Facilidade de comprar com poucos cliques, publicidade direcionada e busca pelo prazer imediato podem favorecer comportamentos compulsivos. Neuropsicóloga Fabiane Fagundes explica os mecanismos psicológicos e alerta para os riscos do endividamento e do adoecimento emocional.

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O hábito de navegar pelas redes sociais, visualizar ofertas e finalizar compras pelo celular pode parecer inofensivo, mas exige atenção quando o consumo deixa de ser uma escolha consciente e passa a ocupar um espaço excessivo na rotina. A facilidade das compras online, associada à exposição constante à publicidade e às estratégias de marketing digital, pode estimular decisões impulsivas e, em algumas situações, contribuir para o desenvolvimento de comportamentos compulsivos.
Uma reportagem publicada pela Forbes Brasil, em outubro de 2026, aborda como o uso excessivo das telas pode aproximar o consumidor das compras por impulso. Segundo a publicação, anúncios frequentes, recomendações personalizadas, pagamentos rápidos e mensagens que criam uma sensação de urgência reduzem o tempo de reflexão antes da aquisição. O celular acaba funcionando como uma espécie de shopping permanente, disponível a qualquer hora do dia.
A neuropsicóloga Fabiane Fagundes explica que esse processo também envolve mecanismos psicológicos e neurológicos explorados pelas estratégias de marketing. Segundo ela, as empresas estudam o comportamento do consumidor para despertar respostas emocionais e estimular a liberação de dopamina, neurotransmissor relacionado aos mecanismos de recompensa e motivação.
“Quando o marketing e as grandes marcas vão criar um produto, elas estudam profundamente a Psicologia do Consumo para entender como podem afetar uma parte do cérebro, que é o sistema límbico, a parte emocional, para essa pessoa se tornar vulnerável à compra”, explica.
A especialista alerta que a busca frequente pelo prazer imediato pode comprometer a capacidade de controlar os impulsos. Nesse cenário, comprar deixa de representar apenas a satisfação de uma necessidade ou desejo e pode se transformar em um comportamento repetitivo, mesmo diante de consequências negativas.
“Quando você começa a ficar viciado nesse prazer rápido, comprar e a compulsão por jogos fazem parte desse processo. O seu organismo passa a ter menos controle das suas emoções, menos discernimento racional e aí você entra na compulsão”, afirma Fabiane.
Quando comprar deixa de ser uma escolha
É importante diferenciar uma compra por impulso de um quadro de compulsão. Aquisições não planejadas fazem parte do comportamento de consumo e não significam, necessariamente, a existência de um transtorno. O sinal de alerta aparece quando a pessoa perde o controle, repete o comportamento e continua comprando mesmo quando isso provoca prejuízos financeiros, emocionais e familiares.
De acordo com Fabiane, muitas pessoas demoram a reconhecer que precisam de ajuda porque acreditam que podem interromper o comportamento a qualquer momento. A percepção do problema costuma surgir quando as consequências financeiras se tornam difíceis de esconder.
“Geralmente, quando se fala em compras, eu só começo a reconhecer que tenho um problema quando não tenho dinheiro nem para pagar a energia, porque gastei com a compra ou com o jogo”, relata.
A neuropsicóloga destaca que o reconhecimento da perda de controle é o primeiro passo para o tratamento. Entretanto, até chegar a esse momento, a pessoa pode acumular dívidas, enfrentar conflitos familiares e desenvolver sentimentos de frustração e vergonha.
Vergonha e isolamento podem agravar o problema
Outro aspecto preocupante é o impacto da compulsão sobre a saúde emocional. Segundo Fabiane, diante das dificuldades financeiras e da percepção de que perdeu o controle, a pessoa pode começar a esconder as compras, omitir dívidas da família e evitar o convívio social.
“Com a frustração e a vergonha, ela começa a esconder da família, começa a se isolar. E, com esse isolamento, desenvolve ansiedade ou, muitas vezes, depressão”, alerta.
A especialista ressalta que o agravamento do quadro pode dificultar ainda mais a procura por ajuda. Por isso, familiares e pessoas próximas também precisam estar atentos às mudanças de comportamento, especialmente quando as compras passam a comprometer o orçamento e as relações pessoais.
Como interromper o ciclo de compras
Além do acompanhamento psicológico e, quando necessário, psiquiátrico, algumas mudanças na relação com o ambiente digital podem ajudar a reduzir os estímulos ao consumo.
Entre as medidas estão desativar notificações de lojas e aplicativos, retirar cartões salvos nas plataformas, evitar o recebimento de mensagens promocionais e estabelecer um intervalo entre o desejo de comprar e a decisão de finalizar o pedido.
A reportagem da Forbes Brasil também destaca a importância de observar os estados emocionais que antecedem as compras. Ansiedade, cansaço e tédio podem funcionar como gatilhos para quem utiliza o consumo como uma tentativa de aliviar sentimentos desagradáveis.
Para Fabiane Fagundes, entretanto, quando a compra já se transformou em compulsão, não basta apenas tentar controlar os gastos. O tratamento exige acompanhamento profissional e mudanças nos padrões de comportamento.
A orientação é não esperar que as dívidas comprometam as necessidades básicas ou que o sofrimento emocional se agrave para procurar ajuda. Afinal, o problema não está simplesmente em comprar, mas em perder a capacidade de decidir quando parar.
Da Redação do Rotativo News
