenas os destroços da nau chamada Brasil e os corpos de uma geração que passou a vida inteira tentando salvá-la.

Vamos todos morrer na praia.

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