
com Frei Jorge Rocha
tema: “vamos fazer uma vaquinha?”

com Frei Jorge Rocha
tema: “vamos fazer uma vaquinha?”

Por Manu Pilger – Mestra em Comunicação pela Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB)
Nos últimos dias, uma polêmica floresceu no jardim da música brasileira. Toni Garrido, cantor de voz marcante e alma inquieta, decidiu mudar um verso da canção Girassol, sucesso que há mais de vinte anos ilumina corações. Ele trocou “a grandeza de um menino” por “a grandeza de uma menina, de uma mulher”. E bastou um verso para dividir o país.
Uns aplaudiram. Outros torceram o nariz. E eu fiquei pensando: será que é errado revisitar o passado com novos olhos?
A arte, afinal, é um espelho do tempo. O que parecia inocente em 1999 pode soar desconfortável em 2025. A sociedade muda, as palavras ganham outros pesos, e até o amor pede revisão. Talvez Toni tenha feito o que muitos de nós evitamos: voltar ao que dissemos e admitir “hoje, eu já não penso mais assim”.
Mas há também o outro lado. Uma música é feita de muitas mãos, e mudar uma palavra sem combinar pode soar como puxar uma pétala do girassol sem avisar ao jardim. A arte é viva, sim, mas também é memória coletiva. E quando se mexe numa lembrança, é bom fazer isso com carinho, porque há quem ainda dance com a versão antiga.
Eu, particularmente, não vejo machismo em dizer que para ser homem é preciso ter a grandeza de um menino. Sempre li esse verso como um convite à pureza, à doçura, à leveza que o tempo endurece. Mas entendo o gesto de Toni. Talvez ele só tenha querido dizer que as mulheres também têm grandeza e têm mesmo.
O que me encanta nessa história é perceber que estamos aprendendo a olhar para o mundo com mais cuidado. A discutir palavras, a questionar letras, a revisar discursos. Não para apagar o passado, mas para iluminar o presente.
E se a música é sobre girassóis, talvez o recado seja esse: o importante é continuar virando o rosto para o sol, mesmo que o ângulo mude com o tempo.

com César Oliveira
tema: intoxicação por Metanol

Por Emanueli Pilger
A Constituição Federal de 1988 consagrou, como fundamento da república, a dignidade da pessoa humana (art. 1º, iii) e, como direito fundamental, o direito à vida (art. 5º, caput), ambos inalienáveis e indisponíveis. Tais princípios norteiam toda a atuação estatal, especialmente no que tange à efetivação do direito à saúde, assegurado pelo art. 196 da carta magna como direito de todos e dever do Estado.
A saúde, nesse contexto, é compreendida não apenas como ausência de doença, mas como condição essencial para o pleno exercício da cidadania, incumbindo ao poder público formular e executar políticas sociais e econômicas que visem à redução de riscos e ao acesso universal e igualitário a ações e serviços de promoção, proteção e recuperação da saúde, em consonância com os objetivos do Sistema Único de Saúde (sus) e os valores fundamentais de justiça social e solidariedade.
No cotidiano das unidades hospitalares brasileiras, a efetivação desse direito encontra severas limitações, sobretudo no que se refere ao acesso a leitos de unidade de terapia intensiva (uti). Diante da escassez de recursos e da alta demanda, agravadas pelas falhas na oferta de atenção básica, instituiu-se, no âmbito do sus, o sistema de regulação de leitos, que consiste na organização técnica da fila de pacientes que aguardam, em todo o estado ou município, vagas de internação em uti, observando critérios como gravidade clínica, tempo de espera e necessidade assistencial.
Destarte, essa fila de regulação é gerida por centrais especializadas, responsáveis por analisar laudos médicos e priorizar, de forma impessoal e equitativa, os casos mais urgentes. Trata-se de um instrumento técnico-administrativo essencial para a alocação justa de recursos escassos. Todavia, o que se verifica, com frequência crescente, é o fenômeno denominado “fuga da regulação”, que ocorre quando pacientes ou familiares, diante da espera, recorrem diretamente ao Poder Judiciário ou a canais de influência para obter, por decisão liminar, o acesso imediato ao leito, em detrimento da ordem estabelecida. Embora compreensível sob a óptica emocional e humana, tal prática desafia o princípio da isonomia (art. 5º, caput) e compromete a equidade do sistema.
Consoante entendimento consolidado na doutrina e na jurisprudência pátria, a judicialização da saúde, embora não constitua problema em si mesma, revela-se preocupante quando desconsidera critérios técnicos e compromete a organização da política pública. Ao conceder liminares que determinam a imediata internação em uti sem observar a fila da regulação, o Poder Judiciário, muitas vezes, interfere em decisões que são eminentemente médicas e administrativas, ensejando o risco de preterição de pacientes em estado mais grave. Esse tipo de intervenção, ainda que inspirado na proteção do direito à vida, pode colidir com outros princípios constitucionais, como a moralidade e a eficiência administrativas (art. 37 da cf), bem como com a dignidade de outros pacientes que igualmente aguardam na fila.
Ora, em um estado democrático de direito, é inaceitável que o direito à saúde seja convertido em privilégio. Sob a óptica constitucional, a dignidade da pessoa humana exige universalidade, impessoalidade e justiça distributiva. Um sistema justo não se pauta na capacidade de acesso ao Judiciário, mas sim na aplicação técnica e ética dos recursos públicos. A fila da regulação, conquanto imperfeita, configura o instrumento mais legítimo para preservar tais valores.
Dessarte, mais do que decisões judiciais isoladas, impõe-se, para a efetivação dos direitos fundamentais à vida e à dignidade da pessoa humana, o fortalecimento estrutural e sistemático da política pública de saúde. Isso inclui, de forma urgente, a ampliação da oferta de leitos de uti, o aprimoramento dos mecanismos de transparência na gestão dos recursos públicos e o rigoroso respeito aos protocolos técnicos que norteiam a regulação e a priorização do atendimento. Somente com a expansão da capacidade instalada e a melhoria da governança será possível assegurar um acesso mais justo, racional e universal aos serviços de saúde intensiva. Enquanto o acesso à uti permanecer submetido à lógica do privilégio, da influência política ou econômica, ou mesmo da pressão judicial dissociada dos critérios técnicos, o princípio constitucional da dignidade da pessoa humana continuará a ser desvirtuado, transformando a vida em uma mercadoria sujeita a disputas e desigualdades.

Na manhã desta quinta-feira, 2 de outubro, o presidente do Conselho Regional de Medicina do Estado da Bahia (Cremeb), Doutor Otávio Marambaia, concedeu entrevista ao programa Rotativo News, onde chamou atenção para um problema cada vez mais recorrente no estado: a violência contra médicos em pleno exercício da profissão.
Durante a conversa, Marambaia destacou que os casos de agressões verbais e físicas a profissionais da saúde têm se tornado uma preocupação constante para a categoria. Segundo ele, a falta de segurança nos ambientes de atendimento compromete não apenas o trabalho médico, mas também a qualidade da assistência prestada aos pacientes.
“Estamos diante de uma situação grave, em que médicos precisam lidar não só com a pressão da rotina de trabalho, mas também com o risco de sofrerem violência enquanto cumprem sua missão de salvar vidas”, afirmou o presidente do Cremeb.
A entrevista completa está disponível em formato de podcast, permitindo que a população acompanhe, em detalhes, as análises e reflexões de doutor Otávio Marambaia sobre esse tema urgente.
👉 Confira o podcast e entenda mais sobre os desafios enfrentados pelos médicos na Bahia

com Frei Jorge Rocha
Tema: as datas da língua portuguesa

com César Oliveira
tema: sociedade contaminada pelo ódio

Cinco Minutos
Manu Pilger é Mestra em Comunicação pela Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB)
Esses dias, no hortifruti, fiquei parada observando uma cena que me fez pensar. À minha frente, uma mulher com o carrinho lotado de frutas, verduras e congelados aguardava no caixa. De repente, o sistema do supermercado caiu. Cinco minutos de espera. Não foram dez, nem quinze, foram cinco minutos.
A moça do caixa avisou com calma que era preciso aguardar um pouco, que o sistema havia caído em todas as estações. E foi nesse momento que a mulher à minha frente simplesmente abandonou o carrinho cheio e foi embora.
O sistema voltou logo depois. O carrinho ficou ali, atravancando a fila, e os funcionários precisaram retirá-lo. E eu fiquei pensando: o que nos faz perder a paciência tão rápido? O que nos impede de esperar cinco minutos?
Não acredito que tenha sido preguiça. Foi impaciência. Uma impaciência que parece ter tomado conta da nossa vida moderna essa vida cada vez mais corrida, cheia de compromissos, trabalho, estudo, casa, filhos, marido, responsabilidades que não acabam nunca. E, para nós, mulheres, muitas vezes essa carga é ainda maior.
Mas aí eu pergunto: para onde estamos correndo? Se não conseguimos esperar cinco minutos numa fila de supermercado, como conseguimos esperar o tempo da vida? Como reagimos diante de uma provocação, de um conflito, de algo que exige calma e reflexão?
A verdade é que estamos acumulando tarefas e esquecendo que somos de carne e osso. Nosso corpo tem um “caixa interno” que também precisa ser cuidado. Porque, quando a conta chega, não dá para parcelar em doze vezes, nem passar no cartão de crédito ou no antigo cheque pré-datado. Quando a conta chega, ela chega inteira. E cobra caro: estresse, doenças, remédios… e, muitas vezes, o coração não aguenta.
Tenho refletido muito sobre isso, especialmente agora, aos 44 anos. Que caminhos eu quero percorrer? Onde eu quero chegar? E, principalmente, como eu quero chegar lá.
Cinco minutos de impaciência podem revelar um mundo de estresse que a gente carrega sem perceber. Talvez a pressa daquela mulher escondesse uma sobrecarga silenciosa. Talvez fosse só mais um sinal de que precisamos parar, respirar, reorganizar a vida e, acima de tudo, aprender a esperar.
Porque, no fim, cinco minutos não são nada. Mas podem dizer muito.

com Frei Jorge Rocha
tema: palíndromo

A iniciativa faz parte das comemorações da Semana Nacional de Trânsito
com Ricardo Cunha – superintendente Municipal de Trânsito