O recente caso de violência sexual ocorrido em Copacabana nos coloca diante de uma reflexão profunda sobre algo que a filósofa Hannah Arendt chamou de banalidade do mal: quando atos profundamente cruéis passam a existir em ambientes onde, teoricamente, ninguém esperaria encontrá-los.
O episódio, envolvendo jovens de 17, 18 e 19 anos, expõe mais uma face da grave violência contra mulheres que ainda marca a sociedade brasileira. Independentemente de classe social, endereço ou condição econômica, crimes dessa natureza revelam uma falha profunda na formação de valores como respeito, empatia e responsabilidade.
E é justamente aí que surge uma discussão que a sociedade ainda evita: a importância da educação sexual e afetiva.
Durante muitos anos, quando trabalhei como professora na educação infantil, ouvi pais e mães se referirem a colegas de sala como “namoradinha” ou “namoradinho” de seus filhos. Pode parecer algo inocente, até carinhoso. Mas vale uma reflexão: quando adultos começam a romantizar relações entre crianças, criam-se narrativas que naturalizam papéis e expectativas que não pertencem à infância.
Criança precisa viver a infância. E parte da responsabilidade dos adultos é educar para o respeito ao corpo, aos limites e ao consentimento.
Falar sobre sexualidade com crianças e adolescentes não significa incentivar comportamentos precoces. Significa orientar, esclarecer e prevenir. É uma forma de evitar situações de risco, reduzir a desinformação e fortalecer valores que ajudam a construir relações mais saudáveis no futuro.
Educar também é acompanhar. É saber com quem os filhos estão, quais ambientes frequentam e quais referências estão recebendo.
Casos como esse nos lembram que educação, diálogo e presença familiar continuam sendo pilares fundamentais para a formação de uma sociedade mais justa e segura.
Que a justiça cumpra seu papel e que a investigação esclareça todos os fatos. E que esse episódio sirva, acima de tudo, para reforçar uma conversa que não pode mais ser evitada: a necessidade de educar nossas novas gerações para o respeito.
Na próxima semana eu volto com mais uma reflexão no Super Sincera.
94 anos do voto feminino no Brasil Algumas datas não chegam com alarde. Não têm fogos, não viram feriado, não estampam capas. Mas carregam pequenas revoluções que mudam o curso da história. 24 de fevereiro de 1932 é uma delas.
Foi nesse dia que o Brasil instituiu, por meio do Código Eleitoral, o direito ao voto feminino. Não foi um gesto generoso do Estado. Foi resultado de mobilização, de articulação, de mulheres que se recusaram a aceitar que política fosse território exclusivo dos homens.
Até então, o país decidia seus rumos sem ouvir metade da população. O voto feminino não foi apenas um direito jurídico. Foi o reconhecimento de que mulheres pensam, opinam, escolhem. Até então, o poder público era legalmente um feudo masculino. Foi a primeira fresta aberta numa estrutura que insistia em nos manter como espectadoras.
Mas é preciso dizer: o direito veio com limites. O voto era facultativo e restrito às mulheres alfabetizadas. A igualdade não nasceu pronta. Ela começou como possibilidade. Imagino aquelas primeiras eleitoras. O gesto de depositar a cédula na urna talvez parecesse simples. Mas era um ato carregado de simbolismo. Era o início de uma presença política que havia sido negada por séculos.
Noventa e quatro anos depois, muito avançamos. Elegemos vereadoras, deputadas, governadoras, senadoras, uma presidenta. As mulheres ocupam espaços que antes lhes eram proibidos. Mas ainda somos minoria nas assembleias legislativas, ainda temos participação reduzida na Câmara dos Deputados e no Senado. Em um país onde somos maioria da população, seguimos sub-representadas nos centros de decisão.
Há notícias que não informam; elas ferem. O caso envolvendo um piloto da Latam Linhas Aéreas — um homem de 60 anos acusado de liderar uma rede de pedofilia e crimes sexuais contra crianças e adolescentes — é uma delas. Os crimes são tão bárbaros que dispensam descrições detalhadas para que se compreenda a gravidade do que está em jogo
Dados da SaferNet, organização não governamental (ONG) brasileira que promove os direitos humanos na internet, revelam que, entre janeiro e julho de 2025, foram registradas 49.336 denúncias de abuso e exploração sexual infantil no ambiente digital — um aumento de 18,9% em relação a 2024. Hoje, esse tipo de crime representa 64% das denúncias de crimes cibernéticos, com o agravante do uso crescente de inteligência artificial para produzir conteúdos abusivos.
Esse caso expõe uma realidade ainda mais dolorosa: além do principal acusado, havia uma rede de conivência familiar. Uma avó que comercializava as próprias netas; uma mãe que sabia, permitia e participava. Crianças abusadas desde cedo, marcadas por traumas que carregarão por toda a vida.
O que diz a lei diante de tamanha barbárie? O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) é claro ao afirmar que é dever da família, da sociedade e do Estado garantir, com absoluta prioridade, a proteção integral de crianças e adolescentes. Crimes como estupro de vulnerável, exploração sexual e produção ou compartilhamento de material pornográfico infantil são considerados gravíssimos. As penas podem ultrapassar 15 anos de prisão, com agravantes severos quando há participação de familiares ou organização criminosa.
Ainda assim, especialistas apontam falhas no sistema jurídico brasileiro, seja na lentidão dos processos, seja na dificuldade de aplicar punições proporcionais ao dano causado. A lei existe, mas muitas vezes chega tarde demais para quem já teve a infância destruída.
Não há um culpado “maior” que o outro. O que vemos é uma sociedade adoecida, que perdeu valores e banalizou a responsabilidade de gerar e cuidar de uma vida. Criar um filho exige presença, renúncia e compromisso. Filho não é moeda de troca; é base.
Na semana passada, lembrei-me do versículo bíblico que diz que o amor de muitos esfriaria. Poucos dias depois, a realidade confirma essa dura verdade. Quando o amor esfria, os mais indefesos são os primeiros a sofrer.
Que Deus tenha misericórdia dessas crianças. E que esse caso não seja apenas mais uma notícia a causar indignação passageira, mas um chamado urgente à responsabilidade, à aplicação rigorosa da lei e à proteção efetiva da infância.