No Dia Nacional de Combate à Cefaleia, especialista alerta que dores frequentes não devem ser normalizadas e podem indicar alterações neurológicas complexas

Foto: divulgação

Celebrado em 19 de maio, o Dia Nacional de Combate à Cefaleia chama atenção para um problema que afeta milhões de brasileiros e ainda é frequentemente negligenciado: a dor crônica. A data reforça a campanha “3 é Demais”, da Sociedade Brasileira de Cefaleia (SBCe), que alerta para a necessidade de investigação médica quando a pessoa apresenta três ou mais crises de dor de cabeça por mês, durante três meses consecutivos.

Mais do que um sintoma isolado, a ciência vem demonstrando que dores persistentes podem estar relacionadas a alterações neurológicas e processos inflamatórios no próprio sistema nervoso central. Estudos recentes em neuroimunologia apontam que o cérebro pode permanecer em estado de sensibilização, mantendo a dor ativa mesmo após a resolução da lesão inicial.

Segundo a neurocirurgiã Dra. Camila Moura, esse entendimento representa uma mudança importante na forma como a medicina encara pacientes com dores crônicas.

“A dor crônica não é apenas um sintoma físico localizado. Hoje sabemos que ela envolve circuitos cerebrais complexos, mecanismos inflamatórios e alterações na forma como o sistema nervoso processa os estímulos. Em muitos casos, o cérebro continua interpretando sinais de ameaça mesmo quando não existe mais uma lesão ativa”, explica a médica.

De acordo com dados da Biblioteca Virtual em Saúde do Ministério da Saúde, cerca de 95% das pessoas terão ao menos um episódio de dor de cabeça ao longo da vida. Já a enxaqueca afeta milhões de brasileiros e figura entre as condições neurológicas mais incapacitantes do mundo.

Quando a dor deixa de ser “normal”?
Embora episódios ocasionais possam ocorrer por fatores como estresse, noites mal dormidas ou tensão muscular, especialistas alertam que dores recorrentes merecem investigação.

“A principal diferença entre a dor aguda e a dor crônica está no tempo e na resposta do organismo. A dor aguda funciona como um alerta do corpo diante de uma lesão ou inflamação. Já a dor crônica persiste por meses e passa a envolver alterações neurológicas mais profundas, impactando sono, memória, humor e qualidade de vida”, afirma Dra. Camila Moura.

Entre os sinais de alerta que exigem avaliação médica estão:
dores frequentes ou progressivamente mais intensas;
necessidade constante de analgésicos;
dor associada a alterações visuais, tonturas ou perda de força;
cefaleias que atrapalham trabalho, sono ou rotina;
crises recorrentes por mais de três meses.

A campanha “3 é Demais” reforça justamente a importância do diagnóstico precoce para evitar a cronificação da dor e o agravamento dos sintomas.

Inflamação cerebral e sensibilização do sistema nervoso
A neuroinflamação é um dos temas mais discutidos atualmente nas pesquisas sobre dor crônica. O processo envolve a ativação de células do sistema imunológico dentro do cérebro, que podem amplificar os sinais dolorosos e tornar o organismo mais sensível aos estímulos.

“Em algumas situações, o sistema nervoso entra em um estado de hipersensibilidade. Isso ajuda a explicar por que determinadas pessoas continuam sentindo dor mesmo após a melhora de exames ou cicatrização de tecidos. O cérebro passa a interpretar estímulos comuns como dolorosos”, destaca a neurocirurgiã.

Segundo ela, fatores emocionais, privação de sono, ansiedade, sedentarismo e estresse crônico também podem contribuir para esse mecanismo de sensibilização cerebral.

Tratamentos evoluíram nos últimos anos

O avanço da neurociência também ampliou as possibilidades terapêuticas. Hoje, o tratamento da dor crônica envolve uma abordagem multidisciplinar, que pode incluir medicamentos modernos, terapias neuromoduladoras, fisioterapia, mudanças no estilo de vida e acompanhamento psicológico.

“O tratamento atual busca controlar a inflamação, modular a atividade cerebral relacionada à dor e melhorar a qualidade de vida do paciente. Quanto mais cedo houver diagnóstico e acompanhamento especializado, maiores as chances de evitar a cronificação”, afirma Dra. Camila Moura.

A especialista reforça que sentir dor frequentemente não deve ser encarado como algo normal ou inevitável.

“Muitas pessoas convivem com dores por anos acreditando que precisam apenas suportar. Mas a dor persistente é um sinal de que o organismo precisa de atenção. Procurar ajuda médica precocemente faz diferença não apenas no controle dos sintomas, mas também na saúde cerebral e emocional do paciente”, conclui.

Assessoria de Imprensa

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