
por Emanueli Marques Pilger
Dizem que a solidão é uma senhora elegante. Anda devagar, pisa macio, não faz barulho quando entra. E talvez seja por isso que a gente só percebe sua presença quando ela já está sentada no sofá, tomando o nosso café e perguntando, com aquela voz mansa: “Como você tem vivido?”
E, como lembra Noreena Hertz, economista britânica e uma das principais estudiosas da solidão contemporânea, vivemos num tempo em que a conexão é abundante, mas o vínculo humano é raro.
Talvez por isso nossas sociedades tenham se tornado progressivamente mais solitárias.
A gente coleciona seguidores, mas falta quem nos siga de verdade. Florestas de contatos no celular, desertos de afeto na vida real. É curioso… nunca estivemos tão conectados, e ainda assim tão desconectados uns dos outros. É como se o mundo tivesse perdido o hábito de conversar devagar, olhar nos olhos, ouvir o silêncio do outro sem querer preenchê-lo.
Talvez seja culpa da pressa essa velha ditadora que manda mais do que deveria. Talvez seja culpa do medo esse guardião que não nos deixa atravessar a ponte da vulnerabilidade. Ou, quem sabe, seja só o tempo dizendo que precisamos reaprender a estar juntos.
O fato é que a solidão virou companheira diária: nos acompanha no trânsito, na fila do banco, no supermercado e até no meio da multidão. Ela se esconde nas notificações que chegam, mas não tocam. Nos abraços que damos correndo. Nos “como você está?” ditos sem intenção de ouvir a resposta.
A verdade é que ninguém precisa ser ilha. Somos arquipélagos e pontes podem ser construídas todos os dias. Talvez seja esse o convite da vida agora: desacelerar, reaprender a tocar as pessoas, ainda que com palavras, ainda que com cuidado. Relembrar que vínculos não se fazem com curtidas, mas com presença.
E, no final das contas, quando a solidão insistir em bater à porta porque ela sempre volta que ela encontre a casa cheia de vozes, memórias e afetos. Que encontre a gente cercada de gente. E de nós mesmas.
Porque solidão existe, sim. Mas pertencimento também.
E, quando ambos se encontram, a vida fica mais leve, mais humana, mais nossa.
