Mestra em Comunicação pela Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB).
Quando a corrida deixa de ser coletiva
O país inteiro comentou, nos últimos dias, a história da mulher que abandonou o amigo durante uma trilha no Pico do Paraná. Ele ficou cinco dias perdido, enfrentando frio, fome, exaustão e medo. O caso chocou não apenas pela situação extrema, mas pelas falas posteriores da amiga, que escancararam uma discussão maior: confiança, responsabilidade e limites.
Mas é para além do fato isolado que essa história precisa nos levar.
Ela lança luz sobre um cenário cada vez mais comum e pouco debatido dentro dos grupos de corrida, trilhas e ciclismo. Ambientes que deveriam promover saúde, bem-estar e coletividade vêm, em muitos casos, se transformando em espaços tóxicos, alimentados por uma competitividade excessiva e, muitas vezes, estimulada por quem deveria orientar.
Falo com propriedade. Entrei na corrida aos 20 anos e, durante muito tempo, participei de grupos. Com o passar dos anos e das experiências, fiz uma escolha consciente: me afastar. Não por falta de amor ao esporte, mas pelo ambiente que se formava. Um espaço onde o outro deixa de ser companheiro e passa a ser concorrente. Onde o desempenho vira régua de valor: quem corre mais, quem tem o melhor tênis, quem viaja para provas fora do país, quem aparece mais.
E tudo isso vai corroendo, silenciosamente, a saúde mental.
Hoje, qualquer consulta médica começa com a mesma pergunta: você pratica atividade física? E a recomendação vem quase como uma prescrição. A atividade física é remédio. Ajuda no corpo, na mente, na longevidade. Libera endorfina, melhora o humor, organiza pensamentos. Mas quando essa prática acontece em ambientes que estimulam comparação constante, disputa desnecessária e vaidade travestida de performance, ela deixa de ser cura e passa a ser gatilho.
O abandono na trilha não é um ponto fora da curva. Ele é sintoma. Em muitos clubes e grupos, especialmente formados por atletas amadores pessoas que não vivem do esporte a lógica da competição se sobrepõe à lógica do cuidado. E quando alguém é deixado para trás, literal ou simbolicamente, a pergunta que fica não é sobre pace ou colocação. É sobre caráter.
Isso nos leva a um questionamento inevitável: quem são as pessoas com quem escolhemos caminhar, correr, pedalar e viver?
É importante dizer: não deixe de fazer atividade física por causa disso. Todo ambiente terá alguém tóxico. Sempre haverá quem queira se destacar às custas do outro. O aprendizado está em não permitir que essas pessoas nos contaminem, e em saber escolher melhor nossas companhias.
O caso do Pico do Paraná precisa, sim, ser debatido. Não apenas como um episódio extremo, mas como um alerta. Saúde não combina com abandono. Movimento não combina com ego. E nenhuma conquista vale mais do que a humanidade que se perde no caminho.
Final de 2025. E, como manda o figurino, as pessoas já começaram os ensaios da superstição.
É a cor da roupa que vai “chamar” o que se deseja para o ano seguinte. Branco para a paz, amarelo para o dinheiro, vermelho para o amor — como se o destino obedecesse ao guarda-roupa. Tem quem pule sete ondas, quem guarde doze caroços de uva na carteira, quem faça questão de entrar o ano com o pé direito… ou discuta se vale o esquerdo, ou se os dois ao mesmo tempo não dariam mais garantia.
Há quem coma lentilha, quem evite andar para trás, quem não coma aves porque elas ciscam para trás — afinal, ninguém quer retroceder logo na virada. Uma coleção de rituais que, além de alimentar a esperança, movimenta também o mercado das festas de Réveillon, das promessas, das viradas cinematográficas.
Mas, passada a contagem regressiva e os fogos, talvez a pergunta mais honesta seja outra: em que cenário, de fato, estamos entrando?
2026 não será apenas mais um ano. Será um ano eleitoral no Brasil, com eleições para deputados estaduais e federais. Será também ano de Copa do Mundo, com o Brasil em busca do tão sonhado hexa. E, paralelamente a tudo isso, haverá você — tentando organizar a própria vida.
Você que quer tirar o nome do SPC, começar uma dieta, iniciar uma faculdade, concluir uma pós-graduação. Você que pensa em transformar namoro em noivado, noivado em casamento. Você que carrega sonhos silenciosos e metas que só você conhece. Planos absolutamente legítimos de qualquer pessoa em sã consciência.
Mas não adianta começar um ano novo tentando criar uma vida nova apenas pela roupa escolhida no Réveillon.
Sonhos exigem mais do que simpatias. Metas pedem mais do que rituais.
Vida nova requer planejamento. Pode ser simples, feito à mão mesmo: caneta, papel, agenda. Algo que acompanhe seus passos ao longo do ano, não só na empolgação da virada, mas nos dias comuns — aqueles em que ninguém está olhando, em que não há fogos nem contagem regressiva.
Com saúde, o resto a gente constrói. Mas construção exige coragem.
Coragem para enfrentar o que precisa ser enfrentado para alcançar os resultados que se deseja. Não adianta o ano mudar se você permanece na inércia. Movimento é condição básica para qualquer virada real.
E lembre-se: nem tudo depende exclusivamente de você. Para aquilo que não depende, não se magoe, não se martirize, não se perca em culpas inúteis. Mas, para aquilo que depende só de você, entregue o seu melhor.
Não apenas na noite da virada. Mas em todos os outros 364 dias de 2026.
Que seja um ano de prosperidade, de realizações — e, sobretudo, de coragem.
Feliz Ano Novo. Em 2026, seguimos juntos no Super Sincera, aqui no Rotativo News.
Ressignificar sentidos O fim do ano chega trazendo luzes, festas e, junto com elas, balanços pessoais nem sempre confortáveis. É o tempo das comparações, das listas do que deu certo e do que ficou pelo caminho. Mas é preciso lembrar: nem tudo esteve sob o nosso controle. O que dependeu de nós merece aprendizado e continuidade. O que não dependeu, não deve se transformar em um tribunal emocional de fim de ano. Datas como o Natal carregam significados distintos. Para muitos, são momentos de afeto; para outros, despertam memórias difíceis. A vida, no entanto, permite algo essencial: ressignificar sentidos. Novas experiências, novos afetos e novas escolhas podem transformar a forma como enxergamos essas celebrações. Sem romantizações, é preciso reconhecer que o Natal também escancara desigualdades. Em um país profundamente desigual, enquanto algumas mesas são fartas, outras lutam pelo básico. Fingir que isso não existe é negar a realidade. Diante disso, cabe fazer a nossa parte. Ajudar quem está perto, com o que for possível: um gesto, um alimento, uma roupa, um cuidado. Pequenas ações têm força para aquecer quem recebe, e quem oferece. O fim do ano não precisa ser um peso. Nem tudo deu certo. Nem tudo dependia de você. E tudo bem. Que esse tempo seja um convite à ressignificação, à paz interior e à esperança. Não sobre a mesa perfeita, mas sobre estar em paz com os outros ou consigo. Ressignificar sentidos é, talvez, o maior presente possível.