Desde a chegada dos primeiros judeus à colônia holandesa de New Amsterdam (atual Nova York) em 1654, a relação se mantém forte

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População de judeus nos Estados Unidos é quase igual à de Israel | Foto: Nancy Siesel/ZUMA Press Wire/Reuters

A relação entre Israel e Estados Unidos, embora marcada por momentos de divergências, como a crítica de Donald Trump à política israelense em relação ao Hezbollah e ao Irã, é historicamente forte e se perpetua desde a chegada dos primeiros judeus à América em 1654. Organizações como a AIPAC desempenham um papel crucial na defesa dos interesses israelenses no Congresso dos EUA, apoiando candidatos alinhados à manutenção dessa aliança, presente na própria sociedade norte-americana como um todo.

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A aliança entre Israel e Estados Unidos vai muito além dos governos. A relação do governo de Donald Trump com o do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu passa por um momento de turbulência. Esta situação pode parecer surpreendente, em função da comoção com que Trump foi recebido no Knesset, em Jerusalém, depois do acordo que libertou todos os reféns em 2025. Naqueles dias, os elogios mútuos prevaleceram. Isso perdurou por alguns meses, até que Trump passasse a criticar Israel em relação à política contra o Hezbollah e às negociações envolvendo o Irã.

Distanciamentos deste tipo não são novidade. Até nos tempos do judeu Henry Kissinger, que foi secretário de Estado no governo de Richard Nixon (1969–1974), a primeira-ministra Golda Meir teve dificuldades em obter de Washington o apoio que desejava durante a Guerra do Yom Kipur (1973).

Depois, na invasão do Líbano, em 1982, foi a vez de o governo de Ronald Reagan se indispor com o de Menachem Begin (1977-1983), cujo ministro da Defesa era o linha-dura Ariel Sharon. Na década de 1990, o presidente George H. W. Bush pressionou o governo de Yitzhak Shamir (1986–1992) em razão da expansão de assentamentos. Em 2015, Benjamin Netanyahu discursou no Congresso dos EUA contra o acordo nuclear negociado pelo presidente Barack Obama com o Irã, num episódio que evidenciou as diferenças entre os dois governos.

Mas enquanto políticos debatem nos gabinetes, o dia a dia nos dois países realçam uma relação forte que se perpetua. Isso desde a chegada dos primeiros judeus à colônia holandesa de New Amsterdam (atual Nova York) em 1654, vindos de Recife, depois que Portugal tomou o controle da Holanda naquela região do país. Um dos que chegaram antes foi Asser Levy já em agosto de 1654, antes ou junto do grupo mais conhecido de 23 judeus vindos de Recife.

Levy foi o precursor da inserção judaica na sociedade norte-americana, ao lutar por direitos civis numa colônia que inicialmente impunha restrições aos judeus. O governador Peter Stuyvesant tentou impedir a permanência deles, mas a Companhia Holandesa das Índias Ocidentais obrigou a aceitação, ainda que sob limitações e impostos adicionais.

A atuação de Levy se destacou pela defesa legal do grupo. Ele entrou com petições contra medidas discriminatórias, como a obrigação de pagar taxa militar sem direito de servir na milícia. Em 1655, ele contestou essa regra e conseguiu, depois de recurso às autoridades superiores da Companhia na Holanda, o direito de ser tratado como os demais cidadãos em serviço de guarda.

A partir de então, a comunidade judaica foi se integrando, a ponto de, em 1906, ser criado o American Jewish Committee (AJC). Esta se tornou uma das mais tradicionais organizações de direitos civis e de defesa dos interesses da comunidade judaica nos EUA. Já faz parte, inclusive, da rotina norte-americana, atuando em pautas mais amplas de direitos civis, liberdade religiosa, combate ao discurso de ódio e cooperação internacional.

Do ponto de vista político, o principal representante de Israel nos EUA passou a ser o American Zionist Committee for Public Affairs (AIPAC), fundada em 1963. Trata-se de um comitê para defender os interesses de Israel junto ao Congresso e ao governo dos EUA.

Nas eleições norte-americanas de 2024, por exemplo, a AIPAC apoiou formalmente 361 candidatos à Câmara dos Representantes e ao Senado. Destes, 326 foram eleitos. Na prática, mais de nove em cada dez candidatos endossados pela organização conquistaram mandato.

O alcance desse apoio chega a democratas e republicanos. Em cada ciclo eleitoral, entre 320 e 360 parlamentares recebem contribuições da entidade ou de estruturas ligadas a ela. Considerando que a Câmara dos Representantes possui 435 integrantes e o Senado possui 100, trata-se de uma presença que alcança uma parcela significativa do Congresso dos Estados Unidos.

Para as eleições de meio de mandato de 2026, grupos pró-Israel iniciaram a disputa com mais de US$ 100 milhões destinados a campanhas políticas, por meio do United Democracy Project, braço independente voltado à disputa eleitoral. O objetivo é apoiar candidatos alinhados à manutenção da relação entre Washington e Jerusalém e financiar campanhas contra adversários políticos considerados críticos a essa parceria.

A atuação também inclui o relacionamento direto com congressistas. Desde o final de 2023, o braço educacional da organização financiou viagens a Israel para pelo menos 26 deputados democratas e 52 republicanos. As delegações participam de encontros com autoridades, visitas a instalações militares e apresentações sobre segurança, política regional e cooperação estratégica.

A influência da relação entre os dois países também aparece em decisões concretas do Congresso. Em 2016, durante o governo Obama, EUA e Israel assinaram um memorando de entendimento que prevê US$ 38 bilhões em assistência militar ao longo de dez anos. Trata-se do maior compromisso de ajuda militar já firmado pelos EUA com outro país.

Parte desses recursos ajuda a financiar programas conjuntos de defesa. Um dos casos mais conhecidos é o Iron Dome, sistema de interceptação de foguetes utilizado por Israel. Ao longo dos anos, democratas e republicanos aprovaram sucessivos pacotes de financiamento para o programa, inclusive em momentos de forte polarização política interna nos EUA.

A cooperação também envolve inteligência, defesa antimísseis, tecnologia militar, segurança cibernética e desenvolvimento de equipamentos utilizados pelos dois países. Enquanto presidentes norte-americanos e primeiros-ministros israelenses discutem estratégias para guerras, negociações diplomáticas ou questões regionais, essas áreas continuam operando por meio de acordos, programas e estruturas já estabelecidas.

O trabalho do AIPAC aumentou desde o início da guerra contra o Hamas em outubro de 2023. Foi quando a AIPAC criou um super Political Action Committee (PAC), o United Democracy Project (UDP), que investiu somas recordes para apoiar seus adversários nas eleições primárias democratas de 2024.

Um super PAC arrecada e gasta valores ilimitados em campanhas independentes — como anúncios de TV, rádio, internet e mala direta — desde que não coordene essas ações com a campanha oficial do candidato. Ao contrário do PAC, só não pode doar dinheiro diretamente aos candidatos.

“As redes sociais e campanhas de propaganda bem financiadas espalharam falsidades em grande quantidade”, diz a Oeste o ex-oficial da Marinha dos EUA, Alan Slabodkin, 72 anos. “Dá a impressão, muitas vezes, que estamos vivendo em um país diferente daquele de poucos anos atrás, especialmente depois de 7 de outubro.”

Em função desta atuação, candidaturas verdadeiramente hostis a Israel, beirando o antissemitismo, foram derrotadas. Uma delas foi a de Jamaal Bowman, que buscava a reeleição para a Câmara dos Representantes dos EUA. Ele representava um distrito de Nova York e tornou-se um dos principais críticos da política israelense em Gaza. Nas primárias democratas de 2024, enfrentou o então executivo do condado de Westchester, George Latimer.

A disputa entrou para a história como a eleição primária para a Câmara dos Representantes mais cara já realizada nos EUA. Grupos ligados à AIPAC gastaram aproximadamente US$ 15 milhões em apoio a Latimer, que derrotou Bowman por algo em torno de 59% a 41%.

Poucas semanas depois, Cori Bush enfrentou situação semelhante no Missouri. Também integrante do grupo conhecido como The Squad, Bush defendia um cessar-fogo em Gaza e criticava a condução da guerra por Israel. O UDP investiu aproximadamente US$ 8,5 milhões em apoio ao promotor Wesley Bell, que derrotou Bush nas primárias democratas. Foi a segunda grande vitória eleitoral da AIPAC contra integrantes da ala hostil a Israel naquele ciclo eleitoral.

“Em alguns círculos, o apoio à guerra contra Israel passou a ser apresentado como apoio aos direitos de povos oprimidos”, acrescenta Slabodkin. “Tornou-se uma espécie de efeito manada tanto em partes da esquerda quanto da direita radical, e o nível de ignorância e incompreensão pode ser surpreendente. Muitas pessoas mal conseguem localizar Israel no mapa, quanto mais entender os múltiplos atores envolvidos no conflito.”

A AIPAC é financiada principalmente por doações privadas de cidadãos norte-americanos, incluindo empresários, investidores, profissionais liberais e outros apoiadores da relação entre EUA e Israel. Como organização de lobby, ela não recebe recursos do governo de Israel.

Judeus de Israel e dos Estados Unidos

Vale lembrar que, nos EUA, o conceito de lobby é diferente em relação ao Brasil. O lobby norte-americano é considerado uma forma legítima de participação política e está protegido, em grande medida, pela Primeira Emenda da Constituição dos EUA, que garante aos cidadãos o direito de solicitar ações do governo e defender seus interesses.

Desta maneira, cidadãos norte-americanos, a maioria bilionária, se sentiram livres para realizar doações para a AIPAC. Entre eles, estão:

Bernie Marcus (1929–2024) – norte-americano. Cofundador da Home Depot. Foi um dos grandes financiadores de causas pró-Israel e de grupos políticos nos Estados Unidos, incluindo doações ao United Democracy Project.

Paul Singer – 81 anos, norte-americano. Gestor de fundos de investimento e fundador da Elliott Investment Management. Entre os principais doadores de organizações pró-Israel e de campanhas políticas nos EUA.

Jan Koum – 50 anos, norte-americano naturalizado (nascido na Ucrânia, então União Soviética). Cofundador do WhatsApp e um dos grandes financiadores individuais do United Democracy Project no ciclo eleitoral de 2024.

Michael Leffell – 75 anos, norte-americano. Investidor e filantropo, com atuação em organizações judaicas e iniciativas pró-Israel.

Joshua Harris – 61 anos, norte-americano. Investidor bilionário, cofundador da Apollo Global Management, com doações registradas a comitês políticos e causas ligadas ao UDP.

Já os críticos argumentam que o volume de recursos arrecadado pelo UDP e por outros comitês ligados à AIPAC lhes confere influência desproporcional sobre eleições, especialmente nas primárias para a Câmara dos Representantes. No entanto, a AIPAC não é única nesse aspecto. Nos EUA, diversos setores mantêm organizações de lobby e super PACs altamente financiados — como sindicatos, associações empresariais, grupos ambientais e entidades ligadas a diferentes causas políticas.

Iniciativas como esta, e a de entidades como o AJC, fortalecem a relação entre os dois países. A população judaica nos EUA é de 7,5 milhões, quase igual à de Israel. Esta relação institucional faz da população judaica, e dos representantes de Israel, uma parte da sociedade norte-americana. Imune, o máximo possível, a qualquer rusga entre governos. O objetivo, pelo menos, é esse: unir o God Bless America (Deus Salve a América) com o Am Israel Chai (O Povo de Israel Vive).

Informações Revista Oeste

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