Delegada de Polícia Civil aposentada, que atuou por três décadas na instituição, fala sobre etarismo, redes sociais, sobrecarga feminina, violência contra a mulher e a importância de recalcular a rota da vida

Depois de três décadas dedicadas à Polícia Civil da Bahia, a delegada aposentada Dorean Soares vive uma fase que, segundo ela própria, é a melhor de sua vida. Aos 61 anos, prestes a completar 62, ela deixou a rotina da instituição, mas não abandonou as discussões que considera importantes para as mulheres.

Presente nas redes sociais, onde compartilha opiniões, momentos pessoais e imagens de sua rotina, Dorean afirma que a aposentadoria trouxe uma liberdade que nem sempre era possível enquanto ocupava um cargo público.

“Quando você está num cargo, você tem toda uma liturgia do cargo. Então, enquanto eu estava na ativa, não era a Dorean mulher falando, era a Dorean, a delegada da Polícia Civil da Bahia. Eu falava através da Polícia Civil”, explicou.

Segundo ela, a aposentadoria foi planejada não para iniciar uma nova carreira, mas para finalmente dedicar mais tempo à própria vida. Depois de cinco anos de advocacia e 30 anos na Polícia Civil, Dorean conta que decidiu não estabelecer grandes planos profissionais para essa nova etapa.

“Qual é o seu plano para a sua aposentadoria? Eu quero viver”, afirmou.

A mudança, segundo ela, significou reduzir cobranças e ter mais tempo para a família, os amigos e para si mesma. Atualmente, participa de palestras e atividades ligadas ao empreendedorismo feminino, além de utilizar as redes sociais como espaço para manifestação e diálogo.

“Sempre há tempo de recalcular a rota”

Uma das mensagens que Dorean mais repete nas redes sociais é a necessidade de rever caminhos quando alguma coisa deixa de fazer sentido.

“Sempre há tempo de recalcular a rota. Não é mudar a sua rota, é recalcular a sua rota”, destacou.

Para ela, esse processo também passa pelo amor-próprio. Dorean afirma que passou a estabelecer limites com mais facilidade e a compreender que não precisa aceitar situações ou relações que não lhe fazem bem.

“Eu me amo tanto que eu não dou espaço para ninguém mais me dar migalha como me deram antigamente”, declarou.

A delegada aposentada também reconhece que falar o que pensa exige responsabilidade. Por isso, diz que, embora atualmente tenha mais liberdade para se posicionar, nem sempre deixa de filtrar suas palavras para não ferir outras pessoas.

Nas redes sociais, biquíni, cropped e liberdade aos 60+

A presença de Dorean nas redes sociais também é marcada por publicações em que aparece de biquíni, short ou cropped. Para ela, a escolha de como se vestir não deve ser determinada pelo julgamento alheio.

O tema ganhou ainda mais repercussão diante das críticas direcionadas à apresentadora Xuxa, de 63 anos, em razão de figurinos usados em uma apresentação recente. Dorean vê nesse tipo de comentário uma manifestação de etarismo e aproveita a própria experiência para incentivar outras mulheres a não abrirem mão de sua liberdade por medo da opinião dos outros.

“Eu posto de biquíni, eu posto de short, eu posto de cropped, primeiro, porque posso, segundo, porque gosto”, afirmou.

Dorean diz que seu objetivo é mostrar especialmente às mulheres de 40, 50, 60 anos ou mais que idade não deve determinar o que elas podem vestir ou como devem se comportar.

“Se você está bem, se você se sente bem com aquela roupa, minha amiga, se jogue. Não importa o que vão falar de você”, defendeu.

Para lidar com críticas nas redes sociais, a estratégia é direta: responder quando considera necessário e bloquear quem ultrapassa os limites.

“Na minha rede social, se vier, eu respondo e bloqueio. E eu não dou palco para doido”, disse.

“Ela não é guerreira, ela está cansada”

Outro tema abordado por Dorean foi a sobrecarga feminina dentro das famílias. Para ela, a sociedade ainda atribui às mulheres uma quantidade desproporcional de responsabilidades relacionadas aos filhos, mesmo quando homens e mulheres trabalham e dividem as despesas da casa.

A delegada aposentada questiona, inclusive, o uso recorrente da palavra “guerreira” para definir mulheres que acumulam inúmeras funções.

“Não é não, ela está cansada. Ela só quer dividir responsabilidade”, afirmou.

Na avaliação de Dorean, a presença do pai na família não deve se limitar ao papel de provedor ou aos momentos comemorativos. Ela defende uma participação efetiva na rotina dos filhos, incluindo compromissos escolares, consultas médicas e demais responsabilidades.

“Mulher, mulher não tem que competir com a outra. Mulher tem que ajudar uma outra a crescer. Porque se Klesse cresce, eu também cresço. E vice-versa”, afirmou ao final da entrevista, destacando também a importância da sororidade.

Combate à violência contra a mulher precisa ir além do discurso

Com a experiência de 30 anos na Polícia Civil e atuação relacionada ao enfrentamento da violência contra a mulher, Dorean também falou sobre os números de feminicídios no Brasil.

Ela afirmou acompanhar com tristeza a permanência dos altos índices de violência e criticou o que considera uma distância entre os discursos políticos de defesa das mulheres e a efetiva participação feminina nos espaços de poder.

“Hoje a pauta para todos os candidatos, a nível estadual, a nível federal, a pauta é violência contra a mulher. Mas na hora de dividir o poder, eles não dividem”, criticou.

Para Dorean, a desigualdade também aparece na presença reduzida de mulheres na política e nos ataques direcionados àquelas que conseguem alcançar posições de destaque.

“Eu acho que está na hora de nós, mulheres do Brasil, revermos essa posição”, afirmou, defendendo que o eleitorado feminino escolha representantes verdadeiramente comprometidas com as pautas das mulheres.

“Não é só oba-oba. Porque é bonito, porque é lindo. Não, é compromisso real. Para resolver o problema”, completou.

A delegada aposentada também ressaltou que a violência contra a mulher não pode ser enfrentada apenas com discursos. Para ela, é necessário transformar a preocupação com os feminicídios em ações concretas.

“A gente está cansada de discurso”, afirmou. “Isso tem que parar. E tem que parar de discurso.”

Uma nova etapa, com mais liberdade

Ao olhar para a aposentadoria, Dorean não fala em encerramento, mas em reinvenção. Depois de uma vida profissional marcada pela investigação, pela gestão e pela atuação na Polícia Civil, ela afirma que agora escolhe onde estar, com quem estar e quais causas defender.

A nova fase também trouxe uma relação diferente com o tempo e com as próprias escolhas.

“Hoje eu estou vivendo em paz, leve. E é isso que eu quero”, declarou.

A mensagem que leva para outras mulheres é justamente a possibilidade de recomeçar, rever escolhas e construir novas formas de viver.

“Eu estou dizendo à mulher, de 40, 50, 60, mais, que ela não tem que ir pela cabeça dos outros e ficar pensando: ‘Ah, o que é que vão me julgar?’”, afirmou.

Da Redação do Rotativo News.

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