
A exposição constante a influenciadores fitness, corpos considerados perfeitos e conteúdos sobre emagrecimento nas redes sociais tem impactado diretamente a saúde mental de crianças, adolescentes e adultos. O alerta é da psicoterapeuta e psicanalista comportamental Regiane Carvalho, que aponta aumento de quadros de ansiedade, depressão, transtornos alimentares e comportamentos compulsivos relacionados à busca por padrões estéticos.
Especialistas também têm chamado atenção para os efeitos da hiperexposição digital sobre o desempenho esportivo, autoestima e percepção corporal entre jovens, especialmente em uma geração cada vez mais conectada e exposta a métricas de validação como curtidas, comentários e compartilhamentos. A comparação constante com rotinas idealizadas pode intensificar sentimentos de inadequação, pressão por resultados e sofrimento emocional.
Em entrevista ao Rotativo News, Regiane destacou que o ambiente digital, altamente visual, intensifica comparações e cria expectativas irreais sobre aparência física.
“Muitas vezes o que é mostrado na internet não corresponde à realidade. Existem edições, montagens e filtros. Mas quem consome aquele conteúdo, especialmente adolescentes, tende a acreditar que aquele padrão é alcançável e necessário para ser feliz”, explicou.
Segundo a especialista, a preocupação que antes se concentrava mais nas meninas passou a atingir diferentes públicos.
“Hoje já não existe mais distinção. Todos os jovens estão sendo influenciados pelo culto ao corpo perfeito”, afirmou.
A psicoterapeuta chama atenção para o consumo indiscriminado de suplementos e medicamentos estimulados por influenciadores sem qualificação técnica. Ela ressalta que dietas restritivas e suplementação devem ocorrer apenas com acompanhamento profissional.
“Qualquer influencer está se passando por especialista. Isso afeta muito os jovens, porque eles reproduzem comportamentos sem compreender os riscos para a saúde”, alertou.
Além dos adolescentes, adultos também estariam sendo impactados pela busca intensa por padrões estéticos. De acordo com a psicoterapeuta, há registros de pessoas desenvolvendo complicações graves após o uso excessivo de substâncias para emagrecimento ou ganho muscular.
“Já temos adultos sendo internados com pancreatite, problemas na vesícula e outras complicações relacionadas ao uso indiscriminado de medicamentos e suplementos”, pontuou.
Redes sociais, comparação e pressão por desempenho
Outro fator preocupante é que o impacto das redes sociais ultrapassa a estética e alcança também o desempenho esportivo e a saúde emocional de jovens atletas. Especialistas observam que a busca por validação digital e comparação constante pode favorecer ansiedade, estresse, esgotamento emocional e até abandono precoce de práticas esportivas.
Na adolescência, período marcado pela construção da identidade e autoestima, a vulnerabilidade tende a ser maior. O cérebro ainda está em desenvolvimento, tornando adolescentes mais suscetíveis à necessidade de aprovação social e ao desejo de reproduzir padrões apresentados por influenciadores.
Para Regiane Carvalho, os efeitos da pressão estética alcançam diferentes dimensões da saúde.
“A questão emocional afeta todo o organismo. Muitas pessoas adoecem por não conseguirem alcançar um padrão que, em alguns casos, é incompatível até com o próprio biotipo corporal”, explicou.
A especialista destaca que a preocupação com o corpo começa cedo. Segundo ela, a partir dos 12 anos já é possível observar comportamentos relacionados à comparação estética e busca por padrões físicos impostos socialmente.
“Estamos vivendo uma época em que as pessoas querem permanecer jovens cada vez mais, recorrendo a procedimentos e mudanças estéticas. Isso gera ansiedade, depressão, insônia e outros problemas emocionais”, afirmou.
Como identificar sinais de alerta?
Pais e responsáveis devem estar atentos a mudanças comportamentais, segundo a psicoterapeuta. Entre os principais sinais estão:
- Alterações bruscas na alimentação;
- Consumo excessivo de proteínas ou dietas restritivas;
- Obsessão por exercícios físicos;
- Pedido frequente por suplementos;
- Compra escondida de substâncias;
- Irritabilidade;
- Isolamento social;
- Comportamentos compulsivos relacionados ao corpo.
“Tenho pacientes que ficam isolados no quarto fazendo exercícios repetidamente para alcançar determinado padrão. A irritabilidade e as mudanças alimentares costumam ser sinais iniciais importantes”, revelou.
Diante do avanço das redes sociais na rotina dos jovens, a especialista reforça a necessidade de diálogo entre famílias e adolescentes sobre consumo de conteúdo digital, autoestima e saúde mental.
“Precisamos prestar mais atenção em questões que antes não exigiam preocupação, como o impacto da internet no desenvolvimento emocional”, concluiu.
A entrevista completa foi concedida ao Rotativo News, em Feira de Santana.
