Super Sincera por Manu Pilger
7 de Agosto de 2026

O Silêncio também comunica
Mestra em Comunicação UFRB

Como professora universitária, convivo diariamente com sonhos. São estudantes que acreditam que o conhecimento pode transformar suas vidas e que se preparam, com dedicação, para conquistar uma oportunidade no mercado de trabalho. Mas, na mesma proporção em que escuto planos, também escuto frustrações. Antes que alguém diga que é “mimimi” da geração Z, ou de qualquer outra geração, proponho uma reflexão: a falta de retorno após um processo seletivo diz muito mais sobre a comunicação organizacional da empresa do que sobre a ansiedade de quem procura um emprego.

Pense comigo. A empresa anuncia uma vaga. Recebe currículos. Entra em contato. Agenda entrevistas. Mobiliza pessoas. Do outro lado, existe alguém que escolhe a melhor roupa, organiza certificados, revisa o currículo, pesquisa sobre a empresa e, principalmente, se prepara emocionalmente. Quem busca uma vaga não leva apenas documentos. Leva esperança. E esperança também tem custo.
Lembro-me de um aluno que sequer tinha dinheiro para pagar o transporte até uma entrevista. Com a ajuda de um parente, conseguiu chegar à empresa. Saiu de lá ouvindo a frase que tantos candidatos escutam: “Em breve entraremos em contato.”
Esse contato nunca aconteceu. Talvez alguém pense que é apenas um detalhe. Não é. O silêncio também comunica. Quando uma empresa deixa de responder a um candidato, ela não está apenas encerrando um processo seletivo sem aviso. Está revelando algo sobre sua cultura organizacional, sua gestão e, principalmente, sobre a forma como enxerga as pessoas.
Comunicação organizacional não é apenas produzir campanhas bonitas, alimentar redes sociais ou divulgar resultados. Comunicação organizacional também é cumprir compromissos, administrar expectativas e conduzir conversas difíceis com respeito. Dizer “não” faz parte da gestão. Ignorar, não.
O que custa enviar uma mensagem dizendo: “Neste momento, seu perfil não foi o escolhido para esta vaga. Agradecemos sua participação e manteremos seu currículo em nosso banco de talentos para futuras oportunidades”?

Essa resposta pode não eliminar a decepção, mas preserva algo muito maior: a dignidade de quem dedicou tempo, esforço e expectativa ao processo. No fim das contas, talvez o problema não esteja na geração que quer respostas rápidas. Talvez esteja em empresas que ainda não compreenderam que respeito também faz parte da experiência do candidato. Porque quem acredita que o silêncio não comunica ainda não entendeu a essência da comunicação. E, às vezes, a ausência de uma resposta fala muito mais alto do que qualquer resposta negativa.

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