Proposta do ex-banqueiro omite informações e funciona mais como peça de defesa do que como colaboração premiada

O empresário Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master| Foto: Reprodução/Instagram/Martha Graeff
O empresário Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master| Foto: Reprodução/Instagram/Martha Graeff

Os investigadores responsáveis pelo caso que envolve o ex-banqueiro Daniel Vorcaro consideram insuficiente a proposta de delação apresentada por ele às autoridades. Integrantes da apuração avaliam que o empresário estaria “escolhendo alvos” para entregar, ao mesmo tempo em que preserva figuras consideradas centrais nas investigações.

Na lista de aliados protegidos, estaria o senador Ciro Nogueira, alvo de busca e apreensão da Polícia Federal (PF) nesta quinta-feira, 7, sob suspeita de corrupção e lavagem de dinheiro. As informações são da coluna de Malu Gaspar ao jornal O Globo.

Segundo relatos de investigadores envolvidos na análise do material, a colaboração entregue no início da semana omite informações já reunidas pela PF, incluindo suspeitas de pagamentos mensais de até R$ 500 mil ao senador em troca da defesa de interesses do banqueiro no Congresso

Daniel Vorcaro e Alexandre de Moraes e outros membros do STF tomaram uísque escocês da marca Macallan, no refinado George Club, em Londres. Tudo pago por Vorcaro | Foto: Reprodução/X

Nos anexos relacionados ao senador, haveria apenas referências genéricas e consideradas favoráveis ao político. Internamente, o trecho ganhou entre investigadores o apelido de “a beatificação de Ciro”.

O material entregue por Vorcaro às autoridades foi armazenado em dois pendrives, apresentados por seus advogados no início da semana. Investigadores afirmam que os arquivos não trazem novos elementos sobre personagens considerados estratégicos na apuração nem esclarecem vínculos políticos e jurídicos mantidos pelo banqueiro.

A avaliação predominante entre delegados e procuradores é que Vorcaro ainda aposta na rede de influência construída entre políticos e autoridades para buscar alternativas à colaboração premiada. Para integrantes da investigação, o conteúdo entregue se aproxima mais de uma estratégia de defesa do que de uma tentativa efetiva de cooperação com as autoridades.

Segundo a PF, o senador do PP teria “instrumentalizado o exercício do mandato parlamentar em favor dos interesses privados” do controlador do Master.

Ciro Nogueira | Foto: Lula Marques/ Agência Brasil
Ciro Nogueira | Foto: Lula Marques/ Agência Brasil

Proposta de delação de Vorcaro também protege Moraes

Além de Ciro Nogueira, investigadores afirmam que a proposta também deixa de aprofundar relações do banqueiro com outras autoridades citadas nas apurações, como o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, e Jhonatan de Jesus, do Tribunal de Contas da União. 

As suspeitas relativas a Moraes também aparecem nas investigações. Em mensagens obtidas pela PF, Vorcaro questionou o ministro horas antes de sua prisão, em 17 de novembro do ano passado, no Aeroporto Internacional de Guarulhos, quando tentava embarcar para Dubai com escala em Malta.

“Alguma novidade? Conseguiu ter notícia ou bloquear?”, escreveu o banqueiro ao magistrado, segundo documentos da investigação.

Viviane ao lado do marido Alexandre de Moraes
Viviane ao lado do marido, Alexandre de Moraes | Foto: Antonio Augusto/Secom/TSE

Outro ponto sob análise envolve contrato firmado entre o Master e a advogada Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro do STF. O acordo previa pagamentos de R$ 3,6 milhões mensais ao longo de três anos para atuação com órgãos como Receita Federal, Banco Central (BC), Conselho Administrativo de Defesa Econômica e Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional.

Investigadores afirmam, contudo, que a proposta de colaboração não aprofunda nem apresenta novos elementos sobre essa relação.

Uma fonte próxima das negociações afirmou ao O Globo que, “sempre que alguém delata ministro do STF, as coisas desandam”, em referência a acordos anteriores, como a colaboração do ex-governador Sérgio Cabral, que mencionou pagamentos ao ministro Dias Toffoli. A delação acabou anulada pelo Supremo em 2021, com voto do próprio Toffoli.

Daniel Vorcaro durante depoimento à Polícia Federa - 28/12/2025 | Foto: Reprodução/YouTube
Daniel Vorcaro durante depoimento à Polícia Federal – 28/12/2025 | Foto: Reprodução/YouTube

Antes do início das negociações, a defesa de Vorcaro sinalizou às autoridades que o banqueiro apresentaria uma colaboração “séria e completa”, sem preservar aliados. A avaliação interna da PF, porém, é que a promessa não se concretizou.

Em uma conversa interceptada pela PF com a então namorada, a influenciadora Martha Graeff, Vorcaro comparou o sistema bancário a uma organização mafiosa. 

“Esse negócio de banco sempre falei que é igual máfia. Não dá pra sair. Ninguém sai. Bem não sai. Só sai mal”, escreveu o ex-banqueiro em 7 de abril de 2025, período em que tentava obter aprovação do BC para a venda do Master ao BRB — operação posteriormente barrada pela autoridade monetária.

Para os investigadores, o teor da proposta revela que o banqueiro ainda acredita na possibilidade de atravessar a crise sem romper completamente com figuras influentes do meio político e institucional.

Informações Revista Oeste

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