Neurocientista afirma que os sonhos desempenham papel fundamental para a memória, o equilíbrio emocional e o funcionamento do cérebro, mas ressalta que a ciência ainda não comprova a existência de sonhos premonitórios

Foto: arquivo pessoal

Quem nunca acordou intrigado após um sonho tão real que parecia ter acontecido de verdade? Ou acreditou que determinado sonho poderia ser um aviso sobre algo que ainda estava por vir? Embora essas dúvidas acompanhem a humanidade há séculos, a neurociência vem avançando na compreensão do que acontece no cérebro durante o sono e qual é a verdadeira função dos sonhos.

Em entrevista ao Rotativo News, o neurocientista e professor da Faculdade Católica de Brasília, Leandro Oliveira, explicou que todas as pessoas sonham, mesmo aquelas que acreditam não ter sonhos.

Segundo ele, o que acontece, na maioria das vezes, é que o cérebro não consegue registrar as lembranças quando o indivíduo desperta em um momento diferente do ciclo do sono.

“O fato de uma pessoa não lembrar do sonho não significa que ela não tenha sonhado. Todos nós sonhamos quando o sono ocorre de maneira adequada”, explica.

Muito além da imaginação

De acordo com o especialista, os sonhos exercem funções essenciais para o cérebro. Entre elas está a consolidação da memória, permitindo que informações importantes sejam armazenadas, além do processo de esquecimento de conteúdos que já não são necessários.

Leandro Oliveira destaca que esquecer também é uma função saudável do cérebro.

“Mais importante do que lembrar de tudo é conseguir esquecer aquilo que não tem utilidade. O sonho participa desse processo.”

Além disso, durante o sono o cérebro realiza uma espécie de simulação de situações da vida real. Emoções, desafios, relações sociais e experiências são reorganizados, funcionando como um treinamento mental para situações futuras.

É justamente por isso que muitos sonhos parecem tão reais.

“Para o cérebro, durante o sonho, a experiência imaginada é processada de forma muito semelhante à experiência vivida”, afirma.

Sonhos são avisos?

Uma das crenças mais populares é a de que os sonhos podem antecipar acontecimentos futuros.

Segundo o neurocientista, até o momento a ciência não possui evidências suficientes para afirmar que sonhos sejam premonições.

Ele explica que, muitas vezes, o cérebro capta informações de forma inconsciente ao longo do dia. Essas informações permanecem armazenadas e podem surgir posteriormente durante o sonho, dando a impressão de que houve uma previsão dos acontecimentos.

Apesar disso, Oliveira ressalta que alguns fenômenos continuam despertando interesse da comunidade científica e ainda carecem de explicações definitivas.

Quando os pesadelos merecem atenção

Ter pesadelos ocasionalmente é considerado normal. No entanto, quando eles se tornam frequentes, podem indicar alterações que merecem investigação médica.

Ansiedade, depressão, estresse pós-traumático, privação de sono, febre e até problemas metabólicos ou cardiovasculares podem influenciar diretamente a qualidade do sono e favorecer o aparecimento de pesadelos.

Nesses casos, a recomendação é procurar avaliação especializada, que pode incluir exames como a polissonografia para investigar possíveis distúrbios do sono.

Dormir pouco — ou dormir demais — faz mal

Outro alerta feito pelo especialista diz respeito ao tempo de sono.

Segundo Leandro Oliveira, tanto a privação quanto o excesso de sono podem prejudicar o organismo.

O ideal para a maioria dos adultos é dormir entre sete e oito horas por noite, período considerado suficiente para que o cérebro realize processos importantes de recuperação, reorganização das informações e equilíbrio emocional.

Crianças também sonham

Ao contrário do que muitos imaginam, as crianças também sonham desde muito cedo.

Como o cérebro infantil está em intenso desenvolvimento, elas necessitam de um tempo maior de sono, podendo dormir entre 10 e 11 horas por dia.

Nesse período, o cérebro organiza conexões neurais fundamentais para o aprendizado e o desenvolvimento cognitivo.

O que são os sonhos lúcidos?

Durante a entrevista, Leandro Oliveira também explicou o fenômeno conhecido como sonho lúcido.

Nesse tipo de experiência, a pessoa percebe que está sonhando e, em alguns casos, consegue até interferir no próprio sonho.

Embora essa habilidade seja relativamente rara, pesquisas na área da neurociência demonstram que ela pode ser identificada por meio da atividade cerebral registrada durante o sono REM, fase em que ocorrem movimentos rápidos dos olhos e a maioria dos sonhos mais intensos.

Segundo o especialista, esse estágio do sono desempenha papel importante na regulação das emoções, no processamento de traumas e na chamada “higienização” cerebral, processo essencial para o bom funcionamento do cérebro.

Para o neurocientista, embora muitos mistérios ainda envolvam o universo dos sonhos, a ciência já demonstra que dormir bem é indispensável para a memória, a saúde mental e a qualidade de vida.

Leandro Freitas Oliveira

Doutor em Neurologia e Neurociências pela Universidade Federal de São Paulo – Escola Paulista de Medicina (UNIFESP-EPM), pós doutorado em Neurologia e Neurociências pela mesma Universidade. Graduado em Psicologia pela Universidade Católica de Brasília (UCB), especialista em Neuropsicologia pelo Hospital Israelita Albert Einstein. Membro titular da International Neuropsychological Society.

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