
com Frei Jorge Rocha
tema: Cair a Ficha

com Frei Jorge Rocha
tema: Cair a Ficha

A liberdade de não esperar aplausos
Por Manu Pilger – Mestra em Comunicação pela Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB).
Aprendi, com o tempo, que existem palavras que nascem em outros idiomas, mas ganham morada definitiva na nossa rotina emocional. Haters é uma delas. Importada do inglês, a tradução é simples e dura: odiadores. Gente que, por razões que nem sempre entendemos, prefere gastar energia torcendo contra.
Na mesma prateleira da comunicação digital estão os lovers, aqueles que aplaudem, incentivam, celebram. E foi pensando nessa convivência entre amor e rejeição que me peguei refletindo sobre o quanto a necessidade de reconhecimento atravessa a vida das pessoas e, muitas vezes, as machuca.
Essa semana, uma amiga me confidenciou sua dificuldade em aceitar uma verdade incômoda: nem todo mundo que caminha ao nosso lado está torcendo por nós. No trabalho, temos colegas não necessariamente amigos. Na família, às vezes, convivemos com laços que não sabem amar como deveriam. E isso dói, porque esperamos do outro aquilo que faz sentido para nós.
Em algum momento da vida, precisei aprender, não sem resistência, que o mundo não se molda para caber nos nossos afetos. Ouvi isso na terapia, como quem recebe um aviso necessário: o mundo não vira uma bolha para nos proteger. Cabe a nós aprender a ler as pessoas, separar o joio do trigo e criar estratégias emocionais para conviver sem adoecer.
Foi esse aprendizado que compartilhei com minha amiga. Falei também de um livro que me atravessou profundamente: O Ego é o Seu Maior Inimigo, de Ryan Holiday. Porque existe algo muito humano, quase inevitável, em querer ser visto. Queremos que percebam nosso crescimento, nosso esforço, nosso corpo mudando, nossa disciplina diária, nosso trabalho bem feito.
E é legítimo ficar triste quando esse reconhecimento não chega.
Mas foi libertador descobrir que a maturidade começa quando a gente para de esperar aplausos. Quando entendemos que nem toda plateia é sincera e que nem todo elogio nasce da admiração. Às vezes, o silêncio do outro diz mais sobre ele do que sobre nós.
Construir autoestima é um exercício silencioso. Autoafirmação não faz barulho. Convicção pessoal não depende de curtidas. Estar bem consigo mesmo é uma tarefa diária e profundamente revolucionária num mundo que nos ensina a buscar validação o tempo inteiro.
Hoje, sigo com a certeza de que valores morais e éticos sustentam muito mais do que aprovação alheia. O que me move é saber quem eu sou, o que faço e por que faço. O resto é ruído.
E assim sigo: sem esperar aplausos, sem contar plateias, mas com a tranquilidade de quem aprendeu que a própria consciência é o palco mais honesto que existe.

com César Oliveira
tema: definições da politica 2026

com Frei Jorge Rocha
tema: palavras terminadas em Z

Quando pedir ajuda deixa de ser vergonha
Por Manu Pilger – Mestra em Comunicação pela Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB).
Por muito tempo nos ensinaram a engolir o choro, a seguir em frente sem perguntar como, a acreditar que pedir ajuda era sinal de fraqueza. Crescemos ouvindo que quem é forte resolve tudo sozinho. E assim, muita gente aprendeu a sofrer em silêncio.
O Janeiro Branco chega para lembrar que a saúde mental também precisa de cuidado e que sentir não é falha, é humano. Medo e vergonha costumam ser as primeiras barreiras quando o assunto é buscar ajuda especializada. Medo de julgamento. Vergonha de admitir que algo não vai bem.
Mas não há fraqueza em procurar um psicólogo. Há coragem. Há responsabilidade consigo mesmo. Há um gesto de amor que começa quando a gente decide não enfrentar tudo sozinho. A dor que não é acolhida não desaparece. Ela se acumula, se disfarça, se manifesta no corpo, no humor, nas relações. Cuidar da mente é interromper esse ciclo antes que ele machuque mais.
Que a gente aprenda, pouco a pouco, a perder o medo e a vergonha. Que pedir ajuda deixe de ser tabu e passe a ser caminho. Porque cuidar da saúde mental não é sobre dar conta de tudo é sobre se permitir continuar.

com Frei Jorge Rocha
tema: palavras universais

com Manu Pilger
Mestra em Comunicação pela Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB).
Quando a corrida deixa de ser coletiva
O país inteiro comentou, nos últimos dias, a história da mulher que abandonou o amigo durante uma trilha no Pico do Paraná. Ele ficou cinco dias perdido, enfrentando frio, fome, exaustão e medo. O caso chocou não apenas pela situação extrema, mas pelas falas posteriores da amiga, que escancararam uma discussão maior: confiança, responsabilidade e limites.
Mas é para além do fato isolado que essa história precisa nos levar.
Ela lança luz sobre um cenário cada vez mais comum e pouco debatido dentro dos grupos de corrida, trilhas e ciclismo. Ambientes que deveriam promover saúde, bem-estar e coletividade vêm, em muitos casos, se transformando em espaços tóxicos, alimentados por uma competitividade excessiva e, muitas vezes, estimulada por quem deveria orientar.
Falo com propriedade. Entrei na corrida aos 20 anos e, durante muito tempo, participei de grupos. Com o passar dos anos e das experiências, fiz uma escolha consciente: me afastar. Não por falta de amor ao esporte, mas pelo ambiente que se formava. Um espaço onde o outro deixa de ser companheiro e passa a ser concorrente. Onde o desempenho vira régua de valor: quem corre mais, quem tem o melhor tênis, quem viaja para provas fora do país, quem aparece mais.
E tudo isso vai corroendo, silenciosamente, a saúde mental.
Hoje, qualquer consulta médica começa com a mesma pergunta: você pratica atividade física? E a recomendação vem quase como uma prescrição. A atividade física é remédio. Ajuda no corpo, na mente, na longevidade. Libera endorfina, melhora o humor, organiza pensamentos. Mas quando essa prática acontece em ambientes que estimulam comparação constante, disputa desnecessária e vaidade travestida de performance, ela deixa de ser cura e passa a ser gatilho.
O abandono na trilha não é um ponto fora da curva. Ele é sintoma. Em muitos clubes e grupos, especialmente formados por atletas amadores pessoas que não vivem do esporte a lógica da competição se sobrepõe à lógica do cuidado. E quando alguém é deixado para trás, literal ou simbolicamente, a pergunta que fica não é sobre pace ou colocação. É sobre caráter.
Isso nos leva a um questionamento inevitável: quem são as pessoas com quem escolhemos caminhar, correr, pedalar e viver?
É importante dizer: não deixe de fazer atividade física por causa disso. Todo ambiente terá alguém tóxico. Sempre haverá quem queira se destacar às custas do outro. O aprendizado está em não permitir que essas pessoas nos contaminem, e em saber escolher melhor nossas companhias.
O caso do Pico do Paraná precisa, sim, ser debatido. Não apenas como um episódio extremo, mas como um alerta. Saúde não combina com abandono. Movimento não combina com ego. E nenhuma conquista vale mais do que a humanidade que se perde no caminho.

Confira a opinião do médico e jornalista César Oliveira, sobre a captura do ditador da Venezuela, Maduro.
com César Oliveira
tema: situação da Venezuela

Ensaios da superstição
Final de 2025.
E, como manda o figurino, as pessoas já começaram os ensaios da superstição.
É a cor da roupa que vai “chamar” o que se deseja para o ano seguinte. Branco para a paz, amarelo para o dinheiro, vermelho para o amor — como se o destino obedecesse ao guarda-roupa. Tem quem pule sete ondas, quem guarde doze caroços de uva na carteira, quem faça questão de entrar o ano com o pé direito… ou discuta se vale o esquerdo, ou se os dois ao mesmo tempo não dariam mais garantia.
Há quem coma lentilha, quem evite andar para trás, quem não coma aves porque elas ciscam para trás — afinal, ninguém quer retroceder logo na virada. Uma coleção de rituais que, além de alimentar a esperança, movimenta também o mercado das festas de Réveillon, das promessas, das viradas cinematográficas.
Mas, passada a contagem regressiva e os fogos, talvez a pergunta mais honesta seja outra:
em que cenário, de fato, estamos entrando?
2026 não será apenas mais um ano. Será um ano eleitoral no Brasil, com eleições para deputados estaduais e federais. Será também ano de Copa do Mundo, com o Brasil em busca do tão sonhado hexa. E, paralelamente a tudo isso, haverá você — tentando organizar a própria vida.
Você que quer tirar o nome do SPC, começar uma dieta, iniciar uma faculdade, concluir uma pós-graduação. Você que pensa em transformar namoro em noivado, noivado em casamento. Você que carrega sonhos silenciosos e metas que só você conhece. Planos absolutamente legítimos de qualquer pessoa em sã consciência.
Mas não adianta começar um ano novo tentando criar uma vida nova apenas pela roupa escolhida no Réveillon.
Sonhos exigem mais do que simpatias.
Metas pedem mais do que rituais.
Vida nova requer planejamento. Pode ser simples, feito à mão mesmo: caneta, papel, agenda. Algo que acompanhe seus passos ao longo do ano, não só na empolgação da virada, mas nos dias comuns — aqueles em que ninguém está olhando, em que não há fogos nem contagem regressiva.
Com saúde, o resto a gente constrói.
Mas construção exige coragem.
Coragem para enfrentar o que precisa ser enfrentado para alcançar os resultados que se deseja. Não adianta o ano mudar se você permanece na inércia. Movimento é condição básica para qualquer virada real.
E lembre-se: nem tudo depende exclusivamente de você. Para aquilo que não depende, não se magoe, não se martirize, não se perca em culpas inúteis. Mas, para aquilo que depende só de você, entregue o seu melhor.
Não apenas na noite da virada.
Mas em todos os outros 364 dias de 2026.
Que seja um ano de prosperidade, de realizações — e, sobretudo, de coragem.
Feliz Ano Novo.
Em 2026, seguimos juntos no Super Sincera, aqui no Rotativo News.