Por Eduardo Brandão

Jair Bolsonaro alterou de forma significativa o cenário da direita conservadora brasileira. A ele é atribuído o mérito de ampliar a visibilidade desse campo político, transformando-o em uma força eleitoral competitiva e consolidando uma base de eleitores identificada com sua liderança. Bolsonaro, contudo, está sequestrado politicamente e incomunicável.

Nesse contexto, a discussão sobre quem deve representar esse legado tornou-se um dos principais temas do debate político. Os apoiadores originários considera natural que a família Bolsonaro ocupe posição de destaque nesse processo, por entender que esteve presente durante toda a trajetória política do ex-presidente e compartilhou os custos e desafios de sua atuação pública.

Por isso soa estranho ver, logo agora, um coro de “raposas velhas” da direita tentando convencer o eleitor bolsonarista de que a família deveria “dar um passo atrás”. Curiosamente, são os mesmos que sempre mantiveram distância prudente de Bolsonaro nos momentos difíceis e que agora reaparecem se oferecendo como “herdeiros legítimos” do movimento — sem nunca terem sido escolhidos por ninguém para isso.

Quem construiu esse campo político foi Bolsonaro. Quem tem legitimidade para indicar continuidade é ele e sua família, não figuras que historicamente preferiram surfar a onda a enfrentar a maré.

Não há ingênuos aqui: é estratégia coordenada. Enterrar Bolsonaro, os presos do “8 de janeiro” e a voz das ruas; sobreviver como oposição autorizada enquanto o país paga a conta tendo sucumbir à reeleição Lula e do PT. O eleitor que vestiu verde e amarelo não foi convocado por essas figuras; foi chamado por Bolsonaro.

Existe um ponto, porém, sobre o qual dificilmente existe divergência: em uma democracia representativa, nenhuma liderança surge ou se perpetua por autoproclamação. O reconhecimento político depende da confiança popular, renovada ou não nas urnas.

É esse processo — e não a reivindicação de qualquer grupo — que define quem efetivamente representará determinado projeto político no futuro. Cabe ao eleitor bolsonarista, e a mais ninguém, decidir se aceita esse convite para “esquecer” quem o levou até aqui.

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