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Podcast Super Sincera
24 de Fevereiro de 2026

Por Manu Pilger

94 anos do voto feminino no Brasil
Algumas datas não chegam com alarde. Não têm fogos, não viram feriado, não estampam capas. Mas carregam pequenas revoluções que mudam o curso da história. 24 de fevereiro de 1932 é uma delas.


Foi nesse dia que o Brasil instituiu, por meio do Código Eleitoral, o direito ao voto feminino. Não foi um gesto generoso do Estado. Foi resultado de mobilização, de articulação, de mulheres que se recusaram a aceitar que política fosse território exclusivo dos homens.


Até então, o país decidia seus rumos sem ouvir metade da população. O voto feminino não foi apenas um direito jurídico. Foi o reconhecimento de que mulheres pensam, opinam, escolhem. Até então, o poder público era legalmente um feudo masculino. Foi a primeira fresta aberta numa estrutura que insistia em nos manter como espectadoras.


Mas é preciso dizer: o direito veio com limites. O voto era facultativo e restrito às mulheres alfabetizadas. A igualdade não nasceu pronta. Ela começou como possibilidade. Imagino aquelas primeiras eleitoras. O gesto de depositar a cédula na urna talvez parecesse simples. Mas era um ato carregado de simbolismo. Era o início de uma presença política que havia sido negada por séculos.


Noventa e quatro anos depois, muito avançamos. Elegemos vereadoras, deputadas, governadoras, senadoras, uma presidenta. As mulheres ocupam espaços que antes lhes eram proibidos. Mas ainda somos minoria nas assembleias legislativas, ainda temos participação reduzida na Câmara dos Deputados e no Senado. Em um país onde somos maioria da população, seguimos sub-representadas nos centros de decisão.


com César Oliveira
tema: avaliação das atuais polêmicas da política


com Frei Jorge Rocha
tema: palavra “se”


com César Oliveira
tema: grandes decisões após o carnaval


tema: Crianças não consentem

Há notícias que não informam; elas ferem. O caso envolvendo um piloto da Latam Linhas Aéreas — um homem de 60 anos acusado de liderar uma rede de pedofilia e crimes sexuais contra crianças e adolescentes — é uma delas. Os crimes são tão bárbaros que dispensam descrições detalhadas para que se compreenda a gravidade do que está em jogo

Dados da SaferNet, organização não governamental (ONG) brasileira que promove os direitos humanos na internet, revelam que, entre janeiro e julho de 2025, foram registradas 49.336 denúncias de abuso e exploração sexual infantil no ambiente digital — um aumento de 18,9% em relação a 2024. Hoje, esse tipo de crime representa 64% das denúncias de crimes cibernéticos, com o agravante do uso crescente de inteligência artificial para produzir conteúdos abusivos.

Esse caso expõe uma realidade ainda mais dolorosa: além do principal acusado, havia uma rede de conivência familiar. Uma avó que comercializava as próprias netas; uma mãe que sabia, permitia e participava. Crianças abusadas desde cedo, marcadas por traumas que carregarão por toda a vida.

O que diz a lei diante de tamanha barbárie?
O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) é claro ao afirmar que é dever da família, da sociedade e do Estado garantir, com absoluta prioridade, a proteção integral de crianças e adolescentes. Crimes como estupro de vulnerável, exploração sexual e produção ou compartilhamento de material pornográfico infantil são considerados gravíssimos. As penas podem ultrapassar 15 anos de prisão, com agravantes severos quando há participação de familiares ou organização criminosa.

Ainda assim, especialistas apontam falhas no sistema jurídico brasileiro, seja na lentidão dos processos, seja na dificuldade de aplicar punições proporcionais ao dano causado. A lei existe, mas muitas vezes chega tarde demais para quem já teve a infância destruída.

Não há um culpado “maior” que o outro. O que vemos é uma sociedade adoecida, que perdeu valores e banalizou a responsabilidade de gerar e cuidar de uma vida. Criar um filho exige presença, renúncia e compromisso. Filho não é moeda de troca; é base.

Na semana passada, lembrei-me do versículo bíblico que diz que o amor de muitos esfriaria. Poucos dias depois, a realidade confirma essa dura verdade. Quando o amor esfria, os mais indefesos são os primeiros a sofrer.

Que Deus tenha misericórdia dessas crianças. E que esse caso não seja apenas mais uma notícia a causar indignação passageira, mas um chamado urgente à responsabilidade, à aplicação rigorosa da lei e à proteção efetiva da infância.


com Frei Jorge Rocha
tema: plural


com Frei Jorge Rocha
tema: saudade


com César Oliveira – médico e jornalista
tema: Caso Master e Moraes


com Frei Jorge Rocha
tema: Cair a Ficha

Podcast Super Sincera
22 de Janeiro de 2026

A liberdade de não esperar aplausos

Por Manu Pilger – Mestra em Comunicação pela Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB).

Aprendi, com o tempo, que existem palavras que nascem em outros idiomas, mas ganham morada definitiva na nossa rotina emocional. Haters é uma delas. Importada do inglês, a tradução é simples e dura: odiadores. Gente que, por razões que nem sempre entendemos, prefere gastar energia torcendo contra.

Na mesma prateleira da comunicação digital estão os lovers, aqueles que aplaudem, incentivam, celebram. E foi pensando nessa convivência entre amor e rejeição que me peguei refletindo sobre o quanto a necessidade de reconhecimento atravessa a vida das pessoas e, muitas vezes, as machuca.

Essa semana, uma amiga me confidenciou sua dificuldade em aceitar uma verdade incômoda: nem todo mundo que caminha ao nosso lado está torcendo por nós. No trabalho, temos colegas não necessariamente amigos. Na família, às vezes, convivemos com laços que não sabem amar como deveriam. E isso dói, porque esperamos do outro aquilo que faz sentido para nós.

Em algum momento da vida, precisei aprender, não sem resistência, que o mundo não se molda para caber nos nossos afetos. Ouvi isso na terapia, como quem recebe um aviso necessário: o mundo não vira uma bolha para nos proteger. Cabe a nós aprender a ler as pessoas, separar o joio do trigo e criar estratégias emocionais para conviver sem adoecer.

Foi esse aprendizado que compartilhei com minha amiga. Falei também de um livro que me atravessou profundamente: O Ego é o Seu Maior Inimigo, de Ryan Holiday. Porque existe algo muito humano, quase inevitável, em querer ser visto. Queremos que percebam nosso crescimento, nosso esforço, nosso corpo mudando, nossa disciplina diária, nosso trabalho bem feito.

E é legítimo ficar triste quando esse reconhecimento não chega.

Mas foi libertador descobrir que a maturidade começa quando a gente para de esperar aplausos. Quando entendemos que nem toda plateia é sincera e que nem todo elogio nasce da admiração. Às vezes, o silêncio do outro diz mais sobre ele do que sobre nós.

Construir autoestima é um exercício silencioso. Autoafirmação não faz barulho. Convicção pessoal não depende de curtidas. Estar bem consigo mesmo é uma tarefa diária e profundamente revolucionária num mundo que nos ensina a buscar validação o tempo inteiro.

Hoje, sigo com a certeza de que valores morais e éticos sustentam muito mais do que aprovação alheia. O que me move é saber quem eu sou, o que faço e por que faço. O resto é ruído.

E assim sigo: sem esperar aplausos, sem contar plateias, mas com a tranquilidade de quem aprendeu que a própria consciência é o palco mais honesto que existe.

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